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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Barão de Itararé

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
29.01.1895 Brasil / Rio Grande do Sul / Rio Grande
27.11.1971 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
BiografiaFernando Apparicio Brinkerhoff Torelly (Rio Grande RS 1895 - Rio de Janeiro RJ 1971). Jornalista, humorista, poeta. Aos dois anos de idade, após o suicídio da mãe, passa a viver na fazenda do avô, no Uruguai, retornando aos cuidados do pai cinco anos depois. De 1905 a 1911, estuda em São Leopoldo, em um colégio de jesuítas, onde, aos 13...

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Biografia
Fernando Apparicio Brinkerhoff Torelly (Rio Grande RS 1895 - Rio de Janeiro RJ 1971). Jornalista, humorista, poeta. Aos dois anos de idade, após o suicídio da mãe, passa a viver na fazenda do avô, no Uruguai, retornando aos cuidados do pai cinco anos depois. De 1905 a 1911, estuda em São Leopoldo, em um colégio de jesuítas, onde, aos 13 anos, cria seu primeiro jornal, O Capim Seco, apreendido pelo padre reitor logo em sua primeira edição. Ingressa no curso de Farmácia, mas se transfere para o de Medicina, que não chega a concluir. Em 1916, publica, sob o pseudônimo Apporelly, Pontas de Cigarro, poemas versando sobre a falta de dinheiro. Na mesma época, colabora para o diário Última Hora, além de trabalhar em jornais de diferentes cidades do interior gaúcho, como Bagé, Pelotas e São Borja. Transfere-se para o Rio de Janeiro em 1925, em busca de um clima mais quente que lhe amenizasse a hemiplegia (paralisia de um dos lados do corpo). Começa a trabalhar no jornal O Globo, e no fim do mesmo ano assina a coluna "Amanhã tem mais", do recém-criado A Manhã. Deixa este jornal em 1926, fundando o satírico A Manha, que entre encerramentos e retomadas encontrará seus períodos mais criativos em 1926-1935 e 1945-1955. Participa da fundação da Aliança Nacional Libertadora, em 1935, é preso e permanece por um ano e meio na prisão, tendo sido referido nas Memórias do Cárcere (1953), de Graciliano Ramos (1892 - 1953). Durante o Estado Novo (1937 - 1945), é preso sucessivas vezes, por períodos menos extensos. Elege-se vereador do Rio de Janeiro pelo Partido Comunista do Brasil em 1947, lutando por causas como o voto para analfabetos e denunciando abusos como os cometidos contra índios. É cassado, com todos do partido, no ano seguinte. Com dificuldades para relançar A Manha, o que acontece em 1950, publica a primeira edição do Almanhaque em 1949 - outras duas sairão em 1955. Volta a colaborar para Última Hora neste mesmo ano e de 1956 a 1958 escreve para o quinzenal Paratodos, de Álvaro Moreyra (1888-1964). Viaja à China, a convite do governo chinês, em 1963, e no retorno, após o suicídio de sua segunda mulher, já não volta a trabalhar: dedica-se ao estudo da numerologia e das ciências biológicas aliadas à tecnologia, sobrevivendo com a pensão da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro.

Comentário Crítico
Historicamente considerado pioneiro em conjugar humor e crítica política, Barão de Itararé nasce como pseudônimo em 1930. De início denominado Duque de Itararé, rebaixa o título de nobreza "como prova de modéstia". O nome seguido do epíteto - "Barão de Itararé, o Brando" - antecipa, aliás, suas características literárias. O artigo e o substantivo se unem em um cacófato, sugerindo se tratar de um verbo com sentido escatológico. Já Itararé refere um episódio histórico brasileiro: na cidade de mesmo nome se dá uma violenta batalha contra os gaúchos que, acompanhando Getulio Vargas, subiam ao Rio de Janeiro para tomar o poder. A Revolução aconteceu sem que tenha sido necessária, contudo, nenhuma luta armada.

Assim como a previsão política equivocada, nada escapava à inclinação satírica do humorista, sempre pronto a destacar e atacar fatos públicos nacionais. Quando da visita do então embaixador da Itália, Mário Augusto Martini, ao interventor em São Paulo, Macedo Soares, escreveu: "Segundo testemunha ocular, o Sr. Mais Cedo Só Ares mostrou-se exuberante nas suas manifestações de cordialidade, eloquente e efusivo demais. E o Sr. Martini, seco".

Os trocadilhos com os quais recria nomes de figuras da cena brasileira são uma constante na produção do autor. Gustavo Capanema, ministro da Cultura durante o Estado Novo, era referido como Gustavo Capa Anêmica; o general Góes Monteiro, como Gás Morteiro.

Há certa dimensão datada na obra de Barão de Itararé, que dificulta o entendimento contemporâneo de parte de seus escritos: seu legado está hoje reunido nas edições fac-similares dos Almanhaques, que não apenas comentam fatos ocorridos à época da publicação, como também reeditam textos veiculados em A Manha, exigindo do leitor conhecimento factual das situações referidas.

Mas os Almanhaques apresentam também textos não identificáveis à crônica política. É o caso, por exemplo, das páginas dedicadas ao Barão, com o seu brasão de armas e sua árvore genealógica: "? sua vida pública é, na verdade, uma continuação da privada. É um homem sem segredos, que vive às claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas". Ou então das receitas, como a de "Perdizes ao molho Madeira": "[?] Pegue a perdiz, sem penas, atire-a dentro da panela, que já deve estar ao rubro, abra depressa outra garrafa e vá bebendo, trago a trago, para não esfriar [?]".

Foi sobretudo com sentenças curtas que Barão de Itararé se popularizou. "Há algo no ar, além dos aviões de carreira", escreveu, ao notar o enfraquecimento do Estado Novo, frase à época repetida por comentaristas políticos e cujo eco popular se ouve ainda hoje. Já o letreiro "Entre sem bater", comumente exibido em portas de locais públicos, teria sido por ele apropriado, conforme narra Mouzar Benedito: depois de sequestrado e torturado por oficiais da Marinha descontentes com suas publicações, Torelly colocou o aviso em sua sala de trabalho, ironizando o cerceamento à imprensa manifesto violentamente.

As máximas do Barão, publicadas no rodapé das páginas do Almanhaque, tornaram-se igualmente célebres - e parecem não sofrer prejuízo de leitura fora do contexto inicial: "O erro do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta"; "Diz-me com quem andas e eu te direi se vou contigo"; "Anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças que ele mesmo cometeu"; "Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato"; "Em pé de pobre é que o sapato aperta".

Seja a partir dos trocadilhos chistosos, seja pela recriação de ditos populares, revela-se a força questionadora do humor de Barão de Itararé. Procurando denunciar os abusos políticos e as injustiças sociais brasileiras, o autor apresentou-se, nas palavas de Leandro Konder, como "cidadão livre de preconceitos elitistas, isento de compromissos ideológicos conservadores, identificado com o anseio de participação das amplas massas do povo na vida do país".

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