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Literatura

Otto Maria Carpeaux

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 17.06.2015
09.03.1900 Áustria / a definir / Viena
03.02.1978 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Otto Maria Karpfen (Viena, Áustria, 1900 - Rio de Janeiro, RJ, 1978). Ensaísta e jornalista. Filho do advogado e pianista judeu Max Karpfen e da violonista católica Gizela Schmelz Karpfen. Aos 20 anos ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Viena. Obtém, em 1925, o título de doutor em letras e filosofia e inicia trabalho como jornali...

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Biografia
Otto Maria Karpfen (Viena, Áustria, 1900 - Rio de Janeiro, RJ, 1978). Ensaísta e jornalista. Filho do advogado e pianista judeu Max Karpfen e da violonista católica Gizela Schmelz Karpfen. Aos 20 anos ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Viena. Obtém, em 1925, o título de doutor em letras e filosofia e inicia trabalho como jornalista. Intelectual ativo, estuda ciências matemáticas em Leipzig, Alemanha, sociologia em Paris, literatura comparada em Nápoles, Itália, e política em Berlim. Tempos depois, por opor-se ao regime nazista em ascensão na Alemanha, é perseguido e foge, em 1938, para a Antuérpia, Bélgica, onde trabalha no periódico Gazet van Atwerpen. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) vem para o Brasil, em 1939. Chega ao Paraná com sua mulher, a cantora lírica Helena Carpeaux, e depois vai para São Paulo. Conhecedor de diversos idiomas, aprende o português em menos de um ano. Transforma seu sobrenome original, Karpfen, em Carpeaux (francês) - ambos significam carpa -, por considerá-lo mais prestigioso entre os intelectuais brasileiros. Muda-se, em 1940, para o Rio de Janeiro. Em 1941, precisando urgentemente de trabalho, envia uma carta ao crítico Álvaro Lins (1912-1975), oferecendo um artigo sobre o escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), que conhece pessoalmente na Europa. O artigo é aceito e então passa a colaborar no jornal carioca Correio da Manhã. Em 1942, torna-se diretor da biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia, e publica seu primeiro livro em língua portuguesa, A Cinza do Purgatório. Assume a direção da biblioteca da Fundação Getulio Vargas (FGV), em 1944, cargo que ocupa até 1949. Sua maior e mais conhecida obra é a História da Literatura Ocidental, escrita entre os anos de 1941 e 1947 e publicada em oito volumes, entre 1959 e 1966. Trabalha, a partir de 1950, como redator editorialista do Correio da Manhã. Em 1968, anuncia o fim de sua carreira literária e promete dedicar o resto de seus dias à luta política, fazendo oposição ao regime militar instaurado no Brasil em 1964. Além da produção extensa de ensaios sobre literatura, publica livros sobre música, história da arte e política.

Comentário Crítico
O crítico Antonio Candido (1918) fala de Carpeaux como uma espécie de "herói civilizador", similar a outro grande intelectual estrangeiro radicado no Brasil, Anatol Rosenfeld (1912-1973), também de formação germanista, na medida em que ambos se instalam no país e contribuem de forma decisiva para a atualização do meio literário e a formação de novas gerações da crítica universitária. Há, por exemplo, marcas da influência de Carpeaux na formação de Alfredo Bosi (1936), que em breve ensaio chega a reconhecer sua dívida com o mestre austríaco.

Em termos de atualização de um meio literário ainda um tanto provinciano, restrito às referências francesas, Carpeaux é o primeiro a falar do escritor tcheco Franz Kafka e de revelar autores escandinavos, eslavos e húngaros, além de comentar obras de escritores ingleses e norte-americanos. Chama atenção para a importância da cultura espanhola e para o barroco literário, e divulga italianos como Giovanni Verga (1840-1922), Giambattista Vico (1668-1744), Francesco de Sanctis (1817-1883) e Benedetto Croce (1866-1952), este marcando de forma decisiva suas concepções estéticas.

Em áreas vizinhas à literária, escreve, entre outros, sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), o historiador suíço Jacob Burckhardt (1818-1897), e os representantes da "sociologia do saber" Karl Mannheim (1893-1947) e Max Weber (1864-1920), a cujas concepções Carpeaux torna a recorrer ao definir os pressupostos teórico-metodológicos de sua obra maior, sobre a literatura ocidental. Sua facilidade no aprendizado de línguas estrangeiras lhe permite, em pouco tempo de estada no Brasil, dominar o português e se inteirar dos principais autores brasileiros, escrevendo ensaios decisivos sobre Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Graciliano Ramos (1892-1953).

O jornal é seu principal instrumento, ajustado às suas diversas vocações, como redator, escritor e militante político. Seu livro de estreia, Cinzas no Purgatório, é formado com os artigos publicados originalmente no Correio da Manhã, do mesmo modo que o segundo, Origens e Fins, recolhe ensaios estampados em outros jornais cariocas. Do jornal, Carpeaux se abre para os livros orgânicos, feitos para formar e informar a respeito não só do literário, atestando, assim, sua versatilidade de polígrafo e vocação verdadeiramente pedagógica. Dentro desse espírito, publica Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira, Uma Nova História da Música, A Literatura Alemã e sua obra máxima: História da Literatura Ocidental, "monumento de erudição e inteligência", segundo Bosi.

Examinando em detalhe a concepção dessa grande obra, Antonio Candido mostra que a vocação supranacional ou universalista de Carpeaux encontra aí sua maior expressão pelo ânimo comparativo e integrador das várias línguas e literaturas abordadas com grande intimidade. "A sua visão universal permite transpor as limitações eventuais do nacionalismo crítico, cuja função histórica é importante em certos momentos, mas não deve servir para obliterar a dimensão verdadeira do fenômeno literário, que por sua natureza é tanto transnacional quanto nacional. Carpeaux demonstra noutros lugares como a literatura do Brasil ganha em ser vista de uma perspectiva dupla, como esta sua, capaz de aumentar o discernimento e quebrar a rotina."

Com o rótulo de literatura ocidental, Carpeaux engloba não apenas as principais literaturas europeias (alemã, espanhola, francesa, grega, inglesa, italiana, romana, russa) e as mais periféricas (como a portuguesa, a holandesa, a polonesa, a provençal, a catalã e as escandinavas), mas também as que derivam de algumas delas em solo americano, como a norte-americana, a hispano-americana e, é claro, a brasileira.

Na abordagem de tamanha diversidade, Carpeaux não recorre à mera justaposição de tais literaturas, mas busca fundi-las num todo orgânico. Para garantir uma visão abrangente e múltipla, mas una, ele adota certos procedimentos metodológicos importantes, tais como a supressão das distinções de línguas e nacionalidades literárias, bem como a desconsideração das distinções entre os gêneros literários. Isso porque, como explica Candido, o interesse de Carpeaux está em "mostrar os grandes conjuntos orgânicos que exprimem o ritmo criador das épocas, vistas na totalidade de sua cultura, da qual a literatura se destaca. Daí a importância do tempo, não em seu aspecto mecânico e limitante, que é a cronologia, mas como princípio de organização do material estudado".

Trata-se, em suma, de buscar flagrar, nessa dinâmica espácio-temporal, o espírito de (cada) época, como diria o filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831), em cujo pensamento se inspira a concepção dialética de Carpeaux das relações entre literatura e sociedade. Para abordar tais relações, ele propõe um método estilístico-sociológico na Introdução da História da Literatura Ocidental que vale citar, por fim, como síntese de suas concepções estéticas: "A literatura é, pois, estudada [...] como expressão estilística do Espírito objetivo, autônomo, e ao mesmo tempo como reflexo das situações sociais. [...] Assim, o método estilístico-sociológico tem de provar, pela sua aplicação à literatura, a capacidade de explicar as relações entre os fatos literários, substituindo-se a enumeração biobibliográfica dos fatos pela interpretação histórica."

Obras 1

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Fontes de pesquisa 5

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  • BOSI, Alfredo. Carpeaux e a dignidade das letras. Céu, Inferno. São Paulo: Ed. 34, 2003.
  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36. ed. rev. e aum. São Paulo: Cultrix, [1999]. 528 p.
  • CANDIDO, Antonio. Dialética apaixonada. In: ______. Recortes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
  • CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios reunidos: 1942-1978. Rio de Janeiro: UniverCidade Ed.: Topbooks, 1999. 928p.
  • CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. 2. ed., rev. e atualizada. Rio de Janeiro: Alhambra, 1978.

Como citar

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