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Teatro

Ricardo Karman

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.09.2021
1957 Brasil / São Paulo / São Paulo
Ricardo Karman (São Paulo SP 1957). Diretor e autor. Dirige dois espetáculos que marcam os anos 1990 pelo insólito de conduzir o público numa travessia interativa por locais urbanos inusitados e originais; oferecendo-lhes uma vivência sensorial, criando conexões entre teatro, artes plásticas, performance e vídeo. Viagem ao Centro da Terra, em 19...

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Biografia
Ricardo Karman (São Paulo SP 1957). Diretor e autor. Dirige dois espetáculos que marcam os anos 1990 pelo insólito de conduzir o público numa travessia interativa por locais urbanos inusitados e originais; oferecendo-lhes uma vivência sensorial, criando conexões entre teatro, artes plásticas, performance e vídeo. Viagem ao Centro da Terra, em 1992, e A Grande Viagem de Merlim, em 1996, ambos criados e dirigidos em parceria com Otávio Donasci.

Arquiteto de profissão, Karman estagia no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho, de 1985 a 1989. Seu primeiro trabalho profissional é 525 Linhas, de Marcelo Rubens Paiva, em 1989. Trata-se de um espetáculo experimental multimídia com videoinstalações no palco da extinta Aeroanta, prestigiada casa de shows de vanguarda do período. É nessa peça que Karman conhece seu futuro parceiro, Otávio Donasci, celebrizado no terreno da arte/tecnologia, através de suas videocriaturas. Nesse ano, Ricardo Karman funda a Kompanhia do Centro da Terra.

Em 1992, criam Viagem ao Centro da Terra, realização batizada com o nome de Expedição Experimental Multimídia, onde o público é tratado como expedicionário de uma jornada por cenários e paisagens desconhecidas e inesperadas. Realizada no grande fosso aberto quando da obra estagnada do túnel Jânio Quadros, no Ibirapuera, o espetáculo multimídia mescla ação verbal e não verbal em dramatizações, instalações sensoriais, experiências reais e caminhadas no escuro. O correspondente italiano, no Brasil, Oliviero Pluviano, descreve trechos do espetáculo: "Improvisadamente surge um minotauro, completamente nu, que rapta uma espectadora paralisada pelo medo e foge com ela, perseguido pelo namorado desesperado da pobre eleita. Então um temível cavalo a galope se aproxima na escuridão para exibir uma caveira num tubo de imagem que ocupa o lugar da cabeça de um cavaleiro. Um público indeciso entre covardia e diversão pega um 'fio de Ariadne' das mãos de duas velhas sibilas pouco vestidas. Uma cordinha para cada sexo conduz a uma experiência que passa do coletivo ao individual com 'presenças' invisíveis que te pegam a mão para passá-la sobre um corpo nu de mulher, presumíveis gnomos que na mais cega escuridão, te seguram nos joelhos. Luzes eletrônicas conduzem a uma colunata de plásticos transparentes inflados que bloqueiam o túnel. Parecem uma floresta de enormes preservativos com dentro belíssimas modelos e musculosos rapazes, todos obviamente como a natureza os fez. No momento de prosseguir, os hospedeiros das paliçadas se mexem para tocar, abraçar e beijar os espectadores e espectadoras através do véu plástico. Safe sex é o nome do 'quadro' em geral superado com muita dificuldade... e sem pressa alguma".1

Uma nova realização nos mesmos moldes, mas ainda mais ampla e radical, ocorre em 1996 com A Grande Viagem de Merlim, a II Expedição Experimental Multimídia. O roteiro, baseado na lenda do mago Merlin, trata, sobretudo, da relação entre masculino e feminino implícito ao mito. O texto, uma costura de diversos autores, tem assinatura do dramaturgo Luís Alberto de Abreu. Uma instalação sobre rodas, denominada carreta-multimídiaconduz o público a um aterro sanitário, às ruínas do teatro Polytheama, em Jundiaí, encerrando seu percurso junto à lagoa da cerâmica Nivolini, junto à Serra do Japi.

O articulista Marcelo Coelho assim descreve sua experiência como espectador: "Fiquei encantado. Aquilo é uma espécie de Disneylândia, de trem-fantasma, de túnel do amor, de viagem turística. Vi coisas lindas: um lago de contos de fadas, as ruínas de um teatro em Jundiaí que começa parecendo castelo medieval; um subúrbio tomado por lixo e fogaréus. Senti medo, como se fosse uma criança em alguns momentos. Na maior parte das vezes, fiquei deslumbrado. Os realizadores do espetáculo não nos fazem entrar a toa naquele caminhão: encontraram, nas proximidades de São Paulo, lugares fantásticos, cenários wagnerianos, matas de druidas e sereias, infernos estrelados, salões de bailes derruídos para o público visitar...Passadas cinco horas de aventura, saí exausto e rejuvenescido".2

Em 2001 remonta a Viagem ao Centro da Terra, no Rio de Janeiro. Dessa vez, o túnel de concreto é substituído por uma gigantesca instalação inflável de 1 km de comprimento em um armazém na zona portuária da cidade. Nesse mesmo ano, inaugura o Teatro do Centro da Terra, uma sala de apresentações encravada no subsolo de um edifício no bairro do Sumaré.

Fazendo uma retrospectiva dos anos 1990, a crítica Mariangela Alves de Lima analisa: "Anômalo, circunscrito a São Paulo, é o diretor Ricardo Karman que criou duas obras autorais de extraordinária dimensão física e estética. [...] Atribuindo um propósito cenográfico às mais agressivas formas urbanas - a violentação de um rio, o lixo, a ruína - os espetáculos de Karman incitavam a uma relação transformadora com o espaço da cidade".3

Notas
1. PLUVIANO, Oliviero. Brasile: Sexy-Viaggio Teatrale Nelle Viscere Di San Paolo. Rio de Janeiro, ANSA, 2 de dezembro de 2001.

2. COELHO, Marcelo. 'Grande Viagem de Merlin' é Encantadora. São Paulo, Folha de S.Paulo, Ilustrada,. P.5, 1 de setembro de 1995.

3. LIMA, Mariangela Alves de. O teatro Paulista, in Sete Palcos - Cena Lusófona, nº 3, setembro de 1998.

Espetáculos 19

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Fontes de pesquisa 5

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  • COELHO, Marcelo. 'Grande Viagem de Merlin' é Encantadora. São Paulo, Folha de S.Paulo, Ilustrada,. P.5, 1 de setembro de 1995.LIMA, Mariangela Alves de. O teatro Paulista, in Sete Palcos - Cena Lusófona, nº 3, setembro de 1998.
  • MISTÉRIOS GOZOZOS à Moda de Ópera. São Paulo: Teatro Oficina Uzyna Uzona, [1994]. 1 programa do espetáculo realizado na Casa da Marquesa.
  • PLUVIANO, Oliviero. Brasile: Sexy-Viaggio Teatrale Nelle Viscere Di San Paolo. Rio de Janeiro, ANSA, 2 de dezembro de 2001.
  • Programa do Espetáculo - A Hora e a Vez de Augusto Matraga - 2004. Não catalogado
  • SALOMÃO, Marici. São Paulo ganha teatro a 12 metros de profundidade. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 4 set. 2001. Caderno 2.

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