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Dança

Lia Robatto

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 25.10.2019
16.01.1940 Brasil / São Paulo / São Paulo
Lia Carvalho Robatto (São Paulo, São Paulo, 1940). Coreógrafa, professora, bailarina, pesquisadora e produtora cultural. Com 9 anos de idade, entra para a Escola Municipal de Bailado do Theatro Municipal de São Paulo.

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Lia Carvalho Robatto (São Paulo, São Paulo, 1940). Coreógrafa, professora, bailarina, pesquisadora e produtora cultural. Com 9 anos de idade, entra para a Escola Municipal de Bailado do Theatro Municipal de São Paulo.

Estuda balé na academia da professora Halina Biernarka (1914 -2005) entre 1949 e 1951, e, aos 12 anos, com a polonesa Yanka Rudzka (1916-2008). Participa do Conjunto de Dança Expressiva Contemporânea (1952) 1, dirigido por Yanka. Muda-se para Salvador, em 1957, a convite de Rudzka 2, para dançar no grupo da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o Conjunto de Dança Contemporânea (CDC), no qual permanece até 1963.

Em 1958, é contratada como assistente de Rudzka, colaborando na nova Escola da Ufba, ao lado da bailarina paulista Norma Ribeiro. Nesse ano, estuda com a húngara Maria Duschenes (1922-2014), uma das pioneiras da dança moderna no Brasil e integra a primeira turma do curso de dança da Escola da Ufba. Em 1959, Rudzka desliga-se da Escola e Lia assume as aulas com Norma Ribeiro, até a chegada do novo diretor, o alemão Rolf Gelewski (1930-1988), em 1960. Gradua-se como dançarina profissional em 1961, ano em que introduz o ensino da dança no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep). Em 1962, implanta o ensino da dança na Escola Parque de Salvador. Licencia-se como professora em 1963 e monta para a Escola da Ufba, entre 1960-1964, as coreografias Móbile, Águas Glaucas e Antônio Conselheiro. Colabora com a Escola até 1966. 

Funda o Grupo Experimental de Dança (GED) em 1965, dirigindo-o até 1981. Também em 1965, inaugura a Escola de Iniciação Artística com a professora de piano Margarida Mascarenhas, permanecendo até 1967. Compõe para o GED coreografias como O Barroco (1965), Espetáculo Experimental (1966), Os Sertões (1967), Invenções (1969) e Salomé (1980). 

Leciona na Escola de Teatro da Ufba de 1966 a 1977. Dedica-se à criação do Curso de Expressão Corporal na Escola Técnica Federal da Bahia, em 1972. Entre 1974 e 1976, chefia o Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas da Ufba. Retorna à Escola de Dança em 1977, ministrando aulas até 1982, quando se aposenta. 

Em 1983 e 1984, dirige o Departamento de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) e cria a Escola de Dança da Fundação. Assume o cargo de diretora do Balé Teatro Castro Alves (BTCA) de 1983 a 1984. Coreografa e dirige três espetáculos para o grupo, dentre eles, Com-tacto (1981), e A Criação do Mundo (1984). Para o Balé da Cidade de São Paulo (BCSP), estreia Bolero (1982), recebendo vários prêmios da crítica especializada. É indicada para trabalhar no Projeto Axé, do qual é, desde 1998, diretora da área de dança e capoeira. Trabalha como curadora para o Mercado Cultural entre 1999 e 2004, e com o Ateliê de Coreógrafos de 2003 a 2006, ambos em Salvador. 

Pela Ufba, recebe a medalha Edgar Santos em 2006. É agraciada com o título de cidadã de Salvador pela Câmara Municipal (2009), por sua contribuição para a dança. É autora dos livros A Dança como Via Privilegiada de Educação: Relato de Uma Experiência (2012), Passos da Dança: Bahia (2002), com Lúcia Mascarenhas, e Dança em Processo: A Linguagem do Indizível (1994).

 

Análise

Lia Robatto desempenha várias funções ao longo da carreira em dança. Coreógrafa, professora, bailarina, pesquisadora, produtora cultural, a artista engaja-se nas discussões da dança como processo educacional. Da vivência com Rudzka, Robatto ganha apreço pela experimentação, aliando, em suas coreografias, a dança moderna a vertentes folclóricas e populares da cultura baiana. Com mais de 40 espetáculos e um início de carreira em meio à ditadura militar (1964-1985), Lia vê na dança a possibilidade de criticar a repressão, o conservadorismo e os movimentos reacionários do período 3. Esse questionamento, pauta da vida artística brasileira à época, é constante na carreira da coreógrafa, que se posiciona contra estruturas que visam sufocar a arte como produtora de conhecimento. Nesse sentido, é preciso ressaltar o espetáculo Bolero, criado para o elenco do BCSP e apresentado no Centro Cultural São Paulo (CCSP). Nessa obra, Lia questiona os hábitos estéticos da companhia paulistana, do público e da crítica. Trabalha em parceria com Emilie Chamie (1927-2000), que assina a concepção. A coreografia explora a espacialidade cênica, circularidade, musicalidade e o elenco. Bolero é concebida para dois espaços – o foyer e o Teatro de Arena do CCSP – e dançado por dois grupos 4 de bailarinos. No foyer, acontece a interpretação de Bolero na versão do francês Maurice Ravel (1875-1937). Já no teatro, o outro grupo dança a versão do compositor norte-americano Richard Trythall (1939), executada pelo Grupo Percussão Agora, que também toca, nesse espetáculo, obras do americano John Cage (1912-1992). “Espaço” é o conceito definidor da obra, como compreensão coreográfica e proposta de promover outra relação entre palco e plateia. Com Bolero, Lia busca integrar o que ela chama de “ (…) dança ambiental de caráter experimental e a dança de palco convencional, coreográfica e tecnicamente elaborada” 5. Os bailarinos do foyer misturam-se com o público e com imagens da exposição que revelam as montagens internacionais de danças e filmes existentes na história, para Bolero. Segundo Chamie e Robatto, Bolero deveria “ (…) estabelecer um quase corpo-a-corpo estimulante entre bailarino e espectador” 6. Experimentação e pesquisa são a base das composições de Robatto, em sintonia com o momento em que o BCSP tem como diretor Klauss Vianna (128-1992) e como assistente Ruth Rachou (1927). Em Bolero, o elenco colabora na criação, tarefa distinta para os que, à época, atuam como intérpretes na companhia. Destaca-se o solo da bailarina Sonia Mota (1948), composto em colaboração entre coreógrafa e intérprete. Robatto endossa que Bolero tem como tema "(…) o despertar do indivíduo e do grupo através do som e do movimento" 7, já que, para ela, a música tem papel importante na construção de seus trabalhos e suas aulas. No Espetáculo Experimental (Quatro Composições), criado para o GED, por exemplo, questões são anunciadas no modo como bailarinos e músicos improvisam no espaço, levando a relação artista, espectador e espaço de dança para além do palco.

Experimentação, espaço, ritmo, movimento – temas caros à dança moderna e contemporânea – são os pilares que alimentam a vida artístico-profissional de Lia. Bolero recebe críticas que exaltam o experimentalismo da obra e a maestria das composições cênica e coreográfica, o que garante a Lia o prêmio da Apca 8 de melhor espetáculo de 1982. Essa obra é considerada um marco na carreira do BCSP. Para Lia, Bolero permite-lhe verticalizar sua pesquisa coreográfica: “ (…) foi ao mesmo tempo um grande estímulo e um grande desafio, pelas implicações estéticas com a música, o espaço cênico, a temática e a formação técnica-interpretativa do elenco” 9.

Sublinha-se, ainda, o trabalho em educação: com mais de 40 anos de carreira, Lia acentua o vínculo com o ensino10 municipal, estadual e federal. Com o livro A Dança Como Via Privilegiada de Educação: Relato de Uma Experiência, propõe uma sistematização da metodologia de ensino da dança, ressaltando a função da dança no desenvolvimento dos jovens como a matéria-prima de suas inquietações, e a marca registrada de seu trabalho no Brasil. Firma-se aqui a convivência com os postulados de Rudzka: uma carreira dedicada a pensar a dança como potência na educação para a vida. No que concerne a dança, Lia atua na criação, no ensino, na administração, em consultorias artísticas, publicações, memória, além de colocar em prática vários cursos de formação. Essas ações determinam sua importância na dança brasileira.

 

 

Notas

1. Grupo criado por Rudzka com base em um curso de dança moderna, ministrado no Museu de Arte de São Paulo (Masp).

2. Em 1956, Rudzka é convidada para a criação da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Primeira escola de nível superior em dança no Brasil, com bacharelado e licenciatura. Rudzka deixa a Escola em 1959.

3. “Eu não ia falar contra a ditadura. Eu falava contra posturas reacionárias, sobre rigidez, sobre padrões estabelecidos. Enfim, sobre o conservadorismo que atrasa, que amarra, sobre a limitação da liberdade”. In: (CUNHA DE ARAÚJO Lauana Vilaronga, 2012, p. 114).

4. Período em que o BCSP conta com dois elencos: os bailarinos do BCSP e os do Grupo Experimental, composto por bailarinos convidados pelo então diretor Klauss Vianna (1928-1992), que trabalha com uma proposta mais investigativa.

5. ROBATTO, Lia. Lia Robatto. In.: Bolero – Balé da Cidade de São Paulo. Coordenação de Lineu Dias. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, Centro Cultural São Paulo. Divisão de Pesquisas, 1983. (Memória Ativa, 1). Disponível em: http://www.centrocultural.sp.gov.br/livros/pdfs/BOLERO.pdf. Acesso em: 8 fev. 2016. p. 21.

6. CHAMIE, Emilie. Projeto básico-resumo. In.: Bolero – Balé da Cidade de São Paulo. Coordenação de Lineu Dias. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, Centro Cultural São Paulo. Divisão de Pesquisas, 1983. (Memória Ativa, 1). Disponível em: http://www.centrocultural.sp.gov.br/livros/pdfs/BOLERO.pdf. Acesso em: 8 fev. 2016. p. 9.

7. ROBATTO, Lia. Lia Robatto. In.: Bolero – Balé da Cidade de São Paulo. Coordenação de Lineu Dias. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, Centro Cultural São Paulo. Divisão de Pesquisas, 1983. (Memória Ativa, 1). Disponível em: http://www.centrocultural.sp.gov.br/livros/pdfs/BOLERO.pdf. Acesso em: 8 fev. 2016. p. 20.

8. Associação Paulista dos Críticos de Arte.

9. ROBATTO, Lia. Lia Robatto. In.: Bolero – Balé da Cidade de São Paulo. Coordenação de Lineu Dias. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, Centro Cultural São Paulo. Divisão de Pesquisas, 1983. (Memória Ativa, 1). Disponível em: http://www.centrocultural.sp.gov.br/livros/pdfs/BOLERO.pdf. Acesso em: 8 fev. 2016. p. 20.

10. “O que buscamos é disseminar a ideia de que este ensino pode ser uma poderosa ferramenta técnica, artística e pedagógica na construção de cidadania, procurando influenciar nas políticas públicas de educação e intervenções socioculturais”. In: ROBATTO, Lia. A dança como via privilegiada de educação. Salvador: Edufba, 2012. p.15.

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