Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Alain Fresnot

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.06.2016
Alain Fresnot (Paris, França, 1951). Roteirista, produtor, montador e cineasta. Migra com a família de origem judaica aos oito anos de idade para Campinas, onde seu pai instala uma pequena fábrica. Já em São Paulo, frequenta o Foto-Cine Clube Bandeirante e, entre os 15 e 16 anos, o Curso Livre de Cinema da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap...

Texto

Abrir módulo

Biografia
Alain Fresnot (Paris, França, 1951). Roteirista, produtor, montador e cineasta. Migra com a família de origem judaica aos oito anos de idade para Campinas, onde seu pai instala uma pequena fábrica. Já em São Paulo, frequenta o Foto-Cine Clube Bandeirante e, entre os 15 e 16 anos, o Curso Livre de Cinema da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e o Curso Superior de Cinema da Faculdade São Luiz. Faz pequenos filmes em Super-8 e a continuidade para o longa As Amorosas (1968). Aluno da turma de 1971 a 1974 da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), filma curricularmente os curtas-metragens Pêndulo e Doces e Salgados (1974).

No mesmo período, durante dois ou três anos, trabalha como estagiário não remunerado na Cinemateca Brasileira e difunde um pequeno acervo de 16 mm da instituição em companhia de Felipe Macedo (1952), que então reorganiza o movimento cineclubista. Também edita Cinemateca, pequena revista mimeografada, e realiza Nitrato (1975). Viabiliza seu primeiro longa, Trem Fantasma (1976), ao fundar a Acauã Produções, base da futura produtora Tatu Filmes, uma das que concentra a estimulante produção do chamado Cinema da Vila Madalena da década de 1980. É assistente de montagem na Blimp Filmes, corroteirista, assistente de direção e montador de Doramundo (1977), montador de O Homem que Virou Suco (1979), diretor do curta Capoeira (1979), assistente de direção de Eles Não Usam Black Tie (1981), montador de Janete (1982) e de A Marvada Carne (1984). 

Funda a  A. F. Cinema e Vídeo e realiza o curta Amor que Fica (1986) e os longas Lua Cheia (1988), Ed Mort (1996), Desmundo (2003) e Família Vende Tudo (2011). Produz os longas Kenoma (1998), Através da Janela (2000), Castelo Rá-Tim-Bum (2000) e Saudade do Futuro (2001). Atua na primeira diretoria paulista da Associação Brasileira de Documentaristas (1973) e nas presidências da Associação Paulista de Cineastas (2001-2003) e da Comissão Estadual de Cinema de São Paulo (2004-2006). Trabalha nos projetos O Princesa de Corfu, Xique no Úrtimo e Raul, o Início, o Fim e o Meio.

Análise de trajetória
A estreia de Alain Fresnot como realizador em Trem Fantasma invoca a tirania do trabalho e da repressão familiar, de maneira simplória, como reconhece o cineasta, mas dando vida a personagens que, nas palavras de Jean-Claude Bernardet, representam de maneira original e sincera a juventude do momento. Feito com e para jovens, dentro de um regime independente de produção, o filme só é exibido no circuito alternativo.

Grande parte da carreira do cineasta, a partir de então, se consolida na militância em organismos de classe e órgãos estatais de cultura e na criação de meios sustentáveis de produção, desempenhando em filmes alheios o papel de produtor ou de colaborador nas demais funções técnicas. Os poucos exemplos de realização de cunho pessoal evidenciam uma cinematografia de narrativa clássica e personagens fortes, atenta ao realismo, que alterna ou combina registros dramáticos e cômicos. Cada filme molda-se conforme as exigências do gênero ou da expectativa do diretor quanto à receptividade do mercado.

Lua Cheia (1988), seu primeiro filme profissional, relata em tom farsesco as trapalhadas de um poderoso usineiro, que quando sóbrio administra com truculência seus negócios e quando bêbado deixa  irromper seu desejo de ser amado e magnânimo. Os desvarios do fazendeiro-empresário, em contraponto à fleuma e à elegância cínicas de seu motorista, demonstram a pretensão de apreender um Brasil que oscila entre o autoritarismo e a recente democracia implantada. O filme, realizado nos estertores do chamado Cinema da Vila, do qual o cineasta é integrante ativo desde sua emergência nos primórdios dos anos 1980, escapa da dimensão alegorizante modelada pelo cinema novo, da qual a geração de Fresnot procura libertar-se, mas não encontra público para dialogar, diante da crise que acaba por fulminar o cinema brasileiro logo no início de 1990.

Na tentativa de atrair o público necessário a um cinema de retomada que busca afirmação em outras bases de financiamento, o cineasta arrisca por dois caminhos. O primeiro, a comédia Ed Mort (1996), ancora-se na personagem criada pelo cronista Luis Fernando Veríssimo (1936) e num elenco estelar que inclui a participação, entre outros, dos cantores Chico Buarque (1944) e Gilberto Gil (1942) em papéis secundários. O detetive brasileiro, apalermado e em contínua dificuldade financeira, termina enredado pelo mistério que une um chantageador, um delegado, um empresário e uma apresentadora de programa infantil de televisão no sequestro de crianças, cuja carne é aproveitada na industrialização de alimentos. A comicidade é leve nas piadas verbais mas se tensiona pelo entrecho dramático que tende à sátira social de compromisso mais corrosivo.

O segundo, o do caminho dos filmes históricos, leva o cineasta à adaptação de Desmundo (2002), romance de Ana Miranda (1951). A câmera assume o papel de um cronista rigoroso, que contempla a fala de época e a descrição pormenorizada dos costumes dos primeiros colonizadores portugueses no Brasil do século XVI. Numa impressionante “arqueologia da família patriarcal brasileira” e “seu subsolo de opressão”, conforme analisa o crítico Ismail Xavier (1947), uma órfã chega de Portugal para servir de esposa a um desbravador cujo objetivo é expandir suas propriedades, nas quais ela se inclui. Rebelde por princípio às obrigações impostas pelos homens, ela acaba por render-se ao mundo inclemente que se constrói à sua revelia.

Já Família Vende Tudo (2011) retorna ao registro cômico para abordar o “jeitinho” brasileiro reformatado pelos novos hábitos de uma família da periferia de São Paulo. Acuada por crescentes necessidades financeiras, a programada gravidez da filha é motivo para a extorsão que se promove contra um astro da música brega. A combinação de união familiar com a prostituição velada, o universo do espetáculo e a religiosidade evangélica resulta em filme de apelo popular mas, apesar de ter sido parcialmente financiado pela Globo Filmes, não obtém compensação nas bilheterias.

Notas
1 Press-release do filme.
2 O Brasil havia passado por um período de ditadura militar (1964-1985), em que se que censurava todos os tipos de obra que fosse considerada subversiva, ou seja, que não se alinhasse a seu ideário.
3 Durante a presidência de Collor de Mello (1990-1992), a Embrafilme, empresa estatal que subsidia o cinema nacional, é fechada. Com esse evento e uma série de sanções econômicas, a produção audiovisual entra em declínio.  
4  Ver prefácio de FRESNOT, Alain. Um cineasta sem alma. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.  p. 15.

Obras 1

Abrir módulo

Debates 1

Abrir módulo

Espetáculos 1

Abrir módulo

Mostras audiovisuais 1

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 7

Abrir módulo
  • BERNARDET, Jean-Claude. Trem fantasma. São Paulo: Dinafilme, 1977. [Press-release do filme, doc. 615/3 do acervo da Cinemateca Brasileira].
  • FRESNOT, Alain. Um cineasta sem alma. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.
  • LEAL, Hermes. Alain Fresnot: não vivemos em Hollywood. Revista de Cinema, São Paulo, ano 2, n. 14, jun. 2001, p. 10-18.
  • LEAL, Hermes. Alain Fresnot: não vivemos em Hollywood. Revista de Cinema, São Paulo, ano 2, n. 14, jun. 2001, p. 10-18.
  • NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002. p. 201-208.
  • PERAÇOLI, Fabio; CANNITO, Newton. Entrevista com Alain Fresnot. Novo Cinema, São Paulo, ano 1, n. 6, mai. 1997. p. 8-9.
  • TEATRO do Ornitorrinco. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009. 792.0981 To253

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: