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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

J. Carlos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.12.2017
18.06.1884 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
02.10.1950 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

[Capa da revista Fon-Fon], 1934
J. Carlos

José Carlos de Brito Cunha (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1884 - idem 1950). Chargista, caricaturista, desenhista, pintor, ilustrador. Inicia sua carreira em 1902, na revista O Tagarela, dirigida por Raul Pederneiras (1874 - 1953) e K. Lixto (1877 - 1957). No ano seguinte, contribui com diversas publicações adultas e infantis até que, em 1908,...

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Biografia

José Carlos de Brito Cunha (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1884 - idem 1950). Chargista, caricaturista, desenhista, pintor, ilustrador. Inicia sua carreira em 1902, na revista O Tagarela, dirigida por Raul Pederneiras (1874 - 1953) e K. Lixto (1877 - 1957). No ano seguinte, contribui com diversas publicações adultas e infantis até que, em 1908, emprega-se na revista A Careta, fundada neste mesmo ano por Jorge Schmidt, nela atuando até 1921. Paralelamente, colabora com diversas publicações, entre elas as revistas Fon-Fon, A Cigarra e O Malho, sendo esta última dirigida por ele a partir de 1918. Ao longo de sua carreira J. Carlos, com suas charges, faz a crônica do processo de urbanização da capital carioca e dos seus efeitos sociais. Entre 1922 e 1930, exerce o cargo de diretor artístico das empresas O Malho, onde inicia uma grande série de charges de caráter político, satirizando fatos e personalidades nacionais e estrangeiras. A vertente política é explorada pelo artista desde o início de sua carreira, sendo ele o responsável pela execução de uma série de charges antibelicistas executadas no período abrangido pelas duas grandes guerras e principalmente durante os dois governos de Getúlio Vargas (1883 - 1954). Esses trabalhos são publicados principalmente na revista A Careta. Aproveitando-se da relativa flexibilidade da censura imposta por Vargas em relação à política internacional, o artista publica uma série de ilustrações cujo conteúdo tinha como foco crítico a política imperialista norte-americana evidenciada após o término da Segunda Grande Guerra (1939-1945). Trabalha incansavelmente até a data de sua morte, ocorrida em 1950, na redação da revista A Careta.

Análise

J. Carlos é um dos mais originais caricaturistas brasileiros da primeira metade do século XX. O humor, a rapidez e clareza de seu traço registram as mudanças de costumes e comportamento ocorridas no Rio de Janeiro, na virada do século XIX. Sua vida artística inicia-se em 1902 na revista Tagarela. Contudo, é como desenhista exclusivo da revista ilustrada Careta entre 1908 e 1921 - onde apresenta semanalmente uma charge para capa e seis desenhos internos - que seus personagens tornam-se conhecidos e populares. No entanto, durante sua carreira J. Carlos contribui para quase todas as revistas importantes da época como O Malho, Para Todos, A Cigarra e Vida Moderna (ambas de São Paulo), Revista Nacional, Cinearte, Fon-Fon, A Avenida, Tico-Tico (semanário infantil), O Papagaio, O Cruzeiro e A Noite. Em mais de 40 anos, J. Carlos conta com uma produção estimada em 100 mil desenhos, sendo que também realiza trabalhos no campo da publicidade entre 1931 e 1936 (entre seus clientes encontram-se a Caixa Econômica Federal, a Casa Baby e a Companhia Cinematográfica Cinédia), ilustrações de livros, decoração, cenário para peças de teatro, escultura e programação visual.

No início seu traço ainda se mostra vacilante e um pouco pesado, mas com o tempo, principalmente depois dos anos 1930, aprimora seu desenho que, com influências da art deco, se torna estilizado, elegante e sobretudo cada vez mais nítido. Seus originais são realizados a lápis, recebendo acabamento em bico-de-pena e nanquim, às vezes guache para engrossar o traço. Para as cores dá preferência à aquarela, usando muito dois tons alternados sobre fundo branco, quase sempre em grandes superfícies chapadas.

O motivo por excelência das charges de J. Carlos é o carioca, seus hábitos e seu entorno. Seus desenhos testemunham o surgimento do telefone, da fotografia, do chope, do samba, do bonde elétrico, do automóvel, do cinema, do rádio, do avião, da cultura do futebol, da praia e do carnaval, e no campo político, a República Velha, a Revolução de 30, o Estado Novo e as duas Guerras Mundiais. Sua crônica visual não deixa escapar a modernização segregadora do projeto urbanístico de Pereira Passos e neste sentido retrata tanto os hábitos afrancesados das classes mais favorecidas - com seu footing e chás da tarde na Confeitaria Colombo - como o nascimento da cultura do morro, a disseminação das favelas e a sobrevivência da cultura carioca do Rio antigo no bairro da Lapa.

Um de seus tipos mais famosos é a figura da Melindrosa, criada em 1920. Esta foi por ele imortalizada com sua silhueta esguia, olhos redondos, o cabelo cortado a la garçonne, com o característico pega-rapaz na testa e ao lado do rosto, a boca em forma de coração pintada com batom forte. Essa mulher, misto de criança ingênua e garota refinada e sensual, presente em toda produção de J. Carlos, quase sempre sendo cortejada ou perseguida por um ou mais homens.

Também os políticos da época não escaparam ao traço mordaz de J. Carlos. Rodrigues Alves, Affonso Penna, Nilo Peçanha, Washington Luiz, Dutra, entre outros, forneceram farto material para o artista. Mas com a instalação do Estado Novo e a censura, o artista volta-se no final dos anos 1930 para a realidade crua da guerra em charges abertamente antinazistas.

J. Carlos também cria no início dos anos 1920 os personagens infantis Jujuba, Lamparina, Goiabada e Carrapicho, numa época em que quase ninguém se preocupava com o público infantil. Não à toa, quando Walt Disney visita o Brasil por ocasião do lançamento de seu filme Fantasia, tenta, sem êxito, levar o artista brasileiro para Hollywood. Há quem diga que o personagem do criador americano Zé Carioca é baseado no personagem Papagaio de J. Carlos, que Disney teria visto em sua passagem pelo país. Ironicamente, ao deixar de desenhar seus personagens infantis em 1941, J. Carlos afirma: "Fi-los durante mais de vinte anos, mas hoje, um esforço tamanho para quê?...Por quê?... A remuneração é tão insignificante. Quem é que pode concorrer com esses originais estereotipados estrangeiros?".

Obras 9

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Exposições 24

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Feiras de arte 1

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Fontes de pesquisa 11

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  • ARESTIZÁBAL, Irmã. J. Carlos: 100 anos. Rio de Janeiro: Funarte, Instituto Nacional de Artes Plásticas: PUC/RJ, Solar Grandjean de Montigny, 1984. (Para todos: 1).
  • CARLOS, J. Lábaro estrelado. Texto Luciano Trigo. Rio de janeiro: Casa da Palavra, 2000. 64 p., il. color.
  • CARLOS, J., LOREDANO, Cássio (org.). Lábaro estrelado. Rio de janeiro: Casa da Palavra, 2000.
  • COTRIM, Álvaro. J. Carlos: época, vida, obra. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985. 107 p., il.
  • Carlos, J. ; LOREDANO, Cássio (org.). Carnaval de J. Carlos . Texto Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Lech, 1999. 189 p. : il. ISBN 85-7384-031-5.
  • Carlos, J. ; LOREDANO, Cássio (org.). O Rio de J. Carlos. Rio de Janeiro: Lacerda, 1998. 429 p., il., color. ISBN 85-7384-026-9.
  • LAGO, Pedro Corrêa do. Caricaturistas brasileiros: 1836-1999. Rio de Janeiro: Sextante Artes, 1999. p. 74-91.
  • LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil III. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1963.
  • LIMA, Herman. Os precursores (conclusão). In: ______. História da caricatura no Brasil III. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1963.
  • SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1966. 583 p. (Retratos do Brasil, 51).
  • VELLOSO, Mônica Pimenta. Modernismo no Rio de Janeiro: turunas e quixotes. Apresentação Marisa Lajolo. Rio de Janeiro: FGV, 1996. 235p. il. p.b., foto.

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