Artigo da seção pessoas Hermano Penna

Hermano Penna

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  

Hermano Penna (Crato, Ceará, 1945). Diretor de cinema. Sua obra se caracteriza por filmes de contexto regional, sobretudo do Norte e Nordeste, com temáticas tradicionais, como o cangaço, o homem sertanejo e sua cultura, além da questão da terra e dos povos indígenas.     

No início dos anos 1960, Penna frequenta o Clube de Cinema da Bahia, em Salvador, onde sua família se estabelece. Em 1965, muda-se para Brasília e trabalha no Instituto Central de Artes da Universidade de Brasília (IDA/UnB). Integra o projeto de recriação do curso de cinema da instituição, ocupada pelas forças do regime militar um ano antes, e realiza seu primeiro curta-metragem, o documentário em 16 mm CPI do Índio (1968).

Em 1969, muda-se para São Paulo e atua como assistente de direção no longa-metragem O Profeta da Fome (1970), do diretor de cinema Maurice Capovilla (1936). No ano seguinte, incube-se das etapas do som do curta Visão de Juazeiro, dirigido por Eduardo Escorel (1945) e Sérgio Muniz (1935). Trata-se de episódio da série A Condição Brasileira, em projeto conhecido como Caravana Farkas1. Em 1974, colabora com o fotógrafo e diretor de cinema Jorge Bodanzky (1942) no argumento do longa Iracema, Uma Transa Amazônica, obra de referência da cinematografia nacional. Dois anos depois, dirige o docudrama A Mulher no Cangaço (1976), segundo episódio de uma série para o programa Globo Repórter, da Rede Globo.

Estreia como diretor no longa-metragem Sargento Getúlio (1983), ficção baseada em livro homônimo do escritor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Para o autor José Carlos Monteiro, o filme é a “exasperada descrição de um itinerário – o de um brutal sargento e seu prisioneiro, pelas veredas do Sergipe”2. O crítico uruguaio Jorge Ruffinelli define o longa como uma impactante imagem do poder da repressão.

Trabalho mais prestigiado de Penna, o projeto em 16 mm se inicia em 1978, mas é lançado apenas em 1983, ampliado para 35 mm. A trama narra em chave épica a tarefa do militar ao conduzir um preso político da Bahia até a capital sergipana Aracaju. Com uma reviravolta política no país, Getúlio não obedece a ordem de soltar o condenado e passa a ser perseguido como insurgente.

Em 1988, assina seu segundo longa, o também ficcional Fronteira das Almas (1988). A trama parte de argumento próprio de um agricultor que enfrenta percalços para manter um pedaço de terra em Rondônia, e seu irmão, vítima de grileiros violentos no Pará. Segundo o crítico José Geraldo Couto, o filme é quase documental, uma denúncia a “um sistema de poderes e interesses que ameaça a integridade dos povos da região e seus meios de subsistência”3

A Amazônia segue como cenário de sua terceira direção, Mário (1999), que reflete a vida de um homem urbano desiludido, que abandona a mulher e viaja ao acaso até chegar à região, onde depara com diversos desafios e problemas. É um filme de aprendizado, que contorna e expõe contradições, soluciona impasses, sem apresentar conciliação.

De mesmo conceito de road movie existencial é Voo Cego Rumo ao Sul (2004), longa de ficção adaptado por Penna de livro do escritor e jornalista Sinval Medina (1943). Na obra, quatro militantes deixam o Rio de Janeiro em direção a Porto Alegre em 1º de abril de 1964, data oficial da instauração da ditadura civil-militar no país. 

A tragédia Édipo Rei, de Sófocles (496-406 a.C.), é inspiração para o longa seguinte, Olho de Boi (2007). Transposto para o sertão, o mito se desenvolve na trajetória de dois peões em busca de vingança, o mais velho atormentado pela suspeita de traição da mulher com o irmão. O uso expressivo de luz nos planos de movimento dos personagens remete à noção de teatralidade.

Os dois longas posteriores levam Penna ao reencontro de um de seus universos prediletos, o cangaço, vinculados pela mesma personagem e uma casualidade do passado. Quando filma A Mulher no Cangaço, o diretor descobre a figura do sergipano José Francisco do Nascimento (1918-1961), o Zé de Julião – o Cajazeira do bando de Lampião (1898-1938). No projeto ficcional Aos Ventos que Virão (2012), o filho de proprietário de terras, cangaceiro, candango em Brasília e depois político, se chama Zé Olímpio. Com o fim do cangaço, o protagonista trabalha na construção civil em São Paulo, depois retorna ao local de origem, em Sergipe, onde se candidata a cargo público e passa a combater a corrupção. Zé de Julião – Muito Além do Cangaço (2016) recupera no modelo documental, em um retrato da vida social e política brasileira, o percurso incomum desse herdeiro do latifundiário, Julião, até seu misterioso assassinato.

De filmografia relativamente econômica no que tange à direção, Hermano Penna mantém fidelidade e genuíno interesse pela cultura nordestina. Em sua produção, segue atento a um universo histórico e rico do passado da região, buscando os pontos de contato com a atualidade.   
 
Notas

1. A série de 20 documentários em curta-metragem denominada inicialmente A Condição Brasileira é produzida na década de 1960 pelo fotógrafo e diretor de cinema Thomaz Farkas (1924-2011). Entre 1968 e 1970, ele lidera a ida de um grupo de jovens realizadores ao Nordeste, registrando aspectos e manifestações da cultura popular. Surge daí o nome informal de Caravana Farkas.

2. MONTEIRO, José Carlos. História Visual do Cinema Brasileiro. Rio de Janeiro: Funarte/Atração, 1996.

3. COUTO, José Geraldo. As Chagas Abertas da Amazônia. In: 6ª MOSTRA ECOFALANTE DE CINEMA AMBIENTAL, 22 maio 2017, São Paulo. Catálogo. São Paulo: Ecofalante, 2017.

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Fontes de pesquisa (14)

  • CARLOS, Cássio Starling. Direção de atores se impõe e ofusca outras qualidades de longa nacional. Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 ago. 2008. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/acontece/ac1808200806.htm. Acesso em: 12 nov. 2020.
  • CINECLUBE Walter da Silveira. In: DIRETORIA de Audiovisual/Dimas da Fundação Cultural do Estado da Bahia/Funceb. Salvador: Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, [s.d.]. Disponível em: http://www.dimas.ba.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=32/. Acesso em: 22 out. 2020.
  • CINEMATECA Brasileira: base de dados Filmografia Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/filmografia-brasileira/. Acesso em: 10 ago. 2020.
  • COSTA, Rangel da Costa; BELARMINO, Manoel. Zé de Julião – a saga de um ex-cangaceiro de Lampião. Poço Redondo, SE: Oxente, 2020.
  • COUTO, José Geraldo. As Chagas Abertas da Amazônia. In: 6ª MOSTRA ECOFALANTE DE CINEMA AMBIENTAL, 22 maio 2017, São Paulo. Catálogo. São Paulo: Ecofalante, 2017. Disponível em: https://mostraecofalante.wordpress.com/2017/05/22/as-chagas-abertas-da-amazonia/. Acesso em: 11 nov. 2020.
  • DÍDIMO, Marcelo. Cangaço e documentário: Histórias, influências e vertentes. Caderno de Estudos Sociais – Fundação Joaquim Nabuco, Recife, PE, v. 26, n. 2, p. 217-226, jul./dez. 2011. Disponível em: https://periodicos.fundaj.gov.br/CAD/article/view/1456/1176. Acesso em: 30 out. 2020.
  • LUCENA, Eleonora. Crítica: História de cangaceiro é metáfora da política em filme. Folha de S.Paulo, São Paulo, 29 jul. 2014. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/07/1492537-critica-historia-de-cangaceiro-e-metafora-da-politica-em-filme.shtml. Acesso em: 12 nov. 2020.
  • MONTEIRO, José Carlos. História Visual do Cinema Brasileiro. Rio de Janeiro: Funarte/Atração, 1996.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. O cangaço e a política brasileira em ‘Zé de Julião’, filme de Hermano Penna. Blog Cinema, cultura e afins. O Estado de S. Paulo, 11 out. 2016. Cultura.   Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/o-cangaco-e-a-politica-brasileira-em-ze-de-juliao-filme-de-hermano-penna. Acesso em: 12 nov. 2020.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. “Mário”, terceiro longa de Hermano Penna, estreia amanhã. Agência Estado, São Paulo. In: Folha de Londrina, Londrina, 28 jul. 1999. Disponível em: https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/mario-terceiro-longa-de-hermano-penna-estreia-amanha-182399.html. Acesso em: 12 nov. 2020.
  • RAMOS, Clara Leonel. As múltiplas vozes da Caravana Farkas e a crise do “modelo sociológico”. 2007. Dissertação (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produção Midiática) – Programa de Ciências da Comunicação – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-21072009-202642/publico/5064474.pdf. Acesso em: 30 out. 2020.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs.). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2012. 3. ed. ampliada e atualizada.
  • RUFFINELLI, Jorge. América Latina en 130 películas. Santiago/Chile: Uqbar Editores, 2010.
  • VALENTE, Eduardo. Vôo Cego Rumo Sul. Crítica. Contracampo Revista de Cinema, n. 64/65. Pílulas. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/64/pilulassp.htm. Acesso em: 12 nov. 2020.

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  • HERMANO Penna. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa103757/hermano-penna>. Acesso em: 06 de Mar. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7