Artigo da seção obras Viva o Povo Brasileiro

Viva o Povo Brasileiro

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoViva o Povo Brasileiro: 1984 | João Ubaldo Ribeiro
Livro
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Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Análise

Em Viva o Povo Brasileiro (1984), João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) envereda pelas obras de interpretação e definição de um sentido de Brasil. Na mesma tradição de clássicos como O Guarani (1857) e Macunaíma (1928), o autor procura estabelecer as linhas mestras da formação da sociedade nacional.

A narrativa se passa na Ilha de Itaparica (com rápidas incursões a Salvador, Lisboa, São Paulo e Rio de Janeiro) e percorre um largo horizonte histórico (1647-1977). Na obra, Ribeiro produz um panorama da construção de uma identidade brasileira com base na interação de gerações de núcleos familiares em conflito, decorrentes da estrutura social do país. Não obstante remonte aos primeiros momentos da colônia – tempos vividos pelo Caboco Capiroba, mestiço canibal do qual deriva uma extensa linhagem de brasileiros do povo –, a narrativa tem como ponto de partida as últimas batalhas pela independência, travadas na Bahia. Em fins de 1822, Perilo Ambrósio Góes Farinha, expulso de casa e com dois escravos, faz fortuna fingindo-se combatente ferido do lado brasileiro. Como proprietário de terras com negócios variados, Farinha congrega, de um lado, os escravos (entre eles os descendentes de Capiroba) e, de outro, o parasitismo dos mulatos e negros livres. Entre eles, Amleto Ferreira, administrador dos negócios do “Barão de Pirapuama”, título nobiliárquico do falso combatente.

O enredo desenvolve-se nos encontros e conflitos entre grupos escravagistas. Latifundiário violento, Farinha decide ter à força uma das escravas de sua fazenda, Vevé, neta da bisneta centenária de Capiroba, Dadinha, e ligada ao grupo de serviçais de sua mulher, são o vértice do conflito. Da violência de Farinha decorrem dois fatos: a gravidez de Vevé e a irmandade Povo Brasileiro. Vevé dá à luz a Maria da Fé, a ser criada em liberdade sob a generosidade de Leléu, negro liberto e com parcos recursos. A irmandade secreta Povo Brasileiro, por sua vez, é criada do pacto entre os escravos do engenho que decidem envenenar seu senhor. A vingança da irmandade contra Farinha depende da ascensão do mulato Ferreira. Este, dilapida os bens de seu senhor moribundo e, investindo-os numa casa bancária, torna-se o patriarca de uma das famílias mais ricas e poderosas do país.

De Maria da Fé e Ferreira desdobram-se as duas ordens produtoras do conflito social brasileiro. A heroína qualifica uma longínqua tradição de luta popular, nascida da vingança silenciosa dos escravos contra os senhores. Testemunha do assassinato da própria mãe, Maria da Fé torna-se parte da irmandade e sua grande líder, responsável por desdobrá-la numa ação organizada de guerrilha pelo sertão, numa primeira versão do cangaço. O compromisso de Maria da Fé com a justiça para o povo oprimido contrasta com a corrupção do grupo familiar de Ferreira. Deste, nasce Bonifácio Odulfo, que deixa de lado o culto à poesia ultrarromântica para se tornar um dos mais importantes (e corruptos) homens de negócio, afetando os vernizes civilizados da vida urbana. E também nasce Patrício Macário, filho desfavorecido de Ferreira que, integrando o Exército por castigo do pai, torna-se destacado soldado na Revolução Farroupilha e herói na Guerra do Paraguai. No amor e respeito entre o soldado legalista e a guerrilheira (representantes da ordem e do espírito brasileiros) reside a conciliação possível desse universo cindido, à qual o romance não se entrega. Prefere expor a perpetuação das iniquidades de uma elite corrupta e a resistência anárquica dos que a ela estão submetidos.

    

Se da perspectiva do enredo, o romance não apresenta grandes dificuldades, o mesmo não se pode dizer dos elementos estruturais que o costuram. Segundo Eneida Leal Cunha, “pode-se afirmar que Viva o Povo Brasileiro se constitui [...] como contraponto à história dos vencedores e expressão dos dominados, ou ainda como uma história das mentalidades, que relega a um plano secundário o acontecido para espraiar-se na malha dos discursos, das representações, do simbólico autonomizado, um conjunto de articulações mais ou menos rígidas entre significantes e significados sociais que constituem o imaginário social”. A tal afirmação podem-se remeter alguns dos cuidados e virtuosismos do autor, como o que Eneida lembra ser “uma estrita e obsessiva fidelidade às variações dialetais e discursivas que reproduzem as peculiaridades sócio-econômico-culturais das personagens” e o interesse quase ensaístico-antropológico na caracterização de personagens que têm seu lugar marcado com bastante clareza no abstrato da formação social brasileira.

É nesse sentido que José Antonio Pasta Jr. (1951) vê no romance “um vasto painel épico que procura incorporar toda a matéria histórica do país”. Para Pasta, seria preciso observar  um fundo de ideologia populista permeando a organização do enredo no virtuosismo retórico e na erudição de Ribeiro. Os encontros e desencontros dispensariam a mediação da dinâmica histórica, alçando-se a um pretenso plano espiritual – o das “alminhas” que encarnam e desencarnam ao sabor da violência social e das entidades incorporadas pelos negros, que adiantam linhas do enredo (como o destino de Maria da Fé) e são responsáveis pelo “encontro espiritual” encenado pela heroína e Patrício Macário. “Como poderia o livro desdobrar o percurso histórico de uma formação se não a encontra, como gostaria, na própria matéria histórica que escolheu como seu terreno de composição?”, pergunta-se Pasta, acusando o frágil idealismo da união entre o “espírito sem forma” das classes exploradas e “a forma sem espírito” da classe dominante.


Rico em polêmica e força literária, Viva o Povo Brasileiro é a obra-prima de um dos mais inventivos escritores brasileiros da segunda metade do século XX e merece destaque no conjunto de obras comprometidas com o entendimento da experiência histórico-social nacional.

Ficha Técnica da obra Viva o Povo Brasileiro:

Fontes de pesquisa (2)

  • CUNHA, Eneida Leal. Viva o povo brasileiro: história e imaginário. Portuguese cultural studies, v.1. Universitet Utrecht/University of Massachusetts, 2007.
  • PASTA Jr., José Antonio. Prodígios de ambivalência (notas sobre Viva o povo brasileiro). Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n.64, nov. 2002.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • VIVA o Povo Brasileiro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra9737/viva-o-povo-brasileiro>. Acesso em: 13 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7