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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Rap é Compromisso

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.11.2022
Primeiro e único disco lançado em vida pelo rapper Sabotage (1973-2003), Rap é compromisso (2001) é uma radiografia da vida na periferia de São Paulo, mais especificamente na favela do Canão, na zona sul da cidade, onde o artista nasce, é criado e reside na ocasião do lançamento da obra. As letras narram com riqueza de detalhes o cotidiano na re...

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Primeiro e único disco lançado em vida pelo rapper Sabotage (1973-2003), Rap é compromisso (2001) é uma radiografia da vida na periferia de São Paulo, mais especificamente na favela do Canão, na zona sul da cidade, onde o artista nasce, é criado e reside na ocasião do lançamento da obra. As letras narram com riqueza de detalhes o cotidiano na região, com uma observação sagaz sobre a criminalidade, a violência policial e o consumo de drogas.

Quando o álbum é lançado, o gênero musical vive um período de produção intensa em que artistas como Racionais MCs, MV Bill (1974), GOG (1965), RZO e Xis (1972) lançam obras que repercutem fortemente. É dessa fase alguns dos discos considerados clássicos do rap brasileiro e a estreia de Sabotage é um importante marco para a evolução estética. O ritmo com que canta, também conhecido como flow, é raro e o cantor tem facilidade em variar a velocidade em que encadeia os versos das letras. A métrica é igualmente impactante, com um recurso que destaca algumas palavras nos fins das frases, potencializando o significado da poesia.

A produção, assinada por Zé Gonzales (1969), DJ e integrante do grupo Planet Hemp, por Daniel Ganjaman (1978), que mais tarde trabalha com Criolo (1975), e pelo grupo RZO, também apresenta uma linguagem original. As bases instrumentais trazem samples – trechos extraídos de músicas de outros autores, algo comum no rap desde sua origem – de pianos com timbres que criam um clima de tensão e se encaixam com a contundência dos versos de protesto.

Muitas das músicas combinam versos melódicos com as rimas do rapper, fusão que remete aos arranjos vocais de The miseducation of Lauryn Hill, da cantora e MC estadunidense Lauryn Hill (1975), que lança a obra em 1998 e faz grande sucesso no Brasil. Sabotage é influenciado por Hill e traz cantores convidados como Negra Li (1979), que integra o RZO à época. Esse elemento aparece na faixa-título e em “No Brooklin”, duas das músicas mais conhecidas do repertório. É interessante o contraste: a voz feminina acrescenta certa delicadeza com seu timbre agudo e melodioso, rompendo em certa medida a dureza que se impõe tanto nas letras que dissertam sobre uma realidade difícil quanto nas bases pesadas, resultantes das tensões entre o grave do bumbo e o agudo da caixa.

O próprio Sabotage também se arrisca a cantar uma melodia em “Cantando pro santo”, que traz participação de Chorão (1970-2013), vocalista da banda Charlie Brown Jr. Essa é uma característica incomum no rap do período: os principais MCs, como Mano Brown (1970) e MV Bill, são conhecidos por vocais sem melodias, restritos ao estilo original e ritmado que identifica o rap. Sabotage inova nesse aspecto em Rap é compromisso e desenvolve esse talento em produções posteriores, em parceria com o coletivo Instituto.

Há soluções criativas também nas bases instrumentais, que muitas vezes reforçam as ideias contidas nas letras, como no caso da faixa “Respeito é pra quem tem”. Sabotage canta o verso que dá nome à música com ênfase na palavra “pra” e a edição da faixa destaca o som seco da caixa da bateria, de modo que a batida toca em sincronia com a voz do rapper. Esse recurso provoca a impressão de uma onomatopeia que simula o som do disparo de tiros: prá, prá, prá!

A lírica tem compromisso com a denúncia social, algo recorrente nos principais trabalhos de rap do período. O diferencial é, especificamente, a ênfase em narrar situações relacionadas à favela do Canão, no bairro do Brooklin, e à zona sul de São Paulo. Duas músicas explicitam essa característica logo no título: “No Brooklin” e “Na zona sul”. Há ainda “Um bom lugar”, com versos focados nessa localização geográfica. Em “No Brooklin”, o refrão diz: “um bom lugar / se constrói com humildade / é bom lembrar / aqui é o mano Sabotage / vou seguir sem pilantragem / vou honrar, provar / no Brooklin, estou sempre ali / pois vou seguir / com Deus, enfim”.

A violência e o racismo por parte da polícia militar merecem especial atenção nas letras. “Nem sempre polícia aqui respeita alguém / em casa invade a soco, ou fala baixo ou você sabe”, ele canta em “Um bom lugar”. Na faixa-título, o rapper enfatiza: “polícia sai do pé”. Já em “No Brooklin” traz o verso: “Por isso meu vacilo, gambé, nunca espere”1

Há no discurso da obra uma constante exaltação ao rap como ferramenta de empoderamento do povo periférico e como alternativa à tentação de se envolver com o crime. Isso está já anunciado no título do álbum e é reafirmado em algumas letras. “A cultura” trata especificamente disso: “É o resgate do ladrão / a música do irmão / a recuperação lotada de reflexão / rap é o som e tenho o dom da imaginação”. 

Com participações de vários artistas da cena, como Rappin’Hood (1971), Black Alien (1972), RZO e Potencial 3, e citações explícitas a Racionais MCs e Xis, Rap é compromisso é uma celebração do rap nacional como forma de arte e de conscientização.

Rap é compromisso consagra Sabotage como um dos rappers mais talentosos do Brasil. A poesia, o flow e a métrica que ele apresenta são reconhecidamente inovadores, bem como a mistura de melodias cantadas com o estilo agressivo, que caracteriza suas rimas. A parceria com os produtores Zé Gonzales e Daniel Ganjaman contribui para o resultado: as bases instrumentais acrescentam elementos que reforçam o conteúdo das letras e o discurso de protesto.

Nota

1. Gambé é uma gíria pejorativa que identifica o policial.

Fontes de pesquisa 3

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