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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

-FA-TAL- Gal a Todo Vapor

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.03.2022
1971
Ícone da contracultura brasileira, -FA-TAL- Gal a Todo Vapor é o quinto LP da cantora Gal Costa (1945). Mesclando elementos regionais e urbanos, tradicionais e modernos, o disco faz uma síntese das experiências musicais vividas pela intérprete até aquele momento e do próprio contexto sociocultural pós-tropicalista.

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Ícone da contracultura brasileira, -FA-TAL- Gal a Todo Vapor é o quinto LP da cantora Gal Costa (1945). Mesclando elementos regionais e urbanos, tradicionais e modernos, o disco faz uma síntese das experiências musicais vividas pela intérprete até aquele momento e do próprio contexto sociocultural pós-tropicalista.

Lançado em dezembro de 1971 pela gravadora Philips, com direção de Roberto Menescal (1937), o álbum duplo registra as apresentações ao vivo da primeira temporada do show Gal a Todo Vapor, apresentado no teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro. A capa do disco tem projeto visual de Luciano Figueiredo (1948) e Óscar Ramos (1938-2019), com foto em close dos lábios de Gal registrada pelo cineasta Ivan Cardoso (1952). A inscrição -FA-TAL-, extraída de um poema de Waly Salomão (1943-2003)1, passa a identificar tanto o disco como o show. É também do poeta o neologismo “violeto”, presente na cenografia do espetáculo e no interior do encarte do disco: num procedimento próximo à poesia concreta, o termo remete ao mesmo tempo à cor violeta e à palavra “violento”. Ao incluir a obra de Salomão – também diretor geral do show e compositor de algumas das faixas do disco –, Gal acena à cultura marginal, que atravessa o trabalho, lançado nos anos de chumbo da ditadura militar brasileira (1964-1985)2.

O disco incorpora à sua linguagem a precariedade e os imprevistos da performance ao vivo. Alternando momentos intimistas e enérgicos, a cantora transita por diferentes gêneros, do samba com sotaque bossa-novista ao baião e ao rock psicodélico. Esses diferentes climas são pontuados pela canção folclórica “Fruta Gogóia”, registrada duas vezes: a primeira, a cappella e cantada vigorosamente; a segunda,acompanhada do violão e interpretada com suavidade. No LP, entretanto, as duas partes do show estão invertidas, o que compromete a carga semântica da estrutura original concebida por Waly Salomão, retomada somente na reedição em CD. 

Seguindo o roteiro do show, na primeira parte, acústica, Gal toca violão e canta em um registro grave, contido e próximo à fala. No repertório estão presentes sambas de décadas passadas e canções românticas de compositores contemporâneos, como “Coração Vagabundo” [Caetano Veloso(1942)] e “Sua Estupidez” [Roberto Carlos (1941) e Erasmo Carlos (1941)]. Sua interpretação remete à de João Gilberto (1931-2019), sobretudo à técnica do scat-singing3 na introdução de “Falsa Baiana”, citando o cantor em sua versão de “Meditação” (Antonio Carlos Jobim (1927-1994) e Newton Mendonça (1927-1960)]. Gal também alude tacitamente aos amigos Gilberto Gil (1942) e Caetano Veloso, à época exilados, ao adaptar o samba “Antonico” [Ismael Silva (1905-1978)], dos anos 1950, para o contexto dos anos 1970. 

A segunda parte traz canções de compositores estreantes, como Luiz Melodia (1951-2017), Moraes Moreira (1947-2020) e Jards Macalé (1943), e se caracteriza por uma maior estridência. Gal é acompanhada por uma banda, com arranjos de Lanny Gordin (1951), responsável também pela direção musical do espetáculo. Além do guitarrista, que divide o papel com Pepeu Gomes (1952), a banda é formada por Novelli (1945) no baixo, e os Novos Baianos Jorginho Gomes (1955?) na bateria e Baixinho (1952) na percussão. Apresentando influências de blues, jazz e rock, as referências são os músicos estadunidenses Jimi Hendrix (1942-1970) e Janis Joplin (1943-1970).

A transição entre esses dois  momentos do disco é dada pela balada “Vapor Barato”, de Jards Macalé e Waly Salomão. Enquanto a primeira parte da canção segue o estilo violão e voz, na repetição a banda entra com força. A cantora também aumenta o volume e faz uma interpretação visceral, recorrendo ao grito como recurso expressivo. Escrita por Waly Salomão após ser preso e musicada por Jards Macalé, a balada torna-se um hino da contracultura brasileira. Com uma harmonia de simples assimilação, a canção evoca aspectos relacionados à cultura do desbunde4, como o uso de drogas psicoativas e a posição errante e marginal em relação ao capitalismo. Na mesma direção, “Dê um Rolê” [Moraes Moreira (1947-2020) e Luiz Galvão] se distancia da esquerda militante e do conservadorismo da direita, traduzindo o ideário hippie de paz e amor com uma sonoridade vibrante.

A estridência da segunda parte do disco é suspensa em dois momentos: ao cantar “Assum Preto” [Luiz Gonzaga (1912-1989) e Humberto Teixeira (1915-1979)] e “Maria Bethânia" (Caetano Veloso). Nos dois registros, está presente a denúncia contra a truculência da ditadura. No primeiro, ao interpretar o baião em um novo ritmo, acompanhada apenas do baixo elétrico, Gal lhe atribui novo significado, remetendo à falta de liberdade daqueles tempos; no segundo, a cantora é uma emissária da mensagem de Caetano para sua irmã, a quem pede notícias. A cantora revisita ainda a canção “Como Dois e Dois” (Caetano Veloso), deslocando o sentido de sofrimento amoroso para o de aflição política. Seguindo o ideário contracultural, o disco se encerra com a mistura de protesto e festa. Com o frevo “Chuva, Suor e Cerveja” (Caetano Veloso), celebra-se a liberdade sexual durante o Carnaval. A última faixa, “Luz do Sol” (Waly Salomão e Carlos Pinto), parte de um eu-lírico combalido em direção a uma agressividade pulsante, terminando com um verso de resistência e esperança: “Quero ver de novo a luz do sol”.

A interpretação expressiva de Gal, aliada à construção de sua persona no palco, é veículo para uma mensagem contundente, fazendo de -FA-TAL- um marco na música e também na moda e no comportamento da década de 1970. Sua força reside na possibilidade do uso da música, do corpo e da alegria como formas de resistência.

Notas

1. O poema está na obra Me segura qu’eu vou dar um troço, publicado pela primeira vez em 1972, quando o poeta assinava Waly Sailormoon.

2. Também denominada de ditadura civil-militar por parte da historiografia com o objetivo de enfatizar a participação e apoio de setores da sociedade civil, como o empresariado e parte da imprensa, no golpe de 1964 e no regime que se instaura até o ano de 1985.

3. Técnica de improvisação na qual o cantor vocaliza sílabas, valorizando mais a sonoridade que o sentido semântico.

4.Termo pejorativo atribuído pela esquerda militante da década de 1970 a indivíduos que escolhem formas de viver à margem do sistema, baseada em experiências lisérgicas, místicas, sexuais e psicanalíticas.

Fontes de pesquisa 8

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  • DINIZ, Sheyla Castro. Desbundados & marginais: MPB e contracultura nos “anos de chumbo” (1969-1974). 2017. 225 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 2017.
  • FAVARETTO, Celso. A contracultura, entre a curtição e o experimental. São Paulo: N-1 Edições, 2019.
  • FERREIRA, Mauro. Álbum marcante de Gal Costa, 'Fa-Tal' ainda soa preciso em 2021, 50 anos após a edição do LP duplo de 1971. Blog do Mauro Ferreira, G1. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/04/22/album-marcante-de-gal-costa-fa-tal-ainda-soa-preciso-em-2021-50-anos-apos-a-edicao-do-lp-duplo-de-1971.ghtml. Acesso em: 30 jun. 2021.
  • JARDIM, Eduardo. Tudo em volta está deserto: encontros com a literatura e a música no tempo da ditadura. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2017.
  • LEAL, Claudio. Gal Fa-tal, 50. Folha de S.Paulo, Ilustrada, São Paulo, pp. 8-9, 23 maio 2021.
  • NOLETO, Rafael da Silva. “Eu sou uma fruta ‘gogóia’, eu sou uma moça”: Gal Costa e o Tropicalismo no feminino. Per Musi, Belo Horizonte, n. 30, p. 64-75, 2014.
  • POMPEU, Maria Elisa Xavier de Miranda. Canto popular e significação: uma proposta de análise do canto de Gal Costa no disco Fa-tal – Gal a Todo Vapor. 2017. 158f. Dissertação (Mestrado em Música) – Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2017.
  • ZAN, José Roberto. Jards Macalé: desafinando coros em tempos sombrios. Revista USP, São Paulo, n. 87, p. 156-171, set.-nov. 2010.

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