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Enciclopédia Itaú Cultural

Edifício Teatro Oficina

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 16.07.2021
1993
Localizado no tradicional bairro do Bixiga, no centro de São Paulo, o Teat(r)o Oficina é a sede da companhia teatral homônima fundada em 1958. Nomeado como o melhor teatro do mundo na categoria “projeto arquitetônico” pelo jornal britânico The Guardian, em 20151, sua arquitetura se destaca por promover uma relação direta entre público e artistas...

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Localizado no tradicional bairro do Bixiga, no centro de São Paulo, o Teat(r)o Oficina é a sede da companhia teatral homônima fundada em 1958. Nomeado como o melhor teatro do mundo na categoria “projeto arquitetônico” pelo jornal britânico The Guardian, em 20151, sua arquitetura se destaca por promover uma relação direta entre público e artistas, propondo uma experiência democrática e participativa que rompe com a hierarquia de palco e plateia do teatro tradicional.

Inaugurado em 1993, o projeto de autoria da arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), em parceria com o arquiteto Edson Elito (1948), é fruto de anos de experimentação da companhia e materializa a ideia de um teatro escancarado para a cidade, integrando espaço cênico e urbano. O teatro é profundamente atravessado pelas transformações da cidade de São Paulo, que se modifica junto com a própria companhia e suas propostas estéticas. 

Inicialmente alugado, em 1958, o antigo Teatro Novos Comediantes abriga a companhia emergente de José Celso Martinez Corrêa (1937) e Renato Borghi (1937), que o transformam em um teatro de arena com duas plateias opostas. Essa primeira fase dura até 1966, quando o prédio é incendiado por grupos paramilitares e passa por uma reforma em sua concepção arquitetônica. 

Em 1969, inicia-se a parceria da companhia com Lina Bo Bardi, que assume a arquitetura cênica da montagem do espetáculo Na Selva das Cidades (1969), produzindo um cenário a partir dos entulhos de construção do elevado conhecido como Minhocão. As obras do viaduto, localizado na frente do teatro, levam à demolição de inúmeros sobrados, cortando o bairro do Bixiga no meio e trazendo trabalhadores do Norte e do Nordeste para a região. 

Visando acolher também os migrantes, o teatro passa a funcionar como cantina e cozinha comunitária, além de suas atividades como cabaré e sala de exibição de filmes. Esse momento marca definitivamente a abertura do Oficina para a comunidade do entorno e para as questões da disputa urbana em curso na região, tornando-o um espaço de convivência intensa entre artistas, trabalhadores e moradores do bairro. Desde o fim dos anos 1970, sua função extrapola a exclusivamente teatral, tornando-o palco de uma forte agitação política e sociocultural em São Paulo. 

Essa experiência leva a companhia a repensar sua arquitetura, culminando no primeiro projeto de Lina e Edson, em 1980, que inaugura a ideia do teatro-rua e traz a proposta de integração com o terreno vizinho, onde se planeja a criação de um parque público. Na mesma época, no entanto, inicia-se o conflito com o Grupo Silvio Santos (Grupo SS) que, ao comprar os lotes no entorno do Oficina, prevê a construção de um shopping na região e exige judicialmente a saída da companhia do imóvel até então alugado.

O conflito imobiliário com o Grupo SS ganha novos contornos em 1981, com o tombamento do Teatro pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) de São Paulo. Em 1982, o edifício é desapropriado pelo Estado e passa a ser patrimônio público sob a direção do grupo Teatro Oficina. Essas conquistas levam ao início das obras que materializam o novo projeto de Lina e Edson, em 1984. O prédio de arquitetura moderna e única só é concluído em 1994, inaugurando, assim, o Terreiro Eletrônico, como é chamado pelo grupo.

O formato alongado do teatro-rua, com galerias laterais de andaimes de ferro, estrutura de tijolo aparente, canteiros internos de plantas (que incluem uma árvore cesalpina que perfura a parede lateral), seu janelão de 120 m² abrindo o espaço cênico para o céu e a cidade e sua rua-palco, que abole coxias e a relação palco-plateia, marcam definitivamente o início de uma nova fase da companhia. O Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, renomeado em 1984, se consolida como um dos principais e mais singulares teatros do Brasil.

Apesar das conquistas nos anos 1980, o processo de resistência à pressão da especulação imobiliária persiste por décadas. Após a compra de quase todos os terrenos no entorno do teatro, o Grupo SS aprova, em 2000, a construção do shopping na área, que afetaria  diretamente o janelão até então aberto para um “vazio urbano”. A companhia, então, encabeça uma forte mobilização social que leva ao embargo das obras e a um longo processo de negociação, sendo todo esse contexto um terreno fértil para a criação da série de espetáculos inspirados na obra literária homônima: Os Sertões (2002-2006), que tematiza justamente a luta pela terra.

Em 2010, o Teatro e a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona são tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), garantindo novo fôlego à sua luta. Alguns anos depois, em 2016, o Condephaat determina, em decisão histórica, o veto à construção das torres do shopping do Grupo SS, por entender que a obra impacta negativamente o conjunto do patrimônio histórico e cultural do bairro do Bixiga. Desde então, a companhia e seus apoiadores seguem se mobilizando pela aprovação de um projeto de lei que prevê a construção do Parque do Bixiga no entorno do teatro, uma realização do sonho inicial do grupo e dos arquitetos.

Ao longo de seus mais de 60 anos, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona torna-se parte fundamental da história do teatro brasileiro, assim como sua sede, que ocupa um lugar de extrema importância local e internacional. Sua participação ativa nos processos de disputa e transformação urbana, e a inclusão dessas questões em sua arquitetura deslumbrante fazem desse Terreiro Eletrônico uma obra de arte histórica e viva incrustada no centro de concreto da cidade de São Paulo.

Nota

1. MOORE, Rowan. The 10 best theatres. The Guardian. Londres, 11 dez. 2015. Architecture. Disponível em: https://www.theguardian.com/artanddesign/2015/dec/11/the-10-best-theatres-architecture-epidaurus-radio-city-music-hall?utm_medium=website&utm_source=archdaily.com.br. Acesso em: 20 maio 2021.

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