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Limite

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 21.05.2021
17.05.1931
Dirigido por Mário Peixoto (1908-1992), Limite (1931) se destaca na cinematografia brasileira do período em razão de suas experimentações estéticas e também por ser silencioso. Em plena ascensão do cinema falado, o diretor Mário Peixoto realiza um filme mudo com recursos técnicos e formais desenvolvidos pelo cinema europeu de vanguarda, e utiliz...

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Dirigido por Mário Peixoto (1908-1992), Limite (1931) se destaca na cinematografia brasileira do período em razão de suas experimentações estéticas e também por ser silencioso. Em plena ascensão do cinema falado, o diretor Mário Peixoto realiza um filme mudo com recursos técnicos e formais desenvolvidos pelo cinema europeu de vanguarda, e utiliza-se de metáforas para expor de maneira poética o interior de seus personagens. Impotência, solidão, desespero e resignação marcam todo o filme. 

A combinação de uma montagem poética com a fluência narrativa surge já no início. A intensidade da primeira sequência, que apresenta um barco à deriva, onde os personagens estão entregues ao destino, condensa os elementos que são desenvolvidos ao longo do filme. Vemos na tela um bando de urubus, que dá lugar à imagem emblemática de uma mulher cabisbaixa, tendo à sua frente mãos masculinas algemadas. Trata-se de uma imagem-síntese, que simboliza a condição humana. 

Sem nomes próprios, os personagens são definidos como Mulher 1, Mulher 2 e Homem 1, o que sugere a generalidade de suas situações. A Mulher 1 observa o horizonte vazio, enquanto o Homem 1, desolado, prostrado logo atrás dela, não manifesta nenhum esforço em movimentar o remo em suas mãos. Ao fundo do barco, a Mulher 2 permanece deitada, sem movimentos. A primeira, num gesto solidário, volta-se para o homem e lhe oferece um biscoito, mas sofre um corte no dedo ao tentar abrir a caixa de biscoitos. A situação de fracasso dos personagens já está aparente nesse início. 

Em flashbacks, a narrativa expõe a memória dos três personagens. Na primeira história, a  Mulher 1 é um personagem enclausurado na vida cotidiana, marcada por privações materiais e trabalho intenso e rotineiro. A imagem em primeiro plano de uma tesoura representa essa vida de castração e aprisionamento. Na segunda história, a Mulher 2 é apresentada na solidão de um casamento frustrado, marcado pela indiferença de um marido alcoólatra. Os planos em que ela caminha sem destino sugerem uma vida sem rumo. Na terceira história, o Homem 1 se defronta com a amargura da traição, por ter se relacionado com a mulher sifilítica de seu amigo.  

Para a realização de Limite, Mário Peixoto trabalha com Edgar Brasil (1902-1954), o principal fotógrafo do cinema mudo brasileiro. No elenco estão nomes como Olga Breno (1911-2000), Taciana Rei, Raul Schnoor e Brutus Pedreira (1898-1964), além das breves participações de Carmen Santos (1904-1952) e do próprio Peixoto. A complexidade da concepção de Limite se deve à sensibilidade do diretor, que se beneficia de longa estada na Europa e das experiências do cinema poético francês de Jean Epstein (1897-1953) e Germaine Dulac (1882-1942), e do cinema construtivista do diretor soviético Serguei Eisenstein (1898-1948). Essa formação marca a afinidade de Peixoto com as ideias do Chaplin Club1, o primeiro cineclube do país. 

A seleção de músicas contribui para intensificar a dramaticidade da obra e os enquadramentos emolduram os dramas na paisagem litorânea e fazem o espectador se aproximar das trajetórias marcadas pela fuga da vida cotidiana de um casamento infeliz e da morte anunciada em razão do adultério. Cada uma das histórias é apresentada por um fluxo de imagens que ora tende à fragmentação, ora privilegia a continuidade narrativa. 

A singularidade do filme tem provocado diferentes reações ao longo do tempo. Os representantes do Chaplin-Club veem nele a expressão de seu ideal estético. Antes mesmo de o filme ser finalizado, algumas fotografias são publicadas em O Fan e um comentário entusiástico acompanha um trecho do roteiro, que considera sua concepção uma surpresa cinematográfica no país.

A primeira e única exibição pública, em sessão vespertina, de Limite ocorre em 17 de maio de 1931. O filme não tem carreira comercial, mas alcança prestígio cada vez maior na crítica e entre os integrantes do Chaplin-Club, em particular Plínio Sussekind Rocha. Além de promover sessões privadas até a década de 1950, quando o filme se deteriora, Plínio divulga textos sobre o Limite, o que contribui para construir um mito sobre o filme, muito comentado, mas pouquíssimo assistido entre os seus contemporâneos. 

No livro Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (1963), o diretor de cinema Glauber Rocha (1939-1981) comenta o filme, mesmo sem vê-lo. Para ele, a estética de Peixoto representa o individualismo burguês: “Limite é a substituição de uma verdade objetiva por uma vivência interior; uma vivência formalizada, socialmente mentirosa; a sua moral, como o tema, é um limite”.2
 
Com a morte de Edgar Brasil em 1954, Peixoto entrega os materiais do filme para que Plínio o restaure, quando o péssimo estado de preservação das imagens quase gera sua perda definitiva. Em 1971, é concluída a primeira restauração, o que permite que o filme tenha alguma circulação, mas é exibido publicamente somente em 1978. Na ocasião, Glauber volta a comentá-lo, suavizando sua opinião de 15 anos atrás, mas ainda mantém a acusação de “produto de intelectual burguês decadente”.3

A preservação de Limite é assegurada somente em 2007, com o processo de restauração fotoquímica realizado pela Cinemateca Brasileira, e, no mesmo ano, o filme é exibido no Festival de Cannes. Em 2010, nova intervenção é feita utilizando recursos da tecnologia digital, e, em 2011, o filme é exibido em São Paulo no Auditório Ibirapuera.

Com uma narrativa que mescla fragmentação com continuidade e ao mesmo explora as angústias dos personagens por meio das imagens, Limite torna-se peça importante para a análise do cinema brasileiro.

Notas

1. O Chaplin Club, por meio de O Fan, órgão oficial do grupo, busca promover e definir “o verdadeiro cinema” como puro, longe dos compromissos comerciais. Para eles, deveria-se negar o cinema falado e ressaltar as especificidades da imagem na tela e a força estética de expressão da essência do homem, algo de que Mário Peixoto partilha.

2. ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963. p. 44.

3. ROCHA, Glauber. Limite. In: LABAKI, Amir (org.). Folha conta 100 anos de cinema. São Paulo: Posigraf, 1995.

Fontes de pesquisa 6

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  • ALBERA, François. L’avant-garde au cinéma. Paris: Armand Colin, 2005.
  • FARIA, Octávio de. Limite. In: O Fan, n.09, dez./1930.
  • L’ ge du cinéma, n. 6, dec.1951.
  • MELLO, Saulo Pereira de. Limite. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
  • ROCHA, Glauber. Limite. In: LABAKI, Amir (org.). Folha conta 100 anos de cinema. São Paulo: Posigraf, 1995.
  • ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.

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