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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Eles não usam Black-tie

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 24.02.2021
1981
Em 1981, Leon Hirszman (1937-1987) dirige o longa-metragem Eles Não Usam Black-tie. Adapta para o cinema a peça teatral escrita por Gianfrancesco Guarnieri (11934-2006) em 1956, encenada pela primeira vez em 1958 no Teatro de Arena. Em parceria com dramaturgo, que colabora na escrita do roteiro do filme, o cineasta retoma o enredo sobre dois ope...

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Em 1981, Leon Hirszman (1937-1987) dirige o longa-metragem Eles Não Usam Black-tie. Adapta para o cinema a peça teatral escrita por Gianfrancesco Guarnieri (11934-2006) em 1956, encenada pela primeira vez em 1958 no Teatro de Arena. Em parceria com dramaturgo, que colabora na escrita do roteiro do filme, o cineasta retoma o enredo sobre dois operários, pai e filho, divididos diante da eclosão de uma greve na fábrica em que trabalham.

Em Brasilândia, São Paulo, o jovem operário Tião [Carlos Alberto Ricelli (1946)] descobre que sua namorada espera um filho. Sem revelar a gravidez para os pais, ele anuncia o noivado com Maria [Bete Mendes (1949)] e agenda o casamento. No momento em que Tião planeja conseguir aumento salarial, os operários da fábrica decidem realizar greve depois da demissão de alguns trabalhadores, vinculados ao movimento sindical. Temendo que a paralisação atrapalhe seus planos de ascender na hierarquia da empresa, fica mais apreensivo quando percebe que seu pai, o militante Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), participará do piquete contra a fábrica. 

Nas horas que antecedem a paralisação, as tensões no interior da família intensificam-se. Embora Romana [Fernanda Montenegro (1929)] tente conter os conflitos entre o filho Tião e o marido Otávio, os dois discutem durante um jantar. O primeiro, acusa o pai de descuidar da família em nome da política, levando-a à miséria e ao sofrimento. O segundo, critica a postura individualista do jovem, enxergando nele o fruto de uma ditadura que impõe o medo à classe popular. O confronto entre essas visões de mundo torna-se irreversível no momento em que estoura a paralisação. Preocupado com a gravidez da namorada, o jovem fura a greve e assiste, impassível, o pai ser preso. Tião paga um duro preço por suas escolhas: é abandonado por Maria, que quase perde o bebê após ser espancada pela polícia durante o piquete, e é expulso de casa por Otávio, para quem é impossível viver no mesmo teto que um fura-greve. Enquanto o personagem despede-se da mãe, prossegue a manifestação em frente à fábrica. O militante Bráulio [Milton Gonçalves (1933)], amigo de Otávio, tenta conter os operários radicais, mas é morto por um policial à paisana. Nas sequências finais do filme, apesar da angústia pela fragmentação familiar e pelo assassinato de Bráulio, os personagens envolvidos com a greve procuram superar o mal-estar e reagir à repressão. Em tom documental, o filme termina em uma rua de São Paulo, onde um cortejo, tendo à frente Otávio, acompanha o caixão do companheiro morto enquanto grita repetidas vezes a frase “a greve continua”. O luto, embora doloroso, transforma-se em pulsão para prosseguir com a luta.

Em Eles Não Usam Black-tie, o cineasta faz um filme político que se aproxima do cinema clássico, de linguagem convencional, com a finalidade de dialogar com o espectador. Baseia-se num roteiro que privilegia o desenvolvimento emocional dos personagens, flertando com o melodrama. Em dezembro de 1981, Hirszman declara que busca fazer um “cinema nacional e popular (...) que se dirija a amplas camadas da população (...) [e] que sinta respeito pelo homem, culturalmente falando, pensando que ele pode sentir prazer, emoção estética”.1

Em setembro de 1981, Eles Não Usam Black-tie é premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, estréia nos circuitos paulista e carioca de exibição e recebe análises positivas de jornais brasileiros. O crítico José Carlos Avellar (936-2016) destaca que uma das qualidades da obra encontra-se no fato de a dimensão política – a greve – aparecer apenas como pano de fundo para o desenvolvimento do “drama cotidiano dos personagens”. Valoriza a capacidade de Hirszman em realizar um filme em que a construção psicológica dos personagens permite que “o operário antes de aparecer como agente da história apareça como gente”. O objetivo é “levar o espectador à compreensão do cotidiano do trabalhador. A sentir, primeiro, e a compreender depois, pelo sentimento, o drama de Otávio, Romana, Sartini, Maria”. 

Assim como Avellar, outros críticos da época elogiam o filme que procura evitar as caricaturas e os esquematismos do cinema político, apresentando personagens que emocionam o espectador. Para o crítico norte-americano Vincent Canby, Eles Não Usam Black-tie é, junto com Vidas Secas (1963), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Macunaíma (1969), uma das melhores obras do Cinema Novo: “É um filme cheio de emoções, mas estas não são nem baratas nem sentimentais. Elas emanam merecidamente do rigor do material de Hirszman e do seu estilo, que pode ser descrito como realismo sem firulas pitorescas”.

Os críticos elegem como a grande cena do filme aquela em que, abatidos após o velório de a Bráulio, os personagens Otávio e Romana separam em silêncio feijões bons de ruins. De forte apelo emocional, é o tempo do luto, quando a montagem torna-se mais lenta, com a câmera estática, fazendo com que o mal-estar diante do assassinato interfira na composição da mise-en-scéne. Com impecável uso da decupagem clássica e o lirismo das cordas de um violão, é o momento mais emocionante do filme, no qual os personagens transmitem um sentimento que oscila entre a angústia da perda de um amigo e a necessidade de superar a dor para retornar à luta contra a opressão.

Embora elogiado à época pela maioria dos críticos, uma das vozes dissonantes é a do economista e museólogo Maurício Segall (1926-2017). Ele reconhece o talento de Hirszman em realizar um bom filme do ponto de vista estético, mas incomoda-se com a  representação política do movimento operário. Para o intelectual, ao apresentar um enredo no qual a classe trabalhadora sai derrotada da greve, Hirszman não consegue – ou não quer – ver que naquele momento o novo sindicalismo da região do ABC convoca às ruas uma massa popular com consciência política e em oposição à ditadura. De acordo com Segall, o filme “é uma mensagem de derrota e negativismo, não abrindo rigorosamente perspectiva nenhuma”.

Polêmicas à parte, o filme de Hirszman é, em 1981, sucesso de público e de crítica e torna-se uma das obras mais premiadas de um realizador do Cinema Novo. Além de receber o Leão de Ouro em Veneza, também ganha, no mesmo Festival, o Prêmio da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), o Prêmio Agis Banca Nazionale del Lavoro, o Prêmio OCIC – Menção Honrosa Especial e o Prêmio Federação Italiana dos Cinemas de Arte (Fice).

Nota:

1. HIRSZMAN, Leon. La respuesta es si. Entrevista concedida pelo cineasta a CHIJONA, Gerardo. Cine cubano, Havana, n. 102, dez. 1981.

 

Fontes de pesquisa 5

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  • AVELLAR, José Carlos. O agente como gente. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 set. 1981.
  • CANDY, Vincent. O ardente cinema novo produz um filme bom. The New York Times, Nova York, 12 jun. 1983.
  • COELHO, Lauro Machado. Denso, humano, banal: um belo filme. Jornal da Tarde, São Paulo, 12 set. 1981.
  • HIRSZMAN, Leon. La respuesta es si. Entrevista concedida pelo cineasta a CHIJONA, Gerardo. Cine cubano, Havana, n. 102, dez. 1981.
  • PEREIRA, Edmar. Painel sombrio e muita emoção. O Estado de S. Paulo, São Paulo,12 set. 1981.

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