Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Lição de Amor

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.11.2020
1975
Primeiro longa-metragem de Eduardo Escorel (1945), baseado no romance Amar, Verbo Intransitivo (1927), de Mário de Andrade (1893-1945). A produção viabiliza-se graças ao prêmio Embrafilme de incentivo às transposições literárias para o cinema. Para o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet (1936), ao patrocinar adaptações da literatura brasileir...

Texto

Abrir módulo

Primeiro longa-metragem de Eduardo Escorel (1945), baseado no romance Amar, Verbo Intransitivo (1927), de Mário de Andrade (1893-1945). A produção viabiliza-se graças ao prêmio Embrafilme de incentivo às transposições literárias para o cinema. Para o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet (1936), ao patrocinar adaptações da literatura brasileira, o regime militar da época pretende “criar um cinema de prestígio cultural”, sem o “caráter crítico inaceitável” dos filmes do Cinema Novo1. Para os produtores, trata-se de uma maneira de conquistar financiamento do Estado e produzir filmes sem o apelo sexual das pornochanchadas.

Eduardo Escorel torna pública a inevitabilidade desse processo. Para ele, “o produtor de cinema [...] é estruturalmente dependente [e] vive num limbo cujos limites parecem ser o moralismo boçal da comédia erótica e a artificiosa dignidade das adaptações literárias de autores consagrados”2. Lição de Amor é uma tentativa de locomover-se dentro desses parâmetros, para refletir sobre a época retratada no longa, e produzir um filme que alcance o público.

O diretor substitui o experimentalismo do romance modernista pela narrativa clássica. Assim, a ação fragmentária do narrador é substituída pelo roteiro linear. As cenas são compostas por planos rigorosamente enquadrados e bem-iluminados. O ambiente asséptico e luxuoso de uma propriedade burguesa dos anos 1920 é reforçado pelas pratarias polidas e roupas engomadas.

O prólogo apresenta o tema de modo objetivo: Felisberto Souza Costa, interpretado por Rogério Fróes (1934), fazendeiro e industrial, contrata os serviços de Helga, vivida por Lilian Lemmertz (1937-1986), uma imigrante alemã, para iniciar a vida sexual de seu filho Carlos, de 16 anos, representado por Marcos Taquechel. Segundo o pai, essa iniciação deve ser regrada e sem vícios, para que as perdições da juventude não ameacem a descendência e o patrimônio da família. A jovem alemã estipula o valor de oito contos de réis pelo pagamento do trabalho.

Apresentada como governanta e tutora de alemão do primogênito e professora de piano das três filhas, Helga exige ser chamada de Fräulein (“senhorita” em português). Mantém distância da criadagem, com exceção do mordomo oriental Tanaka, interpretado por William Wu. A cumplicidade entre estrangeiros permite que ela lhe confidencie as dificuldades vividas na Alemanha e reclame da indisciplina dos lares brasileiros.

Com planos longos e abertos, o filme descreve o jardim, os cômodos e o cotidiano solene da casa: as saídas noturnas do pai, as intimidades do casal, a reunião da mãe com amigas, os afazeres das empregadas na cozinha, a silenciosa mesura do mordomo. Com igual harmonia, são retratadas as lições de alemão para Carlos, durante as quais Fräulein intensifica a aproximação física com ele.

Os momentos de maior dramaticidade recebem igual contenção. A mãe Laura, representada por Irene Ravache (1944), percebe a mudança de comportamento do filho e, embora tenha apreço pela tutora, pede que Fräulein deixe a casa. Ao perceber que a esposa desconhece o verdadeiro motivo de sua presença, Helga questiona Souza Costa. O pai alerta a esposa sobre o perigo de aventureiras e Fräulein defende os deveres disciplinadores na matéria do amor. Convencida, Laura concorda com a permanência da professora.

Fräulein retoma as lições, e Carlos, a princípio arredio e mau aluno, adere ao jogo amoroso e exige um encontro com a professora à meia-noite. Fräulein cede, mas percebe que o jovem não é mais virgem. Questionado, o rapaz confessa experiência sexual anterior, mas declara seu amor à tutora. O romance traz bons resultados, e Carlos fala alemão com fluência. Durante um piquenique em família, os pais percebem que a relação entre os dois sai de controle. Souza Costa combina com Fräulein uma ruptura menos dolorosa. A professora concorda com a separação, mas discorda do método – para ela, o sofrimento fortalece o espírito.

À noite, o dono da casa finge flagrar o filho no quarto de Fräulein. Exige explicações e demite a tutora. Na manhã seguinte, a professora despede-se do pupilo e parte. No interior do táxi, observa o carro afastar-se da casa e recorda-se de outros rapazes com quem vive experiências semelhantes. Conclui que Carlos logo se casará bem, feliz, rico, dando continuidade a uma ordem imutável. Na cena  final, Fräulein abre um envelope e conta as notas recebidas como pagamento, enquanto o mordomo fecha os portões da mansão. 

A cena da partida de Fräulein, gravada de modo simétrico à da chegada, caracteriza o universo fechado dentro do qual a participação da personagem não é transformadora. Jean-Claude Bernardet reconhece a semelhança implícita entre Fräulein e um certo tipo de intelectual da época. Este, assim como o cineasta, prensado entre “o projeto cultural e a remuneração”, posiciona-se como um prestador de serviço. Para o crítico, do mesmo modo de Fräulein, o cineasta abre mão de radicalizar sua linguagem ou de abordar as contradições de sua ação. “A feitura extremamente cuidada do trabalho, a sua harmonia e homogeneidade, a lógica imperturbável da construção dramática [...], sob os auspícios de um monumento literário” – diz Bernardet – resultam numa obra que dá “a uma certa burguesia brasileira uma lisonjeira imagem de si mesma”3.

Marcos Ribas de Faria pensa em direção oposta. Para ele, o filme demonstra “a precisão mais sutil e ostensiva [...] do registro frio do como e do porquê as coisas [da burguesia brasileira] acontecem e permanecem”. Para o crítico, Eduardo Escorel age com rigor de cientista ao avaliar o que se esconde por trás dessa classe social: “a escritura que é oferecida ao espectador trabalha [...] sobre a aparência, mas também [...] desnuda a representação desta aparência”4.

Lição de Amor ganha os principais prêmios de 1976, do Festival de Gramado, da Coruja de Ouro e do Governador do Estado, bem como a Margarida de Prata da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na época, a CNBB atua como instância religiosa de ligações polêmicas com a Teologia da Libertação e assume a resistência ao regime militar em defesa da redemocratização do país.

Notas:

1. BERNARDET, Jean-Claude. Adaptações: nem foi preciso medidas violentas. Última Hora, São Paulo, p. 14, 24 jul. 1978.

2. ESCOREL, Eduardo. Num país como o nosso, o fazer é uma forma de ação útil. Opinião, São Paulo, p. 20, 7 maio 1976.

3. BERNARDET, Jean-Claude. Uma estética bem comportada. Opinião, 23 jul. 1976. In: BERNARDET, Jean-Claude. Piranha no mar de rosas. São Paulo: Nobel, 1982.

4. ESCOREL, Eduardo. Num país como o nosso, o fazer é uma forma de ação útil. Opinião, São Paulo, p. 20, 7 maio 1976.

Fontes de pesquisa 6

Abrir módulo
  • BARROS, José Tavares de. Amar: verbo transitivo ou intransitivo? Caderno de Crítica, Rio de Janeiro, n. 4, p. 31-34, set. 1987.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Adaptações: nem foi preciso medidas violentas. Última Hora, São Paulo, p. 14, 24 jul. 1978.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Uma estética bem comportada. Opinião, 23 jul. 1976. In: BERNARDET, Jean-Claude. Piranha no mar de rosas. São Paulo: Nobel, 1982. p. 39-44.
  • ESCOREL, Eduardo. Num país como o nosso, o fazer é uma forma de ação útil. Opinião, São Paulo, p. 19-20, 7 maio 1976.
  • FARIA, Marcos Ribas de. Os cristais da velha classe. Opinião, São Paulo, p. 20, 7 maio 1976.
  • VELLOSO, Mônica Pimenta. Emoção e razão numa lição de amor. In: SOARES, Mariza de Carvalho; FERREIRA, Jorge (Orgs.). A História vai ao cinema: vinte filmes brasileiros comentados por historiadores. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 43-52.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: