Artigo da seção obras Lição de Amor

Lição de Amor

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoLição de Amor: 1975 | Eduardo Escorel
Filme
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Lição de Amor [cartaz] , ca. 1975
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Primeiro longa-metragem de Eduardo Escorel (1945), baseado no romance Amar, Verbo Intransitivo (1927), de Mário de Andrade (1893-1945). A produção viabiliza-se graças ao prêmio Embrafilme de incentivo às transposições literárias para o cinema. Para o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet (1936), ao patrocinar adaptações da literatura brasileira, o regime militar da época pretende “criar um cinema de prestígio cultural”, sem o “caráter crítico inaceitável” dos filmes do Cinema Novo1. Para os produtores, trata-se de uma maneira de conquistar financiamento do Estado e produzir filmes sem o apelo sexual das pornochanchadas.

Eduardo Escorel torna pública a inevitabilidade desse processo. Para ele, “o produtor de cinema [...] é estruturalmente dependente [e] vive num limbo cujos limites parecem ser o moralismo boçal da comédia erótica e a artificiosa dignidade das adaptações literárias de autores consagrados”2. Lição de Amor é uma tentativa de locomover-se dentro desses parâmetros, para refletir sobre a época retratada no longa, e produzir um filme que alcance o público.

O diretor substitui o experimentalismo do romance modernista pela narrativa clássica. Assim, a ação fragmentária do narrador é substituída pelo roteiro linear. As cenas são compostas por planos rigorosamente enquadrados e bem-iluminados. O ambiente asséptico e luxuoso de uma propriedade burguesa dos anos 1920 é reforçado pelas pratarias polidas e roupas engomadas.

O prólogo apresenta o tema de modo objetivo: Felisberto Souza Costa, interpretado por Rogério Fróes (1934), fazendeiro e industrial, contrata os serviços de Helga, vivida por Lilian Lemmertz (1937-1986), uma imigrante alemã, para iniciar a vida sexual de seu filho Carlos, de 16 anos, representado por Marcos Taquechel. Segundo o pai, essa iniciação deve ser regrada e sem vícios, para que as perdições da juventude não ameacem a descendência e o patrimônio da família. A jovem alemã estipula o valor de oito contos de réis pelo pagamento do trabalho.

Apresentada como governanta e tutora de alemão do primogênito e professora de piano das três filhas, Helga exige ser chamada de Fräulein (“senhorita” em português). Mantém distância da criadagem, com exceção do mordomo oriental Tanaka, interpretado por William Wu. A cumplicidade entre estrangeiros permite que ela lhe confidencie as dificuldades vividas na Alemanha e reclame da indisciplina dos lares brasileiros.

Com planos longos e abertos, o filme descreve o jardim, os cômodos e o cotidiano solene da casa: as saídas noturnas do pai, as intimidades do casal, a reunião da mãe com amigas, os afazeres das empregadas na cozinha, a silenciosa mesura do mordomo. Com igual harmonia, são retratadas as lições de alemão para Carlos, durante as quais Fräulein intensifica a aproximação física com ele.

Os momentos de maior dramaticidade recebem igual contenção. A mãe Laura, representada por Irene Ravache (1944), percebe a mudança de comportamento do filho e, embora tenha apreço pela tutora, pede que Fräulein deixe a casa. Ao perceber que a esposa desconhece o verdadeiro motivo de sua presença, Helga questiona Souza Costa. O pai alerta a esposa sobre o perigo de aventureiras e Fräulein defende os deveres disciplinadores na matéria do amor. Convencida, Laura concorda com a permanência da professora.

Fräulein retoma as lições, e Carlos, a princípio arredio e mau aluno, adere ao jogo amoroso e exige um encontro com a professora à meia-noite. Fräulein cede, mas percebe que o jovem não é mais virgem. Questionado, o rapaz confessa experiência sexual anterior, mas declara seu amor à tutora. O romance traz bons resultados, e Carlos fala alemão com fluência. Durante um piquenique em família, os pais percebem que a relação entre os dois sai de controle. Souza Costa combina com Fräulein uma ruptura menos dolorosa. A professora concorda com a separação, mas discorda do método – para ela, o sofrimento fortalece o espírito.

À noite, o dono da casa finge flagrar o filho no quarto de Fräulein. Exige explicações e demite a tutora. Na manhã seguinte, a professora despede-se do pupilo e parte. No interior do táxi, observa o carro afastar-se da casa e recorda-se de outros rapazes com quem vive experiências semelhantes. Conclui que Carlos logo se casará bem, feliz, rico, dando continuidade a uma ordem imutável. Na cena  final, Fräulein abre um envelope e conta as notas recebidas como pagamento, enquanto o mordomo fecha os portões da mansão. 

A cena da partida de Fräulein, gravada de modo simétrico à da chegada, caracteriza o universo fechado dentro do qual a participação da personagem não é transformadora. Jean-Claude Bernardet reconhece a semelhança implícita entre Fräulein e um certo tipo de intelectual da época. Este, assim como o cineasta, prensado entre “o projeto cultural e a remuneração”, posiciona-se como um prestador de serviço. Para o crítico, do mesmo modo de Fräulein, o cineasta abre mão de radicalizar sua linguagem ou de abordar as contradições de sua ação. “A feitura extremamente cuidada do trabalho, a sua harmonia e homogeneidade, a lógica imperturbável da construção dramática [...], sob os auspícios de um monumento literário” – diz Bernardet – resultam numa obra que dá “a uma certa burguesia brasileira uma lisonjeira imagem de si mesma”3.

Marcos Ribas de Faria pensa em direção oposta. Para ele, o filme demonstra “a precisão mais sutil e ostensiva [...] do registro frio do como e do porquê as coisas [da burguesia brasileira] acontecem e permanecem”. Para o crítico, Eduardo Escorel age com rigor de cientista ao avaliar o que se esconde por trás dessa classe social: “a escritura que é oferecida ao espectador trabalha [...] sobre a aparência, mas também [...] desnuda a representação desta aparência”4.

Lição de Amor ganha os principais prêmios de 1976, do Festival de Gramado, da Coruja de Ouro e do Governador do Estado, bem como a Margarida de Prata da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na época, a CNBB atua como instância religiosa de ligações polêmicas com a Teologia da Libertação e assume a resistência ao regime militar em defesa da redemocratização do país.

Notas:

1. BERNARDET, Jean-Claude. Adaptações: nem foi preciso medidas violentas. Última Hora, São Paulo, p. 14, 24 jul. 1978.

2. ESCOREL, Eduardo. Num país como o nosso, o fazer é uma forma de ação útil. Opinião, São Paulo, p. 20, 7 maio 1976.

3. BERNARDET, Jean-Claude. Uma estética bem comportada. Opinião, 23 jul. 1976. In: BERNARDET, Jean-Claude. Piranha no mar de rosas. São Paulo: Nobel, 1982.

4. ESCOREL, Eduardo. Num país como o nosso, o fazer é uma forma de ação útil. Opinião, São Paulo, p. 20, 7 maio 1976.

Ficha Técnica da obra Lição de Amor:

Representação (1)

Fontes de pesquisa (6)

  • BARROS, José Tavares de. Amar: verbo transitivo ou intransitivo? Caderno de Crítica, Rio de Janeiro, n. 4, p. 31-34, set. 1987.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Adaptações: nem foi preciso medidas violentas. Última Hora, São Paulo, p. 14, 24 jul. 1978.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Uma estética bem comportada. Opinião, 23 jul. 1976. In: BERNARDET, Jean-Claude. Piranha no mar de rosas. São Paulo: Nobel, 1982. p. 39-44
  • ESCOREL, Eduardo. Num país como o nosso, o fazer é uma forma de ação útil. Opinião, São Paulo, p. 19-20, 7 maio 1976.
  • FARIA, Marcos Ribas de. Os cristais da velha classe. Opinião, São Paulo, p. 20, 7 maio 1976.
  • VELLOSO, Mônica Pimenta. Emoção e razão numa lição de amor. In: SOARES, Mariza de Carvalho; FERREIRA, Jorge (Orgs.). A História vai ao cinema: vinte filmes brasileiros comentados por historiadores. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 43-52.

Como citar?

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  • LIÇÃO de Amor. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra71096/licao-de-amor>. Acesso em: 06 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7