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Bye Bye Brasil

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.11.2020
1997
Bye Bye Brasil (1979) é oitavo longa-metragem de Carlos Diegues (1940). Através de um cenário mambembe que percorre o interior do Brasil, o longa mescla e aponta as contradições entre o moderno e o tradicional na cultura brasileira.

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Bye Bye Brasil (1979) é oitavo longa-metragem de Carlos Diegues (1940). Através de um cenário mambembe que percorre o interior do Brasil, o longa mescla e aponta as contradições entre o moderno e o tradicional na cultura brasileira.

Bye Bye Brasil narra a história de uma trupe de artistas mambembes, que roda com a Caravana Rolidei pelo interior do Brasil. O mágico Lorde Cigano [José Wilker (1946-2014)], a “rainha da rumba” Salomé [Betty Faria (1941)] e o homem-músculo Andorinha (Príncipe Nabor) chegam a uma cidadezinha do interior do Nordeste e encontram o sanfoneiro Ciço [Fábio Júnior (1953)] e sua mulher grávida, Dasdô [Zaira Zambelli (1954)]. Esses se juntam à trupe e partem no caminhão para conhecer o país. Na cidade de Maceió, em Alagoas, Ciço vê o mar pela primeira vez; em um pequeno vilarejo, conhecem Zé da Luz [Jofre Soares (1918-1996)], projecionista de filmes como O Ébrio (1946). Já no caminho para Altamira, no Pará, encontram índios que querem andar de avião e possuem rádios de pilha; em Altamira, perdem o caminhão em uma aposta, e Salomé tem de se prostituir. Em seguida, vão à zona de Belém, no Pará, brigam, separam-se e, por fim, reencontram-se em Brasília com Salomé e o Lorde Cigano, com novo caminhão, cheio de luzes, em direção a Rondônia.

No enredo, há ainda duas tramas importantes: o amor de Ciço por Salomé e o declínio de espectadores com a chegada da televisão. As antenas de TV, chamadas de “espinhas de peixe” pela trupe, são o sinal da modernidade homogeneizante, que hipnotiza o público. A cena da população altamirense diante da televisão pública é real: foi vista pelo diretor durante viagem pelo interior de Alagoas, em 1973. Para o grupo de artistas, a sobrevivência é uma corrida contra o tempo, que se traduz em uma fuga pelo espaço. Sobre isso, o crítico de cinema David Neves (1938-1994) fala que “o Brasil é tão grande e desconhecido que o espaço vira tempo”.
 
A anacronia de índios portando rádios de pilha ou de televisores transmitindo apenas barras de cores em Altamira, pois o sinal televisivo não está presenta na cidade, é reforçada na canção-tema do filme: “Puseram uma usina no mar / Talvez fique ruim pra pescar / [...] No Tocantins / O chefe dos parintintins / Vidrou na minha calça Lee”. Há uma contraposição constante entre arcaico e moderno, miséria e progresso, natural e artificial. Sobre isso, fala o diretor: “Botamos grua no sertão, traveling na Amazônia”. Além de máquinas importadas, a “invasão” estrangeira é perceptível no título, no nome da caravana, nos dólares da fábrica flutuante de papel, na neve falsa caindo ao som de “White Christmas”. E também na música da discoteca em Belém, na novela Dancing Days, na interpretação do estadunidense Frank Sinatra (1915-1998) para “Aquarela do Brasil” e na música-tema: “O som é que nem os Bee Gees”; “Baby, bye bye”; “Eu penso em vocês night and day / Explica que tá tudo okay”.

Na época, alguns intérpretes do filme cobram do cineasta posicionamento mais crítico sobre o processo de modernização, na medida em que a essência capitalista predatória é avaliada como imutável.
 
O crítico Jairo Ferreira (1945-2003) ataca o filme: “Diegues força a barra dessa esperança: seus personagens se arrumam na vida. Se adaptam ao sistema. Bye bye parece um filme institucional”1. Raquel Gerber tenta demonstrar a abordagem insuficiente da reação política de agentes sociais: “Diegues documenta o ‘crepúsculo de uma nação’ sem nunca discuti-lo a partir de novas formas vitais [...]. O teatro de Diegues encena um encontro entre brancos, índios, um negro e as mulheres e desperdiça esse encontro”2.

José Carlos Avellar (1936-2016), em posição conciliadora, admira “o que se passa lá no fundo da imagem”, sem impor-se ao olhar: o brinquedo na mão de um indiozinho, o cartaz da fábrica flutuante, a procissão na cidade seca, o casario à beira do rio, a floresta engolindo a estrada. Essa faceta documental do filme funciona como “reflexo da realidade”, e outro lado, que a ela se sobrepõe, “age como uma ficção, como algo ditado só pela emoção”, quase uma “estorinha” de telenovela. Na metáfora do analista, o espectador tem a opção de ficar com um olho na TV e o outro na janela3.

Avellar aponta o pragmatismo da obra de Diegues: o olho na janela persiste no desejo de captar a realidade brasileira, como o cinema novo, do qual Diegues é representante; o olho na TV assume os compromissos com o mercado, dos quais não se sai ileso. Um dos aparentes paradoxos – ou a “atitude antropofágica da cultura brasileira”4, em conformidade com a temática do filme – é que, concomitantemente à crítica à televisão, o filme incorpora artistas e recursos simplificadores da narrativa televisiva. Além disso, é cofinanciado por Walter Clark (1936-1997), executivo da Rede Globo de Televisão, uma das criações do regime militar, segundo afirmação do próprio diretor. 

Bye Bye Brasil consolida as discussões político-culturais que atravessam a década de 1970. A trilha sonora de Chico Buarque (1944) e Roberto Menescal (1937) também faz referência ao momento político e à contradição entre o moderno e o tradicional na cultura brasileira. Um ano antes da produção do filme, Diegues lança a polêmica sobre “patrulhas ideológicas”. O diretor acusa alguns setores da esquerda de imporem, na redemocratização do país, “um novo tipo de censura”, uma “espécie de autoritarismo cultural”5, em que se procura restaurar os anseios pré-golpe de 1964. O diretor reivindica pluralismo de pensamentos e pede para que enterrem a pedagogia revolucionária e a estética radical do cinema novo.

O longa torna-se o grande lançamento da Embrafilme, conquista vários prêmios em festivais nacionais e internacionais, repercute na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. O sucesso comercial está em sintonia com as declarações de Carlos Diegues: a devoção ao sofrimento, à razão e ao derrotismo deve ser substituída pelo prazer, pelo amor sem opressão e pela esperança no povo brasileiro do século XXI, para o qual o filme é dedicado.

Notas:

1. FERREIRA, Jairo. I’m sorry, Brasil. Folha de S. Paulo, São Paulo, 11 fev. 1980. p. 21.

2. GERBER, Raquel. Perspectiva 80 : Bye Bye Brasil e outros caminhos do Cinema Novo, ou bye bye Iracema, ou o poder do falo. Filme Cultura, Rio de Janeiro, v.13, n.35-36, p. 57,  jul./set. 1980.

3. AVELLAR, José Carlos. Um filme que vai além da superfície. Voz da Unidade, São Paulo[?], 30 mar. 1980. p.15.

4. MAUAD, Ana Maria. Bye Bye Brasil e as fronteiras do nacional-popular. In: SOARES, Mariza de Carvalho; FERREIRA, Jorge (Orgs.). A História vai ao cinema. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 81.

5. VARTUCK, Pola. Cacá Diegues, contra a censura das patrulhas ideológicas. Jornal da Tarde, São Paulo, 31 ago. 1978. p.16; CAMBARÁ, Isa. O sucesso popular é uma vitória. Folha de S. Paulo, São Paulo, Folhetim, 03 set. 1978. p. 8-10; CAMBARÁ, Isa. Das patrulhas à ditadura da crítica. Folha de S. Paulo, São Paulo, Folhetim, 16 nov. 1980. p.14.

Fontes de pesquisa 9

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  • JOHNSON, Randal. Cinema Novo x 5: masters of contemporary Brazilian film. Austin: University of Texas Press, 1984. principalmente p. 83-90.
  • MAIA, Reinaldo da Costa. Transição, transitivo, televisivo. Filme Cultura, Rio de Janeiro, v. 14, n. 37, p. 70-72, jan.-mar. 1981.
  • NASCIMENTO, Hélio. O reino da imagem. Porto Alegre: EU/Secretaria Municipal de Cultura, 2002. p. 168-169. [Originalmente publicado em Jornal do Comércio, Porto Alegre, 23 maio 1980].
  • NEVES, David. Telégrafo visual: crítica amável de cinema. São Paulo: Editora 34, 2004. p. 254-258. [Originalmente publicado em Filme Cultura, Rio de Janeiro, v.13, n.35-36, jul.-set. 1980, p.76-77].
  • PIERRE, Sylvie. Des douleurs des uns et du bonheur des autres. Cahiers du Cinéma, Paris, n. 319, p. 44-46, jan. 1981.
  • POUILLAIDE, Jean-Luc. Terres en transes. Positif, Paris, n. 242, p. 32-36, mai 1981.
  • RAMOS, José Mário Ortiz. Cinema, Estado e lutas culturais (anos 50/60/70). Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1983.
  • VARTUCK, Pola. Um Bye Bye antropofágico. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 27 fev. 1980, p.15.
  • VIEIRA, João Luiz. Bye Bye Brasil. In: ELENA, Alberto; DIAZ LÓPEZ, Marina (Orgs.). The cinema of Latin América. Londres: Wallflower Press, 2003. p. 160-167.

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