Artigo da seção obras Amores

Amores

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoAmores: 1997 | Domingos Oliveira
Filme

Domingos Oliveira (1936-2019) permanece 20 anos afastado de atividades cinematográficas, período em que se dedica a escrever e dirigir para televisão e teatro. O diretor retorna ao cinema com Amores, filme baseado no texto teatral homônimo escrito por ele e Priscilla Rozenbaum (1960), sua esposa. A peça estreia em janeiro de 1996 e é bem recebida por público e crítica, conquistando o Prêmio Shell e o Prêmio do Estado na categoria de melhor texto do ano. 

O diretor alega que o ostracismo do cinema deve-se ao alto orçamento das produções realizadas nas décadas de 1980 e 1990. Domingos passa a defender a bandeira do filme de Baixo Orçamento e Alto-Astral (Booa), segundo ele, única solução para a cinematografia nacional. 

A presença no elenco de Maria Mariana (1973), filha do diretor e de Rozenbaum, sugere a aposta em um filme feito em família e sobre a família, com produção de baixo custo, e a expectativa de expressivo retorno de bilheteria.

Na película, utiliza-se câmera Super 16 para posterior ampliação para 35 mm e a filmagem é feita em três semanas, boa parte dela realizada na casa de Domingos ou da diretora de arte. Além disso, 85% das tomadas são feitas com câmera na mão e poucos recursos de iluminação, confirmando a opção pelo orçamento enxuto e por um tipo de cinema naturalista. 

O filme retrata uma parcela da classe média carioca, ligada profissionalmente às artes e aos meios de comunicação. O recorte contempla os problemas de três casais, em formação ou dissolução, e aborda os conflitos de geração e suas variações amorosas, filiais e matrimoniais. 

Vieira (Domingos Oliveira), ansioso, hipocondríaco e, na abertura do filme, transtornado, conta para a amiga Telma (Priscilla Rozenbaum) a discussão entre ele e o namorado de Cíntia, sua filha.

Cíntia (Maria Mariana), jornalista iniciante, quer conquistar a independência e desafia constantemente o pai, embora tenha grande admiração por ele. A convivência retorna à normalidade depois que pai e filha defrontam-se, esbofeteiam-se e fazem as pazes, quando Cíntia declara o rompimento do namoro tempestuoso.
 
Telma, sonoplasta de um show de piadas da irmã, vive um conflito com o marido Pedro (Ricardo Kosovski): o casal, durante muito tempo, evita filhos, mas quando desejam uma criança, ela não consegue engravidar. Sua irmã, Luiza [Clarice Niskier (1959)], atriz desconhecida, revela-se apaixonada por Rafael (Vicente Barcellos), um pintor bissexual, recém-chegado dos Estados Unidos.

O cotidiano dos três casais parece caminhar para a rotina que mescla euforias, desencantos, tristezas, embates e constrangimentos, uma normalidade frágil que a narrativa encarrega-se de desmanchar.

Luiza descobre que Rafael é soropositivo. Ela procura encarar com naturalidade a condição do namorado, mas o peso da aids (doença que causa grande impacto psicossocial na época) não permite um relacionamento tranquilo.

Vieira é demitido da TV Globo. Ele admite que a criatividade de redator diminui depois de longos anos de carreira, mas teme a perda da segurança financeira que a emissora lhe proporciona.

Depois de uma entrevista para uma matéria jornalística, Cíntia aproxima-se de Pedro e envolve-se com ele. Pedro angustia-se com o caso amoroso, Vieira percebe a situação explosiva do romance da filha, e Telma não perdoa a traição. O mundo vira de cabeça para baixo (como a câmera enfatiza). Cíntia engravida, Vieira perde a filha e Telma pede a separação.

Nessa primeira parte do filme, as sequências são apresentadas em forma de monólogo ou de diálogo tenso entre duas personagens. Esse procedimento mostra a carpintaria teatral que dá origem ao roteiro e coloca-se a serviço de uma “autenticidade de vida sendo vivida”, que prenuncia a segunda parte do enredo. Nela, maneira documental, os personagens contam os fatos diretamente para a câmera – recurso teatral e eficaz na economia do cinema de não ficção.

Telma relata a paixão por Pedro, o cansaço da rotina, a separação depois da traição e o reatamento com o primeiro namorado. O reencontro rende uma única relação sexual e uma gravidez, que decide não interromper. Luiza confirma o sofrimento da separação de Rafael, que mantém a saúde estável e apaixona-se por outro homem. Os três tornam-se amigos e a situação deixa-a feliz.

Pedro revela que, mesmo com o nascimento do filho, separa-se de Cíntia por incompatibilidade de gênios. Embora Telma seja seu grande amor, não tem coragem de procurá-la. Para Cíntia, Pedro é apenas um figurante, e Telma, uma pessoa que passa a admirar. A jornalista recebe uma herança de sua mãe e vai morar em Paris.

O filme delineia seus temas principais: os imprevistos da vida e suas consequentes transformações, as possibilidades amorosas, o descompasso entre vontade e realidade e o possível retorno ao equilíbrio e à felicidade. Como demonstra-se na sequência final, a vida é um jogo de xadrez, cujos lances conduzem a surpresas: Telma e Pedro reatam o casamento; Luiza apaixona-se por outro bissexual; Vieira, para suportar a saudade da filha, cuida do neto e filosofa: “A vida não é pra entender, é pra decorar”.

Como salienta o diretor, seu filme “é sobre a aceitação da vida [por achar] que o amor resolve os problemas do amor”1. Nesse reconhecimento, existe ternura e humor corrosivo, próximo ao universo do diretor estadunidense Woody Allen (1935), combinado à fluidez e à precisão dos diálogos, adquiridas no ofício teatral.
 
O crítico da revista Veja não assina o texto, mas renega o filme, acusando-o de seguir a mesma linha de Pequeno Dicionário Amoroso (1996) e Como Ser Solteiro (1998), tentativas de um cinema de comunicação mais incisiva. Ataca “a desfaçatez em copiar a finada série de TV Comédia da Vida Privada, que fazia uma divertida crônica de costumes”, comicidade que não localiza na produção de Domingos Oliveira2.

Em outro sentido, Elvis César Bonassa encontra na narrativa de Amores a força de uma “verdade guardada no mito” que opõe vontade humana a destino. Desse modo, “a crença aparentemente ingênua no amor tem um poder de transformação que se rebela contra a estupidez da vida atual”. O “final feliz” adquire sentido especial, “quase panfletário, a favor da persistência das relações amorosas [...] e da confiança no casamento”3.

O filme recebe os prêmios de melhor filme segundo o júri popular e o prêmio da crítica no Festival de Gramado de 1998.

Notas:

1. Depoimento a Carlos Alberto Mattos, O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 jan. 1998, p. D10.

2. veja, Olha só... Veja, São Paulo, 2 set. 1998.

3. FOLHA de S.Paulo, São Paulo, 27 jun. 1999. Acontece, p.2

Ficha Técnica da obra Amores:

Fontes de pesquisa (6)

  • BONASSA, Elvis Cesar. Amores é ensaio sobre a cegueira amorosa. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 jun. 1999. Acontece, p. 2.
  • GRAÇA, Eduardo. O cinema brasileiro acaba em um ano: entrevista com Domingos Oliveira. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 ago. 1999. Caderno B, p. 4.
  • MATTOS, Carlos Alberto. Domingos Oliveira recomeça com final feliz. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 6 jan. 1998. Caderno 2, p. D10.
  • MERTEN, Luiz Carlos. BOAA é bom para Domingos e Amores é a melhor prova. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 30 ago. 2006. Caderno 2, p. D10.
  • VEJA. Olha só... Veja, São Paulo, 2 set. 1998.
  • VELHO, Karla Costa. A fotografia do aclamado filme de Domingos de Oliveira. Luz & Cena, Rio de Janeiro, v.1, n.7, p. 42-47, set./ out. 1998.

Como citar?

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  • AMORES . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra71094/amores>. Acesso em: 06 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7