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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Ursula

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 18.11.2021
1859

Ursula, 1859
Maria Firmina dos Reis

Úrsula (1859) é considerado o primeiro romance da literatura afro-brasileira. Escrito por Maria Firmina dos Reis, mulher negra, em uma sociedade brasileira ainda escravista, o livro dá voz a personagens cativas e é pioneiro na temática abolicionista. Sua trama mobiliza, em primeiro plano, o imaginário romântico em torno do destino trágico de um ...

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Úrsula (1859) é considerado o primeiro romance da literatura afro-brasileira. Escrito por Maria Firmina dos Reis, mulher negra, em uma sociedade brasileira ainda escravista, o livro dá voz a personagens cativas e é pioneiro na temática abolicionista. Sua trama mobiliza, em primeiro plano, o imaginário romântico em torno do destino trágico de um triângulo amoroso, retratando, em segundo, a condição de negros na sociedade patriarcal escravista brasileira.

Livro de estreia da autora, Úrsula antecipa em cerca de duas décadas o debate abolicionista que se estabelece na literatura brasileira. Diferentemente de obras antiescravistas como os romances As Vítimas Algozes (1869), de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), e A Escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães (1825-1884), em Úrsula o contraponto à escravidão ocorre pelas ações e caracterização dos cativos – cuja nobreza de caráter e sentimentos é equiparada à dos protagonistas brancos. 

O romance se divide em 20 capítulos, além de prólogo e epílogo. Em “Duas almas generosas”, o primeiro, o jovem branco Tancredo sofre um acidente e é socorrido por Túlio, negro que cruza seu caminho naquele momento. O encontro mostra a inexistência de assimetria entre eles: a generosidade do negro que presta socorro está à altura da gratidão do branco, que recompensa o ato comprando a liberdade de Túlio. Na sequência, Tancredo se recupera na casa de Luiza B., senhora de Túlio e mãe de Úrsula – por quem se apaixona. 

O casal de enamorados é retratado conforme o cânone romântico. Ambos são provenientes de núcleos familiares marcados pelos desmandos da figura masculina, que oprimem as mulheres, eles preservam, porém, a dignidade e a pureza de caráter. Além disso, mostrando que valorizam mais o sentimento do que sua consumação, decidem esperar as condições ideais para que o casamento se realize. Durante a ausência de Tancredo, o Comendador Fernando P., irmão de Luiza e responsável por sua vida sofrida, apaixona-se pela sobrinha. Incapaz de sentimentos nobres como os de Úrsula e Tancredo, transforma o amor em perseguição e vingança, determinando uma trágica sucessão de eventos. 

As consequências das decisões de Fernando P. mostram que, na sociedade escravista e patriarcal, não há espaço para a realização de desejos. Todos morrem em sofrimento – as vítimas assim encontram a rendição, e os algozes, a punição merecida. Nesse esquema reside uma das originalidades do livro: a noção de que o verdadeiro escravizado é aquele dominado por maus sentimentos. Os negros do romance, apesar de subjugados, mantêm-se bons e honrados, como exemplifica mãe Susana, sacrificada por se negar a colaborar com o Comendador em sua vingança. 

Para Eduardo de Assis Duarte, a trama principal, construída ao gosto do público1, é “instrumento a favor da dignificação dos oprimidos – em especial a mulher e o escravo”2, do qual Maria Firmina dos Reis se vale de modo consciente, em uma estratégia para conquistar a empatia do leitor na denúncia da escravidão. Para Maria Helena Machado, a narrativa, ao mostrar que “homens autoritários e cruéis são fruto de um sistema que não impõe nenhum tipo de autorregulação ou freio a suas pulsões egoístas”3, propõe como saída para a escravidão não a revolução dos oprimidos, mas o exercício, por negros e brancos, da consciência do mal, da generosidade e do altruísmo. 

A resignação das personagens diante da opressão exercida pelo Comendador Fernando P. é indício da influência da literatura sentimental e abolicionista norte-americana, particularmente do romance A Cabana do Pai Tomás (1852), da escritora estadunidense Harriet Stowe (1811-1896). Mas, enquanto Pai Tomás é retratado como um serviçal obediente, os cativos de Úrsula têm consciência da opressão a que são submetidos, como ilustra o encontro entre Túlio e mãe Susana. Quando aquele se anuncia livre graças a Tancredo, esta lhe responde: “Liberdade! Liberdade!... Ah, eu a gozei na minha mocidade”, descrevendo, então, sua vida na África antes de ser capturada. 

Acredita-se que as personagens e suas lembranças são compostas com base em relatos de escravizados e ex-escravizados com quem Maria Firmina dos Reis convive, o que representa outra das singularidades do romance, que reconstrói o território de origem e as cenas de dominação com base na perspectiva dos cativos. Nesse sentido, Úrsula se aproxima de A Família Medeiros (1888), da escritora Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), romance em torno da fuga de escravizados pela serra de Cubatão, episódio real. A perspectiva abolicionista neste caso, contudo, se baseia não apenas na denúncia da injustiça, mas também no argumento econômico. 

Enquanto o romance procura enaltecer as mulheres que, apesar de oprimidas, permanecem incorruptíveis, as questões de gênero marcam a publicação e a recepção do livro. Um dos primeiros romances brasileiros de autoria feminina, Úrsula é lançado sob o pseudônimo de “Uma maranhense”, e denuncia, na introdução, sob o discurso da modéstia, as limitações do meio literário da época, descrito como incapaz de acolher as ambições de uma escritora. Ainda assim, a publicação recebe atenção dos jornais, embora discreta, que reconhecem o talento da autora estreante. Reeditado em 1975, o livro recebe interesse crescente de crítica e público. 

Úrsula é valorizado pelo modo como enfrenta a opressão por meio da criação literária. Ao dar voz e dignidade a personagens cativas, a obra contrapõe-se às injustiças infligidas ao negro pela sociedade escravista brasileira da época.

Notas:

1. Ao inserir Úrsula no contexto de narrativa folhetinesca, a autora se refere, embora implicitamente, às características empregadas nesse gênero com o objetivo de entreter o leitor de jornal, meio em que é veiculada: a sequência de eventos rápida e dinâmica, que sustenta o interesse, e o caráter melodramático, dado o acento sentimental da trama e da caracterização das personagens.

2. DUARTE, Eduardo de Assis. Maria Firmina dos Reis e os primórdios da ficção afro-brasileira (posfácio). In: REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. A escrava. Florianópolis: Editora Mulheres; Belo Horizonte: PUC Minas, 2004. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/29-critica-de-autores-feminios/317-maria-firmina-dos-reis-e-os-primordios-da-ficcao-afro-brasileira-critica.

3. MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo. Maria Firmina dos Reis: invisibilidade e presença de uma romancista negra no Brasil do século XIX ao XXI (introdução). In: REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2018. 

Fontes de pesquisa 9

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  • DIOGO, Luciana Martins. Da sujeição à subjetivação: a literatura como espaço de construção da subjetividade, os casos das obras Úrsula e A Escrava de Maria Firmina dos Reis. 2016. Dissertação (Mestrado em Culturas e Identidades Brasileiras) – Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/31/31131/tde-01112016-103251/pt-br.php. Acesso em: 13 abr. 2020.
  • DUARTE, Eduardo de Assis. Maria Firmina dos Reis e os primórdios da ficção afro-brasileira (posfácio). REIS, Maria Firmina dos. Úrsula - A escrava. Florianópolis: Editora Mulheres; Belo Horizonte: PUC Minas, 2004. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/29-critica-de-autores-feminios/317-maria-firmina-dos-reis-e-os-primordios-da-ficcao-afro-brasileira-critica. Acesso em: 13 abr. 2020.
  • LOBO, Luiza. Crítica sem juízo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993.
  • MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo. Maria Firmina dos Reis: invisibilidade e presença de uma romancista negra no Brasil do século XIX ao XXI (introdução). In: REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2018.
  • MORAIS FILHO, José Nascimento. Maria Firmina dos Reis, fragmentos de uma vida. São Luís: Governo do Estado do Maranhão, 1975.
  • MOTT, Maria Lúcia de Barros. Submissão e resistência: a mulher na luta contra a escravidão. São Paulo: Contexto, 1988.
  • MUZART, Zahidé Lupinacci. Maria Firmina dos Reis. In: MUZART, Zahidé Lupinacci (org.). Escritoras brasileiras do século XIX. Florianópolis: Editora Mulheres, 2000.
  • MUZART, Zahidé Lupinacci. Uma Pioneira: Maria Firmina dos Reis. Muitas Vozes, Ponta Grossa, v. 2, n. 2, p. 247-260, 2013. Disponível em: https://www.revistas2.uepg.br/index.php/muitasvozes/article/view/6400. Acesso em: 13 abr. 2020.
  • ZIN, Rafael Balseiro. Maria Firmina dos Reis: a trajetória intelectual de uma escritora afrodescendente no Brasil oitocentista. 2016. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/19479/2/Rafael%20Balseiro%20Zin.pdf. Acesso em: 13 abr. 2020.

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