Artigo da seção obras Bloco do Eu Sozinho

Bloco do Eu Sozinho

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoBloco do Eu Sozinho: 2001
Discografia

Depois do álbum de estreia ultrapassar a marca das 250 mil cópias vendidas em virtude do sucesso da faixa Anna Julia, o grupo carioca Los Hermanos se reúne em um sítio na região serrana do Estado do Rio de Janeiro e grava seu segundo álbum. No mesmo ano, em 2001, lança Bloco do Eu Sozinho, com uma mudança em sua formação. O baixista Patrick Laplan deixa o grupo para montar seu próprio projeto, Eskimo, e dá lugar à participação especial do amigo Kassin, do extinto Acabou La Tequila, influência confessa do grupo, e que vem, mais tarde, a produzir o sucessor Ventura. “Fomos para um sítio, sem telefone ou tv. Deixamos as coisas acontecerem. O clima de liberdade foi total. Estar lá para fazer música, naquele clima, permitiu que brincássemos novamente e que os arranjos saíssem como deveriam: sem preocupações”, declara Camelo em uma entrevista de 2002. Bloco do Eu Sozinho tem a produção inicial de Chico Neves, mas quando é entregue à gravadora, a extinta Abril Music, ela exige que as músicas sejam remasterizadas, alegando que não há canções com potencial mercadológico suficiente e que sua produção é amadora. A tarefa fica a cargo de Marcelo Sussekind que opta por modificar pouco o produto final.   

Uma das grandes diferenças entre esse segundo trabalho e o álbum de estreia desse grupo de amigos cariocas que se conheceram no curso de jornalismo da Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) na década de 1990 está na autoria das músicas. Se anteriormente o catálogo do grupo era quase totalmente dominado pelas criações de Marcelo Camelo, em Bloco do Eu Sozinho ele divide as faixas com o guitarrista, vocalista e flautista Rodrigo Amarante, que passa a ter mais espaço na banda com composições como Retrato Pra Iaiá, Sentimental e A Flor, a última parceria entre os dois. Cher Antoine, também de Amarante, foi escrita em francês e demonstra a versatilidade do compositor, até então pouco explorada pelo agora quarteto – formado também por Rodrigo Barba, bateria, e Bruno Medina, pianos e teclados. 

Outra mudança perceptível é no andamento das músicas que, com exceção da faixa 13, “Tão Sozinho” (que em seu minuto e treze segundos de duração remete à sonoridade do hardcore com poucos acordes e compasso acelerado), o restante do disco tem como tônica a experimentação dos ritmos brasileiros. Como cita o jornalista Alexandre Matias no texto de lançamento do trabalho, em 2001: “Em vez de correr atrás de recursos tecnológicos e futurísticos para falar sobre a aurora do novo tempo, eles voltam ao começo do século 20, usando elementos das primeiras décadas dos anos 1900 como fantasia. Há referências de modernismo, vaudeville, citações em francês, bailes de máscaras, maxixe, atenção aos detalhes, literatura, eles colocam o Bloco do Eu Sozinho na rua em busca da mesma ingenuidade frívola dos primeiros anos do século passado”. A influência da MPB está até no título do disco, retirado de canção homônima de Marcos Valle com colaboração de Ruy Guerra, lançada no disco de estreia da cantora e compositora Joyce pela gravadora Philips em 1968. 

Influenciado por grupos de Ska jamaicanos, ingleses e norte-americanos, o Los Hermanos tem como característica de seu som o uso do naipe de metais, além de instrumentos como o fagote. Mas se os instrumentos de sopro anteriormente repetiam a dinâmica das músicas, ganham em Bloco do Eu Sozinho mais corpo e dão vida à músicas como A Flor e Veja Bem, Meu Bem. Ao vivo, são incorporados mais três músicos à banda: Valtecir Bubu (trompete), Mauro Zacharias (trombone) e Marcelo Costa (Saxofone). 

Para Marcelo Camelo, a canção de abertura Todo Carnaval Tem Seu Fim dita o clima que o ouvinte encontra ao longo das 14 faixas. É ela o ponto de partida na comparação entre os altos e baixos da vida com a alegria do carnaval e a tristeza da quarta-feira de cinzas. Camelo, à época, diz: "A letra é muito bacana. É uma mensagem de todo o disco. Acho que o refrão desse disco é o cerne de tudo: “deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz”. Resume todo o disco essa frase. Tem muito do nosso romantismo aqui”.

Já na faixa 6, “Cadê Teu Suín-?”, Camelo faz um jogo de palavras para brincar com a situação de conflito entre sua banda e a gravadora Abril Music, que à época que antecede o lançamento de Bloco do Eu Sozinho não admite que o disco não traga um sucesso radiofônico à altura de Anna Julia. Em determinado momento da letra, o cantor assume a posição do seu empregador: “Acerta esse tom, zera essa reza, aumenta o vo, calma com o andamen, to insatisfei, tomara que venh, aquele refr, hão de ter o suín”. Em seguida, assume a batuta do grupo no refrão: “Guilhotina? Eu que controlo o meu guidom! Com ou sem suin”. À época, assim como a gravadora, a crítica também reage mal à falta de um hit em potencial. O disco recebe poucas indicações para prêmios em 2001, com algumas exceções, como a de Melhor Disco no prêmio Multishow. Na lista dos 100 maiores discos da música brasileira de todos os tempos da revista Rolling Stone Brasil, Bloco do Eu Sozinho figura na 42ª posição, a frente até de “Ventura”, seu sucessor de maior êxito comercial, que fica em 68º.

Ficha Técnica da obra Bloco do Eu Sozinho:

  • Data de lançamento
    • 2001

Fontes de pesquisa (3)

  • COSTA, Marcelo. Entrevista com Marcelo Camelo ao site ScreamYell. Setembro de 2001. Disponível em: http://www.screamyell.com.br/musica/loshermanos.html Acesso em? 07 abr. 2013
  • FOCA, Anderson. Entrevista com Marcelo Camelo. Abril de 2002. Disponível em http://www.officina.digi.com.br/entrevcamelo.html. Acesso em: 07 abr. 2013
  • MATIAS, Alexandre. Release do disco Bloco do Eu Sozinho. Trabalho Sujo, 14 jan. 2010. Disponível em: http://trabalhosujo.com.br/o-release-do-bloco-do-eu-sozinho/ Acesso em: 31 jul. 2020

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BLOCO do Eu Sozinho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra71058/bloco-do-eu-sozinho>. Acesso em: 23 de Out. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7