Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas

A Enciclopédia é o projeto mais antigo do Itaú Cultural. Ela nasce como um banco de dados sobre pintura brasileira, em 1987, e vem sendo construída por muitas mãos.

Se você deseja contribuir com sugestões ou tem dúvidas sobre a Enciclopédia, escreva para nós.

Caso tenha alguma dúvida, sugerimos que você dê uma olhada nas nossas Perguntas Frequentes, onde esclarecemos alguns questionamentos sobre nossa plataforma.



Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

O Pirotécnico Zacarias

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.07.2020
1974
Com a publicação da coletânea de oito contos O Pirotécnico Zacarias (1974), o contista Murilo Rubião (1916-1991) chega ao sucesso como escritor. Passados 27 anos da estreia com O Ex-Mágico (1947), Rubião une a constante revisão da forma literária (alguns contos chegam à forma definitiva após décadas de revisões) a uma impassível economia de gest...

Texto

Abrir módulo

Com a publicação da coletânea de oito contos O Pirotécnico Zacarias (1974), o contista Murilo Rubião (1916-1991) chega ao sucesso como escritor. Passados 27 anos da estreia com O Ex-Mágico (1947), Rubião une a constante revisão da forma literária (alguns contos chegam à forma definitiva após décadas de revisões) a uma impassível economia de gestos literários. Destes, destacam-se a escassez de motivos (são 50 contos escritos ao longo de 50 anos de carreira) e um programa que atravessa décadas praticamente inalterado. Verifica-se uma “busca desesperada pela clareza”da linguagem, à qual concorre o interesse pelas condições sociais e o reconhecimento de conteúdos míticos que parecem transcendê-los. 

Da tensão entre o rigor da forma e a perplexidade da matéria vital extrai-se o sentido de O Pirotécnico Zacarias. Não escapa ao leitor o encadeamento de ideias e motivos inerente à sequência dos contos. A obra parte da história do morto-vivo Zacarias e chega à  figura absurda de Teleco (“Teleco, o Coelhinho”). No primeiro caso, aponta para um sujeito autoritário, ligado a garotos irresponsáveis que o atropelam. No segundo, traz um personagem para quem o autoritarismo sobe à superfície como tragédia social. Teleco é um coelho capaz de assumir múltiplas formas de vida, mas que almeja apenas a do ser humano. Atinge-a, ecoando as agruras do pirotécnico, somente com a morte. Com personagens cuja humanidade (ou pela voz de Zacarias, ou pela forma humana de Teleco) não se realiza em vida, a coletânea passa à exposição das deficiências relacionadas à iniquidade. Em outros contos, a humanidade também é atravancada por relações sociais problemáticas, na ingenuidade e violência de seus narradores. Em “Bárbara”, a protagonista que dá nome à narrativa tem um desejo mórbido e “insaciável voracidade”2. Ela não para de engordar às expensas da liberdade do marido e da vida do filho, e o narrador, marido de Bárbara, não vê alternativa à subserviência. Em “O Edifício”, um engenheiro em início de carreira é contratado para comandar a construção de um arranha-céu. Há a superstição de que os obreiros não conseguirão ultrapassar o 80o andar. Vencida a crença, a narrativa acaba na imagem de um edifício infinito, cujo erguimento fica entre a celebração dos trabalhadores que tomam a tarefa para si e o horror irracional de uma missão sem fim.

 Aqui o livro conhece o fim de um ciclo e o começo de outro. Se os primeiros contos parecem enfeixados na relação entre indivíduo e sociedade, o novo momento tematiza o erótico e subjetivo. Esses temas já se apresentam no hermético “A Flor de Vidro”: o trem que  traz e leva a saudosa Marialice, paixão que atravessa a vida de certo Eronides e lhe custa uma das vistas. No conto “A Cidade”, o viajante Cariba encontra-se num estranho lugar onde é preso por arbitrariedade das autoridades locais. Tem por contrapartida o desejo e a curiosidade pelas mulheres do lugar. O erotismo e suas manifestações, de cegueira e vontade de saber, desembocam na casmurrice arrependida de um “ex-mágico” (“O Ex-Mágico da Taberna Minhota”). Nascido “entediado e cansado”, tem o dom da mágica, uma fonte de angústias cujo fim antevê (e lamenta) na aridez do funcionalismo público. Encerra a coletânea o amargo “Os Dragões”. Nele, a impossibilidade de socializar os lendários animais confronta a moralidade acanhada de uma pequena cidade. Sendo impossível reconhecer que os dragões têm identidade própria, o comportamento da comunidade acaba por exterminá-los ou expulsá-los.

Para compor os quadros de urbanidade problemática, Rubião alia uma linguagem clara, prosaica, interessada na análise social, ao mítico e fantástico, perceptível em figuras e motivos religiosos. Também na diluição do drama das personagens num destino que as desindividualiza. A recepção da obra de Rubião envolve esse encadeamento de história e mito, ímpar na história literária brasileira. Para dar conta da idiossincrasia fantástica de Rubião, a leitura de seus contos baseia-se nas margens formais do conto tradicional. É o caso de Jorge Schwartz (1944), que identifica nos procedimentos técnicos de Rubião o paradoxo entre o arcaísmo de uma visão fabular de mundo (estranha à formação moderna do indivíduo) e a exposição de uma existência desencantada, em que domina a racionalidade dos meios. No viés do desencantamento, cabe a Davi Arrigucci Jr. (1943) tratar da figuração social da rotina e da burocratização da vida. A abordagem de Schwartz parece atenta à estrutura da obra de Rubião e ao relacionamento com movimentos e figuras literárias exteriores (o existencialismo francês, por exemplo). A de Arrigucci, por sua vez, busca a qualificação (ou desqualificação) mimética de sua prosa. O insólito, o banal e a multiplicidade estéril faz com que as coisas percam seu caráter instrumental “como se a cidade dos homens, vítima de uma estranha decrepitude, regredisse à esfera da natureza, perdendo a forma, marca do espírito”3

O lugar de Murilo Rubião na literatura brasileira permanece difícil. Está vinculado pela origem mineira à tradição modernista regional de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Murilo Mendes (1901-1975). Entretanto, seu trabalho com o conto e a apropriação das conquistas vanguardistas do período trazem à tona aspectos insuspeitos da modernização do conto brasileiro. Sem focar nas velhas dicotomias local versus cosmopolita ou na exposição de sujeitos já adaptados ao espaço urbano, Rubião aponta as contradições da organização formal da coletividade.Talvez, apenas seu grande mestre, Machado de Assis (1839 -1908), tenha ousado fazer esse aporte às letras brasileiras.

Notas 

1. O fantástico Murilo Rubião (Entrevista). In: RUBIÃO, Murilo. O pirotécnico Zacarias. São Paulo: Editora Ática, 1974. p. 4.

2. SCHWARTZ, Jorge. Murilo Rubião: a poética do uroboro. São Paulo: Editora Ática, 1981. p. 30.

3. ARRIGUCCI, Davi. Minas, assombros e anedotas (Os contos fantásticos de Murilo Rubião). In: Enigma e comentário. Ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 155-156.

Fontes de pesquisa 3

Abrir módulo
  • ARRIGUCCI, Davi. Minas, assombros e anedotas (Os contos fantásticos de Murilo Rubião). In: Enigma e comentário. Ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
  • O fantástico Murilo Rubião (Entrevista). In: RUBIÃO, Murilo. O pirotécnico Zacarias. São Paulo: Editora Ática, 1974.
  • SCHWARTZ, Jorge. Murilo Rubião: a poética do uroboro. São Paulo: Editora Ática, 1981.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: