Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Edifício Copan

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.11.2021
1954
Ícone da paisagem e da metropolização da cidade de São Paulo, o Edifício Copan é representativo da obra de Oscar Niemeyer (1907-2012). A construção é idealizada em 1951 por um grupo de empreendedores paulistas, à frente do Banco Nacional Imobiliário (BNI), e norte-americanos da Intercontinental Hotels Corporation, de Nova York. Ambos associados ...

Texto

Abrir módulo

Ícone da paisagem e da metropolização da cidade de São Paulo, o Edifício Copan é representativo da obra de Oscar Niemeyer (1907-2012). A construção é idealizada em 1951 por um grupo de empreendedores paulistas, à frente do Banco Nacional Imobiliário (BNI), e norte-americanos da Intercontinental Hotels Corporation, de Nova York. Ambos associados na Companhia Pan-América de Hotéis e Turismo (Copan), sigla pela qual o prédio é conhecido. O edifício faz parte de um complexo arquitetônico lançado em 1954, ano do 4º centenário de fundação da cidade. A construção busca incrementar o turismo em São Paulo, em período de crescimento econômico.

A associação entre blocos verticais de habitação com galerias de uso misto não é inédita nem exclusiva do Copan. Comum desde os anos 1940, essa tipologia é fruto do interesse de investidores em diversificar os negócios, da aproximação de arquitetos brasileiros com o conceito de unidade de vizinhança proposta pelo franco-suíço Le Corbusier (1887-1965) e de experiências estadunidenses, como o Rockefeller Center de Nova York (1929). Entretanto, na Unidade de Habitação de Marselha (1946-1952) proposta Corbusier, as atividades coletivas localizam-se no teto-jardim; na versão paulistana, concentram-se no térreo e na sobreloja, dirigidas para a cidade e não apenas para os moradores do edifício.

O primeiro projeto do Copan é desenvolvido por uma firma estadunidense, mas é recusado pelos investidores brasileiros. Eles rompem a sociedade e convidam Niemeyer para realizar uma nova proposta. Esse arquiteto, responsável pelo projeto mais importante da cidade naquele momento, o Parque Ibirapuera (1951-1954), é uma das estratégias do BNI para atrair clientes, minimizando os riscos envolvidos no sistema de construção do “condomínio a preço de custo”1

Em 1954, com a decisão do Banco Central de separar as atividades financeiras das imobiliárias, o BNI cria a Companhia Nacional de Investimento (CNI), responsável pela construção do edifício até 1957. Nesse ano, o BNI entra em falência, e a CNI vende o empreendimento para o banco Bradesco, que conclui a obra em 1970.

Por meio do banqueiro Orozimbo Roxo Loureiro, Niemeyer aproxima-se do BNI. O arquiteto realiza para a instituição a Galeria Califórnia (1951-1955) e os edifícios Montreal (1951-1954) e Eiffel (1953-1956), todos em São Paulo. Em 1950, projeta, para o mesmo banco, o Clube dos 500, perto da cidade de Guaratinguetá, no interior paulista. Dada a quantidade de projetos na capital paulista, o diretor do BNI, o jornalista Otávio Frias de Oliveira (1912-2007), sugere a criação de uma filial paulista do escritório de arquitetura de Niemeyer, a ser chefiada pelo arquiteto Carlos Lemos (1925), seu amigo e responsável por outras obras do banco na cidade. A sugestão é aceita por Niemeyer.

Os projetos estruturais são desenvolvidos pelo Escritório Técnico, formado pelos engenheiros Oswaldo de Moura Abreu, Waldemar Tietz (1889-1978) e Nelson de Barros Camargo, com os quais Niemeyer tem relacionamento difícil. Para o arquiteto, esse fato, agravado pela distância e a ingerência dos clientes, desvirtua seu projeto, que é, por isso, desautorizado.

O incômodo do arquiteto com essa produção é comentado em seu famoso Depoimento (1958), no qual afirma que, por descrença na capacidade da arquitetura de superar as contradições sociais do país, ele se descuida “de certos problemas e [adota] uma tendência excessiva para a originalidade, [incentivada] pelos próprios interessados, desejosos de dar a seus prédios maior repercussão e realce”, muitas vezes comprometidos apenas com a “pura especulação imobiliária”. Diante disso, ele reduz os trabalhos no escritório, recusa propostas de interesses apenas comerciais e busca “uma simplificação da forma plástica e o seu equilíbrio com os problemas funcionais e construtivos”2. A ruptura anunciada no artigo não se verifica do ponto de vista arquitetônico. Germes da busca por concisão, “soluções compactas, simples e geométricas”3 estão presentes na Igreja de São Francisco de Assis (1943), na Pampulha, Belo Horizonte, e no edifício Copan4.

É claro o diálogo estabelecido por Niemeyer entre o Copan e outras obras suas: o Pavilhão de Nova York (1939), nos Estados Unidos, elaborado com Lucio Costa (1902-1988); o Conjunto Quitandinha (1947), em Petrópolis, Rio de Janeiro (não construído); o Edifício Montreal, o Conjunto JK (1953-1954) e a Biblioteca Pública Estadual Luiz Bessa (1954-1955), em São Paulo; e o Edifício Niemeyer (1954), em Belo Horizonte. Esse diálogo estabelece-se pela natureza moldável do concreto armado, por permitir uma continuidade plástica expressa no formato sinuoso da marquise e do bloco de habitação, com seus brises-soleils5 horizontais contínuos; pela unidade do conjunto; pelo dinamismo da composição alcançado com a contraposição de blocos curvilíneos e retilíneos; pela leveza das formas; e pela implementação primorosa.

O edifício curvilíneo no centro do lote é destinado à habitação; o outro, retilíneo e mais baixo, beira a avenida Ipiranga e o hotel. Originalmente, uma marquise interliga os dois blocos, e abriga, no térreo e na sobreloja, salas comerciais e de serviço, restaurante, cinema, teatro e um teto-jardim. Com a venda do empreendimento para o Bradesco e o afastamento de Niemeyer, o projeto sofre alterações.

O bloco do hotel é redesenhado por Carlos Lemos para abrigar a sede do Bradesco (1966-1970), respeitando apenas a volumetria original. A marquise fica restrita ao bloco habitacional, rompendo a unidade entre os dois edifícios e a fluidez original do térreo e do teto-jardim, que não é executado. No edifício habitacional, os apartamentos, antes unidos por uma circulação central, são divididos em blocos estanques de quitinetes e apartamentos de 1, 2 e 3 dormitórios.

Notas

1. Segundo Daniela Viana Leal, nesse sistema, os clientes pagam 50% do valor do terreno e do imóvel no ato da compra e a outra metade ao final da obra. Com isso, os empreendedores ficam obrigados a lançar novos edifícios simultâneos para conseguir suprir a defasagem do período da construção, gerando, por vezes, problemas de liquidez.

2. NIEMEYER, Oscar. Depoimento. In: XAVIER, Alberto. Depoimento de uma geração – arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. p. 238-239.

3. Ibidem, p. 239.

4. WISNIK, Guilherme. Modernidade congênita. In: ANDREOLI, Elisabetta; FORTY, Adrian (Orgs.). Arquitetura moderna brasileira. London: Phaidon, 2004. p. 30;  WISNIK, Guilherme. Oscar Niemeyer. São Paulo: Publifolha, 2011. p. 12-14.

5. Recurso arquitetônico que utiliza lâminas horizontais, verticais ou mistas (móveis ou não) para controlar a incidência direta da radiação solar. É um dos principais elementos compositivos da arquitetura moderna.

Fontes de pesquisa 12

Abrir módulo
  • BARBARA, Fernanda. Duas tipologias habitacionais: o Conjunto Ana Rosa e o Edifício Copan. Contexto e análise de dois projetos realizados em São Paulo na década de 1950. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.
  • BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. Tradução Ana M. Goldberger. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1999.
  • LEAL, Daniela Viana. Oscar Niemeyer e o mercado imobiliário de São Paulo na década de 1950: o escritório satélite sob a direção do arquiteto Carlos Lemos e os edifícios encomendados pelo Banco Nacional Imobiliário. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003.
  • MACEDO, Danilo Matoso. Da matéria à invenção: as obras de Oscar Niemeyer em Minas Gerais, 1938-1955. Brasília: Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações, 2008.
  • PAPADAKI, Stamo. The work of Oscar Niemeyer. New York: Reinhold, 1950.
  • ROSSETTO, Rossela. Produção imobiliária e tipologias residenciais modernas: São Paulo – 1945-1964. Tese (Doutorado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
  • ROSSETTO, Rossela. Produção imobiliária e tipologias residenciais modernas: São Paulo – 1945-1964. Tese (Doutorado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
  • SAMPAIO, Maria Ruth do Amaral. A promoção privada de habitação econômica e a arquitetura moderna, 1930-1964. São Carlos: RiMA 2002.
  • TELLES, Sophia. O desenho: forma e imagem. AU, São Paulo, n. 55, p. 91-95, ago./ set. 1994.
  • WISNIK, Guilherme. Modernidade congênita. In: ANDREOLI, Elisabetta; FORTY, Adrian (Orgs.). Arquitetura moderna brasileira. London: Phaidon, 2004. p. 20-55.
  • WISNIK, Guilherme. Oscar Niemeyer. São Paulo: Folha de S.Paulo, 2011. (Coleção Folha Grandes Arquitetos, 3).
  • XAVIER, Alberto (Org.). Depoimento de uma geração: arquitetura moderna brasileira. 2ª ed. rev. ampl. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: