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Literatura

Eles eram muitos cavalos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.06.2020
2001
O romance Eles Eram Muitos Cavalos (2001) expressa o projeto literário de Luiz Ruffato (1961): retratar os destinos da classe trabalhadora brasileira do século XX. Valendo-se de uma multiplicidade de recursos estilísticos, o terceiro livro em prosa do autor é composto de fragmentos que retratam personagens de diferentes classes sociais e acompan...

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O romance Eles Eram Muitos Cavalos (2001) expressa o projeto literário de Luiz Ruffato (1961): retratar os destinos da classe trabalhadora brasileira do século XX. Valendo-se de uma multiplicidade de recursos estilísticos, o terceiro livro em prosa do autor é composto de fragmentos que retratam personagens de diferentes classes sociais e acompanham a urbanização da cidade de São Paulo.

Embora concentrada na capital paulista, a narrativa remete às histórias contadas em Inferno Provisório, projeto em cinco volumes, inaugurado em 2005. Na pentalogia, o autor narra a migração de trabalhadores do interior de Minas Gerais para grandes cidades brasileiras, entre as décadas de 1950 e 2000. Em Eles Eram Muitos Cavalos, Ruffato revela o passado e as origens das personagens da capital paulistana. O caso exemplar dessa interlocução entre as duas obras está em “Onde Estávamos Há Cem Anos?”, 40º fragmento de Eles Eram Muitos Cavalos. Nesse capítulo, a história gira em torno de um motorista de origem portuguesa e italiana, mesma ascendência de personagens de Mamma, Son Tanto Felice, primeiro volume da pentalogia.

Em termos formais, o livro de 2001 representa o encontro com a linguagem que sustenta o projeto da série – seja pelo uso de recursos gráficos, como o negrito e o itálico, seja pela estrutura, que reúne histórias conectadas pela unidade de espaço e tempo. Eles Eram Muitos Cavalos é composto de 69 fragmentos, 68 deles numerados, separados do último capítulo por duas páginas pretas. A extensão, os temas e os recursos são variados, mas todas as histórias passam-se em 9 de maio de 2000.

A ordenação dos fragmentos permite acompanhar o passar das horas, e as referências a bairros e locais paulistanos retratam a cidade. No início, um motorista dirige-se ao aeroporto de Cumbica, cortando a “noite negra”. Em outro fragmento, um morador desempregado da Vila Santo Stéfano, “assustado, espoca os olhos, o sol dez e quinze no despertador”; no início da tarde, um advogado, a serviço do crime organizado, busca o filho na escola de educação norte-americana; às 17h15, um motorista de táxi conversa com o passageiro; à noite, um morador de rua observa o prédio e relembra a vida com a família e o trabalho como zelador do edifício. De modo mais ou menos explícito, a posição do capítulo no livro é determinada pela relação do episódio com a rotina da cidade.

Dois dos fragmentos iniciais mostram não se tratar de mera justaposição: em “De Cor”, dois homens e um jovem caminham à beira da rodovia; em “Mãe”, uma senhora pernambucana chega de ônibus a São Paulo, vinda de Garanhuns, Pernambuco. Os caminhos dos três personagens se cruzam na mesma via de acesso à cidade, como sugere o narrador do primeiro fragmento: “Vira-se, mira o letreiro do ônibus que passa velozmente, ‘Garanhus’, fala”. Trata-se do veículo em que segue a personagem da outra história.

Embora muitos fragmentos apresentem o narrador onisciente, em outros capítulos o foco narrativo assume configuração diversa. Há monólogos – como o do taxista Claudionor, em “Táxi”, e o do jovem da periferia, em “Crânio”. Alguns fragmentos transcrevem anúncios de empregos e classificados eróticos, uma carta enviada por uma mãe ao filho, títulos de livros dispostos em uma estante, um cardápio, trechos de horóscopo e receitas de rituais supersticiosos. Há, ainda, narradores em primeira pessoa, como em “A Vida antes da Morte” e “Nosso Encontro”.

Considerado como um dos livros mais importantes da literatura brasileira contemporânea, Eles Eram Muitos Cavalos é elogiado pelo modo singular como retrata as contradições do processo brasileiro de urbanização. A aspiração social e histórica é evidente desde o título, que remete ao “Romance LXXXIV”, do Romanceiro da Inconfidência (1953), de Cecília Meireles (1901-1964): a aproximação entre as personagens anônimas retratadas no romance e os cavalos do poema – animais que suportam o peso de importantes episódios da história brasileira sem que ninguém hoje os conheça: “Eles eram muitos cavalos, / mas ninguém mais sabe os seus nomes / sua pelagem, sua origem...”.

A síntese entre projeto estético e político faz de Luiz Ruffato exemplo de engajamento social da Geração 90, na qual se identificam autores diversos, como Nelson de Oliveira (1966), Marçal Aquino (1958), Cíntia Moscovich (1958) e Marcelino Freire (1967). Pela dedicação à cidade de São Paulo, Eles Eram Muitos Cavalos aproxima-se da obra de Lima Barreto (1881-1922) – que retrata a reforma urbana no Rio de Janeiro no início do século XX – e de Pauliceia Desvairada (1922), de Mário de Andrade (1893-1945), cujos versos buscam um olhar formal inovador sobre a capital paulista.

 

 

Fontes de pesquisa 8

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  • DEALTRY, Giovanna. O romance relâmpago de Luiz Ruffato: um projeto literário-político em tempos pós-utópicos. In: DEALTRY, Giovanna. Alguma prosa: ensaios sobre literatura brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007.
  • HARISON, Marguerite Itamar (Org.). Uma cidade em camadas: ensaios sobre o romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato. São Paulo: Editora Horizonte, 2007.
  • HARRISON, Marguerite Itamar. “São Paulo lightning”: flashes of a city in Luiz Ruffato’s Eles eram muitos cavalos. Luso-Brazilian Review, Madison, v. 42, n. 2, p. 150-164, 2005.
  • HOSSNE, Andrea Saad. Acumulação e desestabilização da forma na narrativa brasileira atual. Teresa, São Paulo, n. 10/11, p. 162-169, 2010.
  • LEVY, Tatiana Salem. O silêncio da representação: uma leitura de Eles eram muitos cavalos. Estudos de literatura brasileira contemporânea, Brasília, n. 22, p. 173-184, jan./jul. 2003.
  • ROCHA, Rejane Cristina. As formas do real: a representação da cidade em Eles eram muitos cavalos. Estudos de literatura brasileira contemporânea, Brasília, n. 39, p. 107-127, jan./jun. 2012.
  • SCHØLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
  • SÜSSEKIND, Flora. Desterritorialização e forma literária: literatura brasileira contemporânea e experiência urbana. Literatura e sociedade, São Paulo, n. 8, p. 60-81, 2005.

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