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Cinema

Vera

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 25.06.2020
1986
Vera (1986) é o segundo longa-metragem de Sérgio Toledo (1956) e sua primeira obra ficcional, depois da experiência com documentários. Para realizar um filme com qualidade internacional, a produção recorre a investimentos da Embrafilme e da iniciativa privada. 

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Vera (1986) é o segundo longa-metragem de Sérgio Toledo (1956) e sua primeira obra ficcional, depois da experiência com documentários. Para realizar um filme com qualidade internacional, a produção recorre a investimentos da Embrafilme e da iniciativa privada. 

Inspirado em pesquisas realizadas na Fundação de Bem-Estar do Menor (Febem), o roteiro acompanha o drama de Vera Bauer, uma órfã. Durante a adolescência, para sobreviver à violência no internato, desenvolve personalidade masculina. Ao sair da instituição, seu tutor Paulo Trauberg consegue empregá-la em um centro de pesquisas. Ela exige ser chamada pelo sobrenome Bauer, denominação de gênero neutra, mas seu corpo é o de uma mulher. O processo de afirmação da identidade masculina – os gestos, a forma de caminhar, a fisionomia dura e os cabelos curtos – torna-se cada vez mais conflitante. No envolvimento amoroso com Clara, uma companheira de trabalho, Vera comporta-se como marido romântico e possessivo: escreve poesias para a amada e exige-lhe fidelidade. Na questão sexual, a personagem demonstra desconforto com o corpo feminino. Apesar do uso de uma tira de pano para esconder os seios, as menstruações reafirmam a condição feminina da personagem. 

As imagens, os sons e a direção de atores do filme contribuem para explicitar a crise de Vera. Em um mundo dominado por imagens televisivas e telas de computadores, o corpo da protagonista é fragmentado e dominado pelos espaços por onde transita. Rosto e corpo são multiplicados em aparelhos de televisão, computadores e espelhos. A sensação opressora exercida por espaços imponentes (local de trabalho) e por grades e muros (orfanato) é reforçada pela trilha sonora de Arrigo Barnabé (1951). O músico utiliza acordes dissonantes para ampliar a solidão e os conflitos interiores de Vera. Outro destaque é a atuação de Ana Beatriz Nogueira (1967), que confere verossimilhança à personagem, cujo humor oscila entre ações masculinizadas e momentos de fragilidade.

Algumas características aproximam o filme do movimento cinema da Vila Madalena, grupo formado por jovens cineastas paulistas da década de 1980. A atração pela São Paulo urbana e pela tonalidade neon das luzes noturnas permite diálogos com Cidade Oculta (1986), de Chico Botelho (1948-1991), e Anjos da Noite (1987), de Wilson Barros (1948-1992). Como esses dois filmes, Vera pretende conciliar rigor técnico, com destaque para a fotografia, e grande público. 

No livro A Imagem Fria, o psicanalista Tales Ab’Saber discute a relação problemática de Vera com o mundo. Alguns dos filmes dos anos 1980 apresentam o fracasso de personagens em confronto com uma vida dominada pelos meios de comunicação em massa e pelas aparências. Entre esse filmes estão A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral (1928-2020), Anjos da Noite (1987), de Wilson Barros (1948-1992) e Feliz Ano Velho (1988), de Roberto Gervitz (1957). No caso de Vera, a protagonista esconde o corpo feminino e comporta-se como homem. De acordo com Ab’Saber, essa personalidade construída é mera simulação ou aparência. 

Ao longo do filme, o conflito intensifica-se. A protagonista assume a personalidade masculina e escandaliza os colegas de trabalho ao apresentar-se de terno e gravata. Questionada sobre a roupa, Vera enfatiza que o bom funcionário deve trabalhar de gravata. No escritório do professor Paulo, ao saber que será afastada, ela chora por ter o corpo feminino e expressa a vontade de submeter-se à cirurgia de redesignação sexual. Nessa sequência, percebe-se a importância que Vera atribui à construção física da identidade masculina. Os questionamentos feitos pelos companheiros de trabalho e pelo tutor enfatizam o fracasso da personagem. 

O longa de Sérgio Toledo é bem recebido pela crítica no Brasil e no exterior. Em 1986, ganha o prêmio de melhor filme nacional do Festival Internacional de Cinema e Vídeo do Rio de Janeiro. Ana Beatriz Nogueira conquista os prêmios de melhor atriz do Festival de Brasília (1986), do Festival de Nantes (1987) e do Festival de Berlim (1987). No festival brasiliense, o filme também recebe os prêmios de melhor trilha sonora (Arrigo Barnabé) e melhor som (José Luiz Sasso). 

Dois temas chamam a atenção da crítica. O primeiro é a personalidade ambígua de Vera Bauer. De acordo com o cineasta e escritor José Silvério Trevisan (1944)1, o filme trata da não identidade da protagonista. “Bauer/Vera não sabe quem é nem quem será, [...] Bauer/Vera existe numa terra estranha: ele/ela vive a experiência de não estar em lugar nenhum, mesmo estando”. Nesse sentido, a interpretação de Ana Beatriz Nogueira baseia-se num processo contínuo de desconstrução de Vera. Sua identidade é constantemente questionada e multiplicada.  

O segundo tema é o rigor técnico do filme. O crítico Fernão Ramos (1957) elogia a fotografia de Rodolfo Sánchez (1944), elaborada a partir de “claros e sombras bem-acentuados e marcados”, incluindo a recorrência a imagens televisivas. Segundo Ramos, o trabalho com imagens estilizadas e de segunda mão aproximam Vera do cinema paulista da época2. O crítico Carlos Alberto Mattos (1964), por sua vez, sugere que as imagens do filme exteriorizam as dificuldades psicológicas enfrentadas pela personagem. Os espaços do reformatório e do trabalho exprimem os sentimentos de desamparo e solidão. As imagens de vídeo, como o lançamento de foguetes e aviões explodindo, sugerem catástrofe e dilaceramento. No trabalho de fotografia, a ênfase do claro-escuro expressa “um mundo bipartido, um não esclarecimento que é fundamental para a plena apreensão da personagem pelo espectador”3.

Notas

1. SALLES, Luiz Francisco de Almeida. Rua sem Sol. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 4 ago. 1954. 

2. VIANNA, Moniz. Rua sem Sol. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 jan. 1954.

3. SILVEIRA, Walter da. Rua sem Sol. Diário de Notícias, Salvador, 9 maio 1954.

Fontes de pesquisa 8

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  • AB'SÁBER, Tales A. M. A imagem fria: cinema e crise do sujeito no Brasil dos anos 80. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
  • BAZI, Sérgio. Vera: a dolorosa constatação do massacre da individualidade. Correio Brasiliense, p.27, 20 ago. 1987.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Os Jovens Paulistas. In. XAVIER, Ismail.; BERNARDET, Jean-Claude.; PEREIRA, Miguel. O desafio do cinema: a política do Estado e a política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. p. 65-91.
  • CUNHA, Wilson. Seu nome é Bauer?”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 maio 1987. Caderno B, p. 8.
  • LIMA, Rosa. Sérgio Toledo. Cine Imaginário, v. 2, n. 17, p. 10-11, abr. 1987.
  • MATTOS, Carlos Alberto. Uma questão de imagem. Caderno de crítica, n. 3, p. 20-2, mar. 1987.
  • RAMOS, Fernão. Vera da nova geração. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 6 maio 1987. Caderno 2, p. 4.
  • TREVISAN, José Silvério. Vera: retrato de uma identidade impossível. Mulherio, São Paulo, ano 7, n. 28, p. 4, mar.-abr. 1987.

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