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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Olhos d'Água

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.12.2019
2014
Olhos d’Água (2014) é um livro de contos da escritora mineira Conceição Evaristo (1946). A obra reúne 15 histórias sobre o cotidiano de indivíduos que tentam resistir às mazelas de uma sociedade marcada pelas profundas desigualdades social, de raça e de gênero. O livro marca o momento de legitimação de Evaristo no campo literário brasileiro.

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Olhos d’Água (2014) é um livro de contos da escritora mineira Conceição Evaristo (1946). A obra reúne 15 histórias sobre o cotidiano de indivíduos que tentam resistir às mazelas de uma sociedade marcada pelas profundas desigualdades social, de raça e de gênero. O livro marca o momento de legitimação de Evaristo no campo literário brasileiro.

No tempo-espaço narrativo estão Maria, Ana Davenga, Duzu-Querença, Cida, Luamanda, Salinda, Natalina, a menina Zaíta, a criança-promessa Ayoluwa e as inúmeras mulheres negras que cabem na dor e na luta de cada uma de suas iguais.

O primeiro conto, “Olhos d’Água”, que dá título à obra, apresenta a chave para a leitura do livro. A narradora se angustia para tentar lembrar-se da cor dos olhos de sua mãe. Tomada por um fluxo de pensamentos e sentimentos, ela rememora passagens de sua infância e experiências compartilhadas com a mãe e as irmãs, desde situações em que dividiam pequenas alegrias a momentos em que a pobreza e a vulnerabilidade social tornavam o medo uma presença palpável. O retorno ao passado é simbolizado pela volta da personagem à terra natal. O reencontro com a mãe reforça a busca pela ancestralidade coletiva de seu povo e pela continuidade da resistência, representada pelos olhos de sua filha.

Assim como na trama de abertura, grande parte dos contos narra a trajetória de mulheres negras em suas experiências como mães, amantes, filhas, trabalhadoras na rotina miúda em que a violência é uma constante e saber sobreviver a ela, uma urgência. A maternidade é tema recorrente e exaustivamente explorado por Evaristo, e no livro Olhos d’Água é uma dos assuntos mais presentes. Há também histórias de personagens masculinos como protagonistas, mas eles estão imbricadas nas relações com mulheres negras, como é o caso de Kimbá, Di Lixão, Lumbiá, Dorvi. As vivências da negritude, em especial das mulheres, reafirmam no texto literário da autora sua definição de “escrevivência”: a escrita que surge das experiências cotidianas contadas a partir do ponto de vista dos personagens negros.

Ao escolher essa perspectiva, Evaristo direciona seu olhar para a realidade de subjugação e exclusão a que essas pessoas estão submetidas. No entanto, a autora não se restringe a falar apenas de dor. As personagens têm desejos, sonhos e disputam a narrativa de suas vidas precarizadas, ainda que esse embate signifique, em alguns momentos, o flerte com a morte. Constância Lima Duarte, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta a habilidade de Conceição Evaristo para “conduzir poeticamente narrativas por vezes trágicas de seres perdidos no cotidiano das grandes cidades”1.

Essa característica poética do estilo de Evaristo se destaca pelo uso de palavras compostas marcadas pela hifenização. O acúmulo de significados que essa duplicidade intencional traz ao texto traduz também a ambiguidade das personagens e dos sentimentos que experimentam em suas tramas. Muitas são as ocorrências desse recurso linguístico ao longo do livro: “vida-estrada”, “borboleta-menina”, “dedos-desejos”, “gozo-pranto”, “coragem-desespero”, “quarto-marquise”, “gente-máquinas”.  A oralidade é outro aspecto perceptível na obra nos diálogos e nos pensamentos dos personagens. Em entrevista, Evaristo afirma: “eu gosto de ler o texto em voz alta para perceber a musicalidade do meu texto, que é muito própria da linguagem oral”2.

Em 2015, o livro conquista o Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas. Em 2017, o Instituto Itaú Cultural apresenta a Ocupação Conceição Evaristo, confirmando a importância da autora e de suas obras para literatura brasileira. Durante o evento, o escritor Cuti (1951) reforça o lugar de destaque ocupado por Evaristo, destacando na trajetória da escritora a publicação dos primeiros poemas nos Cadernos Negros, editados pelo coletivo Quilombhoje na década de 1980. A publicação de Olhos d’Água é um importante momento na trajetória da autora, pois recupera os contos publicados nos Cadernos Negros e ressalta a força da escrita de Evaristo em sua singularidade literária e atualidade crítica.

Marco significativo da recente e promissora produção literária de escritoras brasileiras negras, Olhos d’Água se consolida como obra de inegável importância artística, cultural e política ao retratar, de maneira realista e poética, as dificuldades e os afetos das histórias de vida da população negra do Brasil. Reitera, desse modo, o propósito de Conceição Evaristo de afirmar sua escrita na condição de mulher preta.

Notas

1. DUARTE, Constância Lima; CÔRTES, Cristiane; PEREIRA, Maria do Rosário Alves. Voz(es) da escrevivência. Portal Literafro, 4 fev. 2018. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/resenhas/ensaio/14-conceicao-evaristo-voz-es-da-escrevivencia-constancia. Acesso em: 30 dez. 2019

2. LIMA, Juliana Domingos de. Conceição Evaristo: “Minha escrita é contaminada pela condição de mulher negra”. Nexo Jornal, 26 maio 2017. Disponível em: www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/05/26/Concei%C3%A7%C3%A3o-Evaristo-%E2%80%98minha-escrita-%C3%A9-contaminada-pela-condi%C3%A7%C3%A3o-de-mulher-negra%E2%80%99. Acesso em 30 dez. 2019.

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