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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Um defeito de cor

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 18.04.2022
2006
Um Defeito de Cor (2006) é o segundo livro publicado pela escritora Ana Maria Gonçalves (1970). Narrado e protagonizado por Kehinde, mulher africana escravizada, o romance subverte a voz narrativa masculina e branca, até então utilizada e reconhecida em textos literários de ficção histórica, e se consolida como importante obra da literatura bras...

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Um Defeito de Cor (2006) é o segundo livro publicado pela escritora Ana Maria Gonçalves (1970). Narrado e protagonizado por Kehinde, mulher africana escravizada, o romance subverte a voz narrativa masculina e branca, até então utilizada e reconhecida em textos literários de ficção histórica, e se consolida como importante obra da literatura brasileira contemporânea.

Dividido em prólogo e dez capítulos, a narrativa atravessa extenso período cronológico: começa com a captura da protagonista na África, no início do século XIX, e vai até a última década deste século (1899). O enredo, construído com base em vasta pesquisa histórica e documental, oferece ao leitor um apanhado da história brasileira por meio do olhar insurgente da protagonista. A protagonista corresponde a Luísa Mahin, figura da história nacional reconhecida por participar de e liderar levantes negros pelo fim da escravidão e possível mãe do advogado e poeta abolicionista Luiz Gama (1830-1882).

A trama conta a história de Kehinde, uma menina africana escravizada no Brasil do início do século XIX. Ela passa a vida deslocando-se por várias cidades e regiões do país e do continente africano (Daomé, Ilha de Itaparica, Salvador, Rio de Janeiro, Maranhão, Nigéria). Narrada em primeira pessoa, a história se inicia com a captura da família em Daomé, na África. Vitimadas por soldados do guerreiro sanguinário Adandozan, Kehinde, sua irmã gêmea Taiwo, e sua avó são aprisionadas em um navio negreiro para serem vendidas como escravas no Brasil. Com a insalubridade dos porões do tumbeiro, a avó e Taiwo morrem durante a viagem, e Kehinde desembarca sozinha na nova terra.

No Brasil, na Ilha de Itaparica, Kehinde compreende os significados da escravidão a que está sujeita e da resistência coletiva negra, apoiada por seus vodus e orixás. Dá à luz seu primeiro filho, Banjokô, e se compromete em lutar pela liberdade. Já em Salvador, como mulher livre, torna-se comerciante e se envolve com um homem português, com quem tem o segundo filho, Luís. A procura por este filho, vendido pelo próprio pai como escravo, é o motivo das travessias de Kehinde até sua velhice. O percurso de quase 80 anos de vida da protagonista é povoado por centenas de personagens que a auxiliam e fazem da trama um imbricado retrato da sociedade brasileira no século XIX.

O texto de Ana Maria Gonçalves se encaixa na definição que a escritora Conceição Evaristo (1946) dá ao termo “escrevivências”: a escrita que surge das experiências cotidianas de pessoas negras, cujas histórias são contadas pela própria perspectiva, para provocar incômodo nos “sonos injustos da Casa Grande”. Um Defeito de Cor é erguido, literária e linguisticamente, sobre o tecido das vivências de Kehinde.

Com referências às matrizes linguísticas e culturais do continente africano, o romance é marcado também pelo tom memorialístico. O enredo ficcional historiográfico e as memórias recuperadas pela protagonista unem-se numa estrutura literária madura. Nela, destacam-se a rica construção descritiva e a linearidade narrativa, forjadas e atravessadas pelas lembranças de Kehinde. Esse jogo literário conduz o leitor a um ir e vir entre passado, presente e futuro, tempos em que a trama ficcional se mescla a fatos históricos, recurso anunciado pela autora no prólogo do livro.

Para Eduardo Assis Duarte, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a escolha de Gonçalves por mesclar história e ficção explicita a intenção da autora de recuperar a memória de figuras importantes da história e cultura afro-brasileira, com um olhar humanizador. Esse processo se dá de maneira honesta e sem romantizações, atribuindo a muitas das personagens, inclusive à protagonista, feitos igualmente heroicos, prosaicos e vis.

A partir leitura proposta por Evaristo, o romance Um defeito de cor permite novas possibilidades de perceber a subjetividade de mulheres negras como protagonistas de suas narrativas e de compreender a produção literária da diáspora como um dos eixos formadores de identidades complexas e múltiplas.  

Inserido na crescente produção literária de mulheres negras, Um Defeito de Cor é um livro paradigmático para conhecer o Brasil por meio de outro olhar: o de mulheres cujas histórias de escravidão foram forjadas, sobretudo, na luta por liberdade.

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