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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Compêndio para uso dos pássaros

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 27.12.2019
1960
Quarto livro de Manoel de Barros (1916-2014), Compêndio para Uso dos Pássaros (1960) tem a atmosfera construída na natureza e na infância. Ambas participam da “desaprendizagem” – forma de olhar e viver o mundo que não reproduz a lógica cotidiana, pautada pelo utilitarismo e pelo consumo –, ideia recorrente nos poemas do autor. 

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Quarto livro de Manoel de Barros (1916-2014), Compêndio para Uso dos Pássaros (1960) tem a atmosfera construída na natureza e na infância. Ambas participam da “desaprendizagem” – forma de olhar e viver o mundo que não reproduz a lógica cotidiana, pautada pelo utilitarismo e pelo consumo –, ideia recorrente nos poemas do autor. 

A primeira seção revela, desde o título, o que é valorizado pelo poeta: “De Meninos e Pássaros”. A comunhão com a natureza, vista sob o olhar da criança, é a principal fonte de lirismo dos poemas. “Vento? / Só subindo no alto da árvore / que a gente pega ele pelo rabo...”, lê-se no último fragmento de “Poeminhas Pescados numa Fala de João”, sequência de nove partes que reproduz a linguagem infantil. João vai à “casa do peixe”, e não ao rio, que o deixa “todo molhado de peixe”, e não de água. O autor emprega onomatopeias, manipula livremente a conjugação e a regência dos verbos (“Maria-preta fazeu”; “Eu se chorei”), vale-se da sinestesia para transmitir sensações. Esses procedimentos estão presentes também em “A Menina Avoada”, composição dedicada à filha do poeta, em que a personagem-título retrata lembranças e vivências de sua rotina junto à natureza.

Tais recursos fazem com que a infância torne-se a matriz da concepção poética de Manoel de Barros, antes tema apenas de alguns versos, como em Poemas Concebidos sem Pecado (1937). A linguagem e a perspectiva das crianças permitem que objetos familiares sejam vistos de forma surpreendente (“Então eu vi iluminado em cima de / nossa casa um sol!”), atribuindo caráter insólito às imagens poéticas e criando realidades segundo uma lógica sensível e intuitiva, não racional.

O poema “O Menino e o Córrego”, dedicado ao filho do autor, apresenta configuração semelhante, embora o eu lírico não se identifique com o menino do título, retratado como uma terceira pessoa. A linguagem não tem a espontaneidade das crianças, mas procura o mesmo olhar surpreendente: “No chão da água / luava um pássaro / por sobre espumas / de haver estrelas”.

Na segunda parte do livro, Manoel de Barros se aproxima da obra de seus poetas contemporâneos. A primeira composição dessa parte, “Experimentando a Manhã nos Galos”, estabelece intertextualidade com “Tecendo a Manhã”, de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), que associa a poesia ao canto matinal dos galos. Em “Coisas Mansas”, notam-se traços da poética de Murilo Mendes (1901-1975), como a descrição de inspiração surrealista (“Ventava / sobre azaleias / e municípios”), e a imagem do sujeito montado no vento, que dialoga com o poema “Murilo Menino”. Além disso, a epígrafe do livro cita Guimarães Rosa (1908-1967), e a do último poema (“Um Novo Jó”) cita Jorge de Lima (1893-1953). Essas referências compõem uma linhagem de autores modernistas à qual a obra de Barros pode ser associada. 

A infância é o centro de Compêndio para Uso dos Pássaros. Faz-se presente pela liberdade de percepções, a partir de como a criança percebe a natureza e o mundo que a circula e da forma como ela manifesta sua experiência pela fala.

 

Fontes de pesquisa 5

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  • BARBOSA, Luiz Henrique. Palavras do chão: um olhar sobre a linguagem adâmica em Manoel de Barros. São Paulo: Annablume: Fumec, 2003.
  • CARRASCOZA, João Anzanello. O consumo, o estilo e o precário na poesia de Manoel de Barros. Bakhtiniana, São Paulo, v. 13, n. 1, jan.-abr. 2018, p. 5-16. Disponível em: < https://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/view/33491/24199 >. Acesso em: 20 fev. 2019
  • MELO, Alberto Lopes de. Sujeito, espaço e linguagem na poesia de Manoel de Barros. 186f. Tese (Doutorado em História da Literatura) – Instituto de Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, 2018.
  • MORAES, Paulo Eduardo Benites de. Manoel de Barros: poeta antropófago. 116f. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária e Estudos Comparados) – Centro de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2014.
  • WALDMAN, Berta. A poesia ao rés do chão. In: Barros, Manoel. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990. p. 11-32.

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