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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Que horas ela volta?

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.12.2019
2015
Que Horas Ela Volta? (2015) é um filme escrito e dirigido por Anna Muylaert (1964). O longa aborda a desigualdade social no Brasil a partir da relação entre a empregada doméstica nordestina e seus patrões paulistanos.

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Que Horas Ela Volta? (2015) é um filme escrito e dirigido por Anna Muylaert (1964). O longa aborda a desigualdade social no Brasil a partir da relação entre a empregada doméstica nordestina e seus patrões paulistanos.

Trata-se de um drama, com passagens cômicas propiciadas pela personagem Val, a empregada interpretada por Regina Casé (1954). Ela é a protagonista que ativa a memória do espectador sobre suas próprias experiências com empregadas que são quase da família, mas raramente se sentam à mesma mesa.

O filme procura retratar a dinâmica dessa relação na sociedade brasileira do início do século 21, que conhece a ascensão da classe C. Com o crescimento econômico e políticas de transferência de renda, essa nova classe passa a acessar lugares antes restritos à classe-média e alta, como a universidade, e começa a participar mais ativamente da vida social brasileira. Essa nova camada social é representada por Jéssica [Camila Márdila (1988)], a filha da empregada.

Val trabalha para a mesma família há treze anos, e a estabilidade financeira permite que ela envie dinheiro para a filha em Pernambuco. Entretanto, sente-se culpada por ter deixado Jéssica para trás, sob cuidados de parentes. Sem envolvimento na rotina da filha, Val não sabe que Jéssica se torna uma moça ambiciosa, que pretende ingressar no curso de arquitetura da USP, uma das universidades mais prestigiosas e concorridas do país. Quando chega a época do vestibular, a filha desembarca em São Paulo para passar um tempo com a mãe e preparar-se para os exames.

Jéssica surpreende-se ao descobrir que a mãe mora na casa dos patrões e submete-se pacientemente às ordens e aos caprichos deles, sendo tratada como cidadã de segunda classe. Destemida, ela questiona as estruturas de poder e ultrapassa a área da casa reservada aos empregados: ocupa o quarto dos hóspedes, serve-se do sorvete de Fabinho [Michel Joelsas (1995)], filho dos patrões Bárbara [Karine Teles (1978)] e Carlos [Lourenço Mutarelli (1964)] e chega até a usar a piscina da casa, provocando a ira da patroa. Essa nova moradora traz à tona diferenças sociais veladas que existem na casa.

O filme estreia em 2015 no Festival de Sundance (Estados Unidos). Regina Casé e Camila Márdila ganham prêmio do júri por suas atuações. O longa também é premiado duplamente no Festival de Berlim (Alemanha): melhor filme de ficção na Mostra Panorama (público) e prêmio C.I.C.A.E para Anna Muylaert. No Brasil, é eleito melhor filme de 2015 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e conquista sete estatuetas no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2016, entre elas as de melhor filme, direção e roteiro original. É também eleito um dos cinco melhores filmes estrangeiros do ano pela National Board of Review, associação estadunidense de críticos de cinema.

Boa parte da crítica elogia a diretora pela mistura sutil e competente entre crônica social e humor. Que Horas Ela Volta? é considerado um filme sério e divertido, com humanização dos personagens e abordagem inteligente da agonia velada entre classes sociais.

Algumas críticas recorrem a títulos anteriores que tratam do relacionamento entre domésticos e patrões. Um deles, o italiano Teorema (1968), de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), é lembrado para ilustrar um comentário pejorativo sobre Que Horas Ela Volta?: o de que, diferentemente da empregada de Teorema, as transgressões de Val e Jéssica são pueris e não inquietam ninguém.

Boa parte das críticas negativas, no entanto, concentram-se no desenho de alguns personagens, marcados por certa estereotipia. Para Inácio Araujo, quando Jéssica entra em cena, a trama evolui para um embate entre heróis e vilões, e Bárbara se torna quase uma vilã e Carlos, um sátiro tolo. Segundo o crítico, esboça-se uma tentativa de cinema de compromisso, que tem a sutileza minimalista característica da autora, mas também uma certa "novelização" da Globo Filmes, coprodutora da obra.

Francesca Angiolillo também vê maniqueísmo na caracterização dos personagens. Ela considera que Bárbara é tão má que impede a identificação do espectador com as mesquinharias da personagem e, portanto, não as reconheça em si. Por sua vez, a identificação com Val, adorável e simplória, provoca uma empatia condescendente e cômica do público. Desse modo, o filme não ativa a reflexão do espectador de classe média alta. Para a crítica, o filme é mais conservador do que deseja ser.

“É um filme sobre gente, um filme que tem a cara do país”, disse a diretora à época do lançamento. Uma trama, segundo ela, que provoca reflexões “políticas, sociais, de história do Brasil, de arquitetura, de afeto, de educação”1.

Que Horas Ela Volta? leva um público grande aos cinemas do Brasil e do mundo, ao retratar a dinâmica que grande parte dos brasileiros conhece, mas com o recorte específico de um momento histórico do país. Alguns o consideram um dos grandes filmes nacionais; outros, novelesco. O fato é que o filme obtém grande repercussão.

Nota

1. MERTEN, Luiz Carlos. Em “Que Horas Ela Volta?”, Anna Muylaert posiciona-se ao focar patrões e empregados. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 ago. 2015. Cinema. Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,em-que-horas-ela-volta--anna-muylaert-posiciona-se-ao-focar-patroes-e-empregados,1748712. Acesso em: 16 out. 2019.

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