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Antônia

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.12.2019
2006
Antônia (2006) é um longa-metragem brasileiro dirigido pela cineasta Tata Amaral (1960). O filme destaca a trajetória de mulheres negras que vivem na periferia de São Paulo e formam um grupo de rap feminino, a despeito do sexismo, racismo e violência.

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Antônia (2006) é um longa-metragem brasileiro dirigido pela cineasta Tata Amaral (1960). O filme destaca a trajetória de mulheres negras que vivem na periferia de São Paulo e formam um grupo de rap feminino, a despeito do sexismo, racismo e violência.

O longa-metragem é um drama musical ambientado no bairro de Brasilândia, região carente da zona norte de São Paulo. Os moradores da própria comunidade interpretam os papéis principais.

Trata-se da história de quatro cantoras – Preta [Negra Li (1979)], Barbarah [Leilah Moreno (1984)], Mayah [Quelynah (1982)] e Lena [Cindy Mendes (1984)] – que fazem backing vocals para rappers homens. Um dia decidem se juntar para e formam o grupo Antônia, que começa a ganhar espaço na cena musical. Problemas da vida pessoal das cantoras, como gravidez, briga por ciúmes e chantagem de marido, obrigam o quarteto a se desmanchar. Depois de algum tempo, no entanto, elas retomam a carreira.

O projeto do filme nasce em 1998, quando Tata Amaral é procurada por um representante da prefeitura de Santo André (SP). Depois de assistir a Um Céu de Estrelas (1996), ele convence a diretora a filmar na cidade para falar da nova geração de hip hop. Admiradora do gênero musical, Tata começa a pesquisar o assunto. Dessa pesquisa surge o curta documental VinteDez (2001), espécie de laboratório para Antônia. A administração de Santo André perde interesse pelo projeto, mas Tata consegue viabilizar a produção e acaba filmando em São Paulo, sua cidade natal e cenário de seus filmes.

Este é o terceiro longa de Tata e fecha sua trilogia sobre mulheres: a adulta em Um Céu de Estrelas, a idosa em Através da Janela (2000) e a jovem (representada por um coletivo jovem) em Antônia. Conforme define a própria cineasta, esses filmes representam o amadurecimento, a morte e o nascimento – não no sentido biológico, mas como o despertar social do jovem.

Inicialmente a diretora deseja contar a história de uma garota que, como ela, é mãe e tenta sobreviver por meio de sua arte. Roberto Moreira (1961), corroteirista do filme, sugere que em vez de uma única protagonista, o enredo assuma um grupo como personagem central. Tata aprova a ideia, por achar que essa fase da vida contém um componente coletivo forte. “Me lembrei da minha adolescência, da militância política. É um eu coletivo, e isso também é muito feminino”1.

Na topografia íngreme da Vila Brasilândia, com vielas estreitas e casas sem acabamento, Tata encontra os cenários de que precisa. Tais características podem ser vistas como representação da força feminina e da pobreza de espírito masculina.

Assim como nas obras anteriores, a crítica destaca a tentativa de Tata esmiuçar a alma de São Paulo e do Brasil contemporâneo. Parte importante desse processo se dá pela forma como a diretora retrata o comportamento masculino. Com exceção do personagem Marcelo Diamante, empresário interpretado pelo músico Thaíde (1967), os homens não passam de maridos ciumentos ou de gente briguenta, machista e egoísta. As mulheres parecem sozinhas em um mundo masculino e hostil, exemplifica Luiz Zanin Oricchio: Preta rompe com o marido e decide sustentar sozinha a filha do casal; Lena, que deseja ter um filho, se submete à chantagem do marido e é obrigada a deixar de cantar no grupo.

Outro ponto destacado pela crítica é a escolha de não atores para atuarem no filme, como havia feito Fernando Meirelles (1955) em Cidade de Deus (2002). Segundo o crítico Cassio Starling Carlos, o desempenho deles dá a impressão de que as não estão representando, o que afasta o risco de caírem no estereótipo. Em entrevista ao programa televisivo Provocações, a diretora defende uma nova representação do negro e das pessoas da periferia, até então associados apenas à miséria, à violência, ao tráfico e à doença.

A fotografia também é elogiada pelos recursos típicos do documentário, com recusa dos padrões da beleza, sem temer os close up, e pela representação fidedigna do espaço social.

A estrutura narrativa, no entanto, é questionada. Eduardo Valente considera que o filme procura dar conta de uma quantidade excessiva de temas: maus maridos, gravidez precoce, preconceito, violência e prisão. Segundo ele, o filme apresenta personagens e temas inexplorados, como se fosse o episódio piloto de uma série. O crítico indica como exemplo a cena em que a mãe da personagem Preta [Sandra de Sá (1955)] anuncia um tema problemático que não é desenvolvido no filme.

O longa conquista alguns prêmios de destaque, como melhor filme na Mostra Internacional de São Paulo, no Queer Lisboa (Portugal) e no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, além de melhor direção e trilha sonora no Festival de Havana (Cuba).

Antônia dá origem a uma série de TV homônima que vai ao ar pela Rede Globo antes de o filme estrear no cinema. As atrizes são convidadas para vários programas de TV para divulgar a série e o filme, mas o resultado de bilheteria fica aquém do esperado. Título superestimado, esforço de divulgação concentrado na série e lançamento em cinema durante as férias são apontados, na época, como motivo para o fracasso comercial do filme.

Antônia é um filme que aborda de modo realista os problemas sociais, raciais e de gênero enfrentados por mulheres da periferia.

Nota

1. AMARAL, Tata. Tata Amaral. Entrevista a Julio Adamor. São Paulo, ago. 2019.

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