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O som ao redor

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.10.2020
2012
O Som ao Redor (2012) é o primeiro longa-metragem de ficção escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho (1968). Ganhador de muitos prêmios, é bem avaliado pela crítica pela forma como aborda a preocupação da classe média brasileira com a segurança e a esfera privada em detrimento dos espaços públicos.

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O Som ao Redor (2012) é o primeiro longa-metragem de ficção escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho (1968). Ganhador de muitos prêmios, é bem avaliado pela crítica pela forma como aborda a preocupação da classe média brasileira com a segurança e a esfera privada em detrimento dos espaços públicos.

O drama é ambientado em uma rua de classe média de Recife. Depois de um carro ser arrombado, um grupo de vigilantes liderado por Clodoaldo [Irandhir Santos (1978)] passa a fazer parte da rotina local como prestadores de serviços de proteção patrimonial.

A vizinhança é comandada por uma espécie de coronel urbano chamado Francisco [Waldemar José Solha (1941)], que detém boa parte dos imóveis da rua. Outros personagens importantes são João [Gustavo Jahn (1980)], neto de Francisco, ele se incomoda com as injustiças sociais e a presença dos seguranças, e Bia [Maeve Jinkings (1976)], mãe infeliz com a rotina da casa e que enfrenta problemas com o cão de estimação do vizinho.

Embora a história se passe no bairro de Setúbal, na capital pernambucana, a especulação imobiliária, a urbanização inóspita e a convivência em espaços públicos e privados são temas universais. “O filme não é sobre Setúbal, mas sobre o Brasil, sobre um estado de espírito”, disse o diretor1.

Para retratar esse estado de espírito, o filme abdica de paisagens abertas, como a praia de Boa Viagem, e prioriza os espaços privados, como as casas das pessoas e os imóveis vazios que João tenta comercializar para o avô, registrando crônicas da vida íntima.

O Som ao Redor aborda questões socioeconômicas, trabalhistas, de raça, de gênero e de consumo. Trata com ironia os dilemas e as hipocrisias da classe média, avaliação presente em curtas anteriores do diretor, como Recife Frio (2009).

O filme foi elogiado pela crítica, que traça paralelos com trabalhos de cineastas consagrados, como David Lynch (1946), Ettore Scola (1931-2016) e John Carpenter (1948), pela forma como as decisões estéticas são incorporadas à narrativa, não para mostrar conhecimento técnico de direção, mas para agregar informação à trama.

A primeira imagem em movimento do filme é exemplar do estilo do diretor: uma garota patina na garagem de um prédio, desvia dos carros e chega a uma quadra poliesportiva com crianças que brincam e espiam, curiosas, pela cerca que as separa da rua, observadas por suas babás. Considerando que essa sequência surge logo após uma série de fotografias de arquivo que apresenta um cenário rural oprimido, a forma como a câmera apresenta o espaço situa o espectador no cenário claustrofóbico e sob custódia ao qual o universo do filme está submetido, na avaliação do crítico Luiz Joaquim.

Lúcia Nagib vale-se da mesma sequência para indicar a diferença entre O Som ao Redor e outros filmes que marcaram época. Segundo ela, a sequência da menina chegando à quadra cheia de "crianças encalacradas" representa o reverso do paisagismo grandioso que caracteriza o Brasil em outros tempos do cinema nacional, como o travelling que acompanha a corrida de Manoel em direção ao mar nunca visto em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha (1939-1981).

O cenário claustrofóbico é retratado de várias formas, como o vaivém das empregadas domésticas nos apartamentos, a vigilância dos guardas noturnos, as brincadeiras de criança limitadas pelo portão do prédio, a reunião de condomínio em que se discute a demissão por justa causa do zelador (entre outras razões, porque uma moradora tem recebido a revista Veja fora do plástico). Em suma, uma classe média enjaulada e ensimesmada em dramas comezinhos. A chegada dos seguranças explicita a sensação de que os moradores vivem enclausurados.

A crítica estrangeira destaca que o longa retrata espaços privados e áreas públicas como ramificações do mesmo pesadelo coletivo urbano, jogando luz sobre um estado peculiar da sociedade brasileira, com seu histórico de desigualdade social. As fotos de arquivo da cena inicial reforçam a ideia de que se trata de um problema antigo.

Toda essa carga dramática é compensada pelo arejamento narrativo propiciado pelo que Sérgio Alpendre chama de “adoráveis detalhes”: meninas brincam de falar igual aos personagens de filmes dublados; os filhos de Bia a massageiam ao som de “Charles Anjo 45”, de Jorge Ben Jor (1942); Bia liga o aspirador de pó para fumar baseado sem ser notada.

A voz dissonante é a do cineasta Eduardo Escorel, que considera o elenco apático, com falas em tom monocórdico, o que empobrece os personagens. Lúcia Nagib faz outra avaliação: os atores comungam da superficialidade dos personagens.

O longa é filmado em 2010, ano em que a economia brasileira tem expressivo crescimento de 7,5%. Na época, o setor imobiliário ainda vivia uma fase próspera, o que pode ser considerado pano de fundo para a trama.

O filme estreia em 2012 no Festival de Roterdã (Holanda), onde conquista o prêmio da crítica. Ganha também alguns dos prêmios mais importantes do Brasil (Festival do Rio, Festival de Gramado, Mostra de São Paulo), além de integrar a lista de dez melhores do ano do jornal The New York Times, em 2012.

O Som ao Redor tem o mérito, segundo especialistas, de promover uma integração eficiente entre forma e conteúdo, trazendo à tona um tema marcante da sociedade – de Recife, do Brasil, do mundo – por meio de uma narrativa que facilita o envolvimento e a identificação do espectador com as situações encenadas.

Notas

1. FILHO, Kleber Mendonça. Entrevista a Luiz Joaquim em Cinema Escrito, 2 ago. 2010. Disponível em: https://www.cinemaescrito.com/2010/08/o-som-ao-redor-filmagens/ . Acesso em: 17 set. 2019.

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