Artigo da seção obras A música de Gilberto Mendes - Vários Compositores num só compositor, do modernismo ao pós-modernismo

A música de Gilberto Mendes - Vários Compositores num só compositor, do modernismo ao pós-modernismo

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoA música de Gilberto Mendes - Vários Compositores num só compositor, do modernismo ao pós-modernismo: 2010
Discografia

Gilberto Mendes tem 88 anos quando o selo Sesc resolve mapear as vertentes da produção rica e multifacetada em A música de Gilberto Mendes, cujo subtítulo é Vários Compositores num só Compositor: do Modernismo ao Pós-Modernismo. Gravado em 2010 no Sesc Vila Mariana e Espaço Cachuera, e lançado no mesmo ano pelo Selo Sesc, o CD tem direção artística do compositor e regente norte-americano Jack Fortner (1936), que dirige o Ensemble Música Nova em várias de suas faixas. Além disso, conta com a participação de solistas de destaque, como o violonista Fabio Zanon (1966), as sopranos Martha Herr (1952-2015) e Andrea Kaiser e a pianista Beatriz Alessio. A iniciativa destaca-se pela qualidade dos intérpretes e por incluir obras inéditas em disco.

Nascido em Santos, em 1922, Gilberto Mendes faz parte, ao lado de Willy Corrêa de Oliveira (1938) e Rogério Duprat (1932-2006), de uma geração que viaja à cidade alemã de Darmstadt, após a Segunda Guerra, para cursos de verão. Deles, absorvem as ideias das vanguardas europeias capitaneadas pelo compositor francês Pierre Boulez (1925-2016) e seu colega alemão Karlheinz Stockhausen (1908-2007). De volta ao Brasil, Mendes propaga a chamada Neue Musik da Europa no Festival Música Nova (1962) – existente até hoje. A partir de 1982, embarca em nova fase estética, com a progressiva incorporação de elementos da música popular de sua juventude e do minimalismo norte-americano.

A primeira faixa do disco é “Cavalo Azul", composição de 1961 ainda não executada devido a disputa por direitos autorais com os herdeiros de Cecília Meireles (1901-1964), autora do texto original da obra. Para viabilizar a peça, os versos de Meireles são substituídos por outros, de Flávio Viegas Amoreira, amigo pessoal do compositor. Além do Ensemble Música Nova, atuam na peça a soprano Martha Herr e um coro masculino de sete vozes.

As obras seguintes, “Música para 12 instrumentos” (1961) e “Rotations” (1962), são igualmente datadas da década de 1960, o período inicial do compositor, no qual ele escreve sob influência do serialismo de Darmstadt. Em ambas, atua o Ensemble Música Nova que, na segunda, conta com o regente assistente Henrique Villas Boas. Em “Música para 12 instrumentos”, Mendes insere  um elemento brasileiro na instrumentação – o berimbau.

O grupo de obras dos anos 1961-1962, anteriores ao célebre Manifesto Música Nova (1963), firma compromisso com o mundo contemporâneo e explicita ligação com o grupo Noigandres, dos poetas concretos Décio Pignatari (1927-2012), Augusto de Campos (1931) e Haroldo de Campos (1929-2003). É concluído com “Música para Piano n. 1”, escrita no mesmo ano em que Gilberto Mendes cria o Festival Música Nova.

Executada pela pianista Beatriz Alessio, “Música para Piano n. 1” é uma encomenda da Rádio A Tribuna, de Santos, e tocada como peça de confronto do 1o Concurso Jovens Mestres do Teclado, patrocinado pelo jornal A Tribuna. Tem caráter dodecafônico e aleatório, uma vez que a composição divide-se em quatro blocos diferentes, cujo andamento e ordem de execução devem ser decididos pelo próprio intérprete.

A faixa seguinte do disco faz um salto cronológico e estético: trata-se de “O meu Amigo Koellreuter” (1984), com Andrea Kaiser (soprano), Cesar Masano (marimba) e Beatriz Alessio (piano). Embora homenageie os 70 anos do maior divulgador do dodecafonismo no Brasil, o alemão Hans Joachim Koellreuter (1915-2005), professor de Gilberto Mendes, a obra não é dodecafônica: sem empregar texto, utiliza elementos do minimalismo norte-americano, incluindo uma batida que o próprio compositor define como pop.

Uma escolha estética similar pode ser observada na faixa seguinte, “Uma Voz, uma Fala” (1993), sobre texto de Augusto de Campos, encomenda da Universidade Livre de Música. A faixa estreia no Festival Música Nova, em 1994, com o grupo Novo Horizonte, regido por Graham Griffiths. No disco, o Ensemble Música Nova atua com um coro misto de 16 vozes.

Gravado anteriormente no CD Surf, Bola na Rede, um Pente de Istanbul e a Música de Gilberto Mendes (1993) pelos percussionistas Carlos Tarcha e Joaquim de Abreu, aos quais é dedicada, “O pente de Istanbul” (1990) aparece aqui em transcrição para piano solo de 1995. Tocado por Beatriz Alessio, o “Estudo do Pente de Istanbul” (1995) funde jazz, serialismo e toques de música turca.

Nas duas faixas seguintes, Fabio Zanon interpreta as únicas obras de Gilberto Mendes para seu instrumento, o violão: “Prelúdio” e “Quasi una passacaglia”, ambas de 2001, e estreadas por Terezinha Prada. Elas podem ser vistas tanto como obras isoladas, quanto como um díptico, sendo a primeira a introdução à segunda. Nelas, o compositor emprega um idioma lírico e introspectivo, sem grandes demandas de virtuosismo para o intérprete.

O Ensemble Música Nova volta a se reunir para a faixa final do CD: “Sinfonia de Navios Andantes”, encomenda da edição de 2009 do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, São Paulo, com título extraído de um artigo do escritor Flávio Viegas Amoreira sobre Gilberto Mendes para o jornal santista A Tribuna. Como o próprio compositor afirma no encarte do disco, a peça “retrata bem suas constantes viagens pelos variados portos de sua própria música”, com uma linguagem estética que tende à fusão estilística.

Ficha Técnica da obra A música de Gilberto Mendes - Vários Compositores num só compositor, do modernismo ao pós-modernismo:

  • Data de lançamento
    • 2010
  • Gravadora
    • Selo Sesc
  • Formato
    • CD

Fontes de pesquisa (2)

  • COELHO, Francisco Carlos (Coord.). Música contemporânea brasileira: Gilberto Mendes. São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006.
  • SANTOS, Antonio Eduardo. O antropofagismo na obra pianistica de Gilberto Mendes. São Paulo: Anablume, 1997.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A música de Gilberto Mendes - Vários Compositores num só compositor, do modernismo ao pós-modernismo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70910/a-musica-de-gilberto-mendes-varios-compositores-num-so-compositor-do-modernismo-ao-pos-modernismo>. Acesso em: 23 de Jan. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7