Artigo da seção obras O Inferno de Wall Street

O Inferno de Wall Street

Artigo da seção obras
Literatura  

O Inferno de Wall Street” corresponde ao Canto X do poema épico O Guesa Errante (1876/1877), do maranhense Joaquim de Sousândrade (1832-1902). O poeta é ímpar pelas soluções que dá a elementos centrais da poesia romântica brasileira. Os irmãos Augusto (1931) e Haroldo de Campos (1929-2003), estudiosos da obra do autor, nomeiam o Canto X de “O Inferno de Wall Street” e assinalam uma liberdade de invenção só igualada pela poesia do século XX. 

Para compreender o que se passa nesse trecho de 176 estrofes, epigramáticas e de versificação particular, é preciso localizá-lo no conjunto da obra. O Guesa Errante é inspirado na figura mítica de mesmo nome. Segundo as duas notas explicativas de Sousândrade na primeira página da obra, o Guesa, o “sem lar” ou “errante”, era, para o povo andino muísca, uma oferenda ao sol. Pelo ritual, escolhe-se um menino de certo vilarejo  e ele é conduzido a um templo para ser educado. Quando completa 15 anos, é levado num longo ritual pela chamada “estrada do Suna”. O fim da estrada coincide com a imolação do jovem e a oferenda de seu sangue a Deus. Apropriando-se da noção do exilado, o poeta assume a figura do índio para a consumação de uma viagem continental imaginária. Deixa os Andes, em que pensamento e geografia se fundem, rumo à Amazônia, em que civilização e natureza permanecem em tenso diálogo. Diálogo em tom de elogio da natureza, ou crítica à servidão e à cobiça. De lá, parte para todo o continente, passando por Maranhão, Rio de Janeiro, Antilhas, Estados Unidos e a costa continental do Pacífico. À medida que a viagem segue, registra reminiscências biográficas, observações históricas e antropológicas e comentários ao estado presente da vida nacional e estrangeira. Caso único da poesia brasileira, Sousândrade é responsável por uma épica intelectualizada.

Todos os elementos elencados apresentam-se na construção de O Inferno de Wall Street. Na leitura pari passu com a biografia do poeta, todo o Canto X de O Guesa refere-se ao período (1871-1885) em que Sousândrade reside em Nova York. O episódio é antecedido por um longo elogio aos Estados Unidos, no qual Guesa mostra sua admiração pela racionalidade republicana que funda o país. Conforme aprofunda a experiência do lugar, o herói chega a Nova York, onde a harmonia social revela-se simples hipocrisia e dá lugar ao capitalismo.

A descida do desterrado aos círculos infernais de Wall Street reconfigura a estrutura poética antes concebida. O episódio abandona os quartetos decassílabos rimados em sequências cruzadas (a-b-a-b) ou enlaçadas (a-b-b-a) que constituem o poema. Transforma-os em quadras epigramáticas de cinco versos – os maiores com oito sílabas e um menor (o quarto), de duas ou três sílabas. Nas palavras dos irmãos Campos, as duas ou três sílabas do verso menor têm função de “rima interna, à guisa de eco, prestando-se excelentemente a efeitos de deformação expressiva, muitas vezes burlesca” 1. As passagens são antecedidas por rubricas que esclarecem as personagens da seção. São encabeçadas pelos dizeres de Dante – “Deixai toda a esperança vós, que entrais” – e mostram o Guesa recebido por uma horda de agiotas, corretores de ações e empresários corruptos cujos pregões são a expressão maior do embuste norte-americano de fins do século XIX. Os temas centrais são a farsa da construção das fortunas dos robber barons, a miséria do povo, a falsa moralidade de seus representantes, a violência repressora contra as manifestações de repúdio e o papel manipulador da imprensa em forma de diálogo. Costurando as transições e digressões desse movimento, destacam-se: a mistificação do dinheiro (representado por Mammon, falso deus do Novo Testamento), a crítica republicana às monarquias e impérios (figurada pela visita de dom Pedro II aos Estados Unidos como convidado de honra da Exposição Universal de 1876, realizada na Filadélfia) e o papel do poeta romântico em tensão com as corrupções da modernidade.

Praticamente ignorado dos debates de seus contemporâneos, Sousândrade precisou aguardar o interesse de poetas e críticos de vanguarda para ganhar lugar no cânone literário brasileiro. Entre os pioneiros nos estudos sousandradianos, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, redigem uma antologia e um dos mais importantes estudos sobre o poeta (ReVisão de Sousândrade, 1964) e dedicam-se à exposição da modernidade de sua poesia. Sobre O Inferno de Wall Street, chama-lhes a atenção a condensação do diálogo de referências políticas, históricas e etnológicas dos epigramas – comparados aos modelos composicionais dos Cantos de Ezra Pound (1885-1972) – e os procedimentos técnicos. Sobretudo, o que denominam “insurreição sonora” 2, isto é, a ênfase na musicalidade que, nas estrofes de O Inferno, são recuperadas pelo limerick anglo-saxão, gênero tradicional de poesia satírica em voga nas letras inglesas de então. Segundo Luiza Lobo (1948), a utilização do limerick por Sousândrade remonta a um plano mais geral de modernização das formas épicas, em que a objetividade épica cede espaço para a experiência subjetiva do herói, de que trata O Guesa.

Não obstante as dificuldades que a leitura do trecho impõe, O Inferno de Wall Street estabelece-se como marco por antecipação da poesia de invenção no Brasil e exemplo único de inquietude formal no romantismo brasileiro. 

 

 

Notas

1. CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de. ReVisão de Sousândrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 44.

2. CAMPOS, op. cit., p. 78.

 

Ficha Técnica da obra O Inferno de Wall Street:

Fontes de pesquisa (3)

  • CACCAGNA, Claudio. A visão do ameríndio na obra de Sousândrade. São Paulo: Hucitec, 2004.
  • CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de. ReVisão de Sousândrade. Textos críticos, antologia, glossário, biobibliografia, com a colaboração especial de Erthos A. de Souza e Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
  • LOBO, Luiza. Épica e modernidade em Sousândrade. São Paulo: Edusp; Rio de Janeiro: Presença, 1986.

Como citar?

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  • O Inferno de Wall Street. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70908/o-inferno-de-wall-street>. Acesso em: 16 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7