Artigo da seção obras Simão, o Caolho

Simão, o Caolho

Artigo da seção obras
Cinema  
Data de criaçãoSimão, o Caolho: 1952 Local de criação: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Alberto Cavalcanti
Filme
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Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Primeiro filme de Alberto Cavalcanti (1897-1982) como cineasta no Brasil. O filme mostra as transformações e urbanização na cidade de São Paulo através de uma comédia de costumes de sua sociedade.

O projeto é da produtora Cinematográfica Maristela, durante um momento de crise financeira. A produtora decide produzir uma comédia, adaptada do romance de Galeão Coutinho (1897-1951) e para isso, contrata profissionais envolvidos em outras adaptações do autor, como o diretor do longa, Alberto Cavalcanti.

Os meios jornalísticos tentam imputar à obra uma aura intelectual. Cavalcanti rebate essa opinião e define o filme como “despretensioso […] estritamente comercial […] uma comédia popular” com o intuito de trazer “divertimento para o público, sem contudo usar de piada grosseira nem de imitação subconsciente das gags americanas”1, como se acusam então as produções brasileiras de sucesso. Com um trocadilho irônico, completa: “em terra de cego, o Caolho é rei”2.

O ator Procópio Ferreira (1898-1979), que interpretaria Simão, desentende-se com a produtora e acaba substituído por Mesquitinha (1902-1956), do teatro cômico carioca. Simão, o tal caolho, é um malandro simpático que sobrevive de expedientes na provinciana São Paulo de 1932. Participa de negócios nebulosos com colegas de bar e acredita que sua sorte financeira vai mudar. A mudança vai acontecer quando o grande amigo Santo (Carlos Araújo), inventor da “mãe automática e da máquina de emburrecer”, conseguir recuperar o olho de Simão. Galanteador, esconde o filho de seu primeiro casamento da segunda esposa, Marcolina [Rachel Martins (1912-1974)], ciumenta e ambiciosa.

Há salto temporal de vinte anos e a cidade expande-se vertiginosamente. Prédios, anúncios luminosos, barulho, filas e bondes lotados, substituem a vida pacata de saraus de piano e de audição de músicas em gramofones.

Simão e a esposa continuam pobres. Ele, a reclamar da saúde e dos bons tempos dos flertes inconsequentes, ainda aguarda um súbito enriquecimento. Ela ouve radionovelas e borda. Moram em uma vila de vizinhos bisbilhoteiros, descendentes de italianos, e a eles junta-se um sobrinho, Raul (Claudio Barsotti), que segue os passos do tio na vida folgazã.

Uma empregada negra [Isaura Bruno (1926-1977)], recém contratada, “vê” uma “coisa ruim” ao redor de Simão. Adepta do espiritismo, como a caricaturiza o filme, incorpora o espírito do primeiro e falecido marido de Marcolina, o qual denuncia o “ambiente de pecado” em que vivem.

Marcolina instiga as vizinhas a participarem de uma cruzada pela moral, apontando como vítima uma “sirigaita” que recebe dinheiro de Simão. Trata-se da nora de Simão. O filho crescido do protagonista é pai de uma criança e Marcolina não aceita o papel de “avó postiça”.

Ao consertar o galinheiro da casa, Simão adormece e sonha com um olho “sem pessoa” que o convence a implantá-lo numa “pessoa sem olho”. O amigo e inventor Santo “opera-o” e, com o novo olho, Simão ganha o poder da invisibilidade. Desmascara Marcolina e suas secretas sessões de “macumba”, ganha apostas no Jockey Club e chantageia um grupo de especuladores de carne, ficando rico.

Candidato a presidente pela visão ímpar, recebe vitória esmagadora. Marcolina decide dar-lhe um golpe, sugerindo aos conspiradores arrancarem-lhe o olho. Simão acorda e sua esposa, sob o efeito de uma máquina da paz inventada por Santo, apregoa as maravilhas da convivência doméstica, aceitando o neto do marido. A mistura de gêneros como a ficção científica, a crônica de costumes e a sátira social e política, habilmente conciliadas pelo humor, é recebida na época com reservas.

Do Rio de Janeiro, o crítico Antônio Moniz Viana (1924-2009) repreende o “irregular desenvolvimento da fita, que assume não raro um aspecto grotesco e falso, principalmente quando o script a conduz à sátira política”3. Já Alberto Dines (1932) constata que o filme “não despreza a realidade diária, ao contrário, explora-a ao máximo, assentando desta forma a trama meio inverossímil e fantasiosa em terra firme”, mas aponta falhas, “grandes defeitos” como “na caricatura exagerada das sessões espíritas e de macumba, na atmosfera da sátira política (que lembra as revistas musicais) e no sonho”4.

A crítica de São Paulo, capitaneada por seus dois maiores representantes, acolhe-o com mais generosidade. Escreve Almeida Salles (1912-1996): “quem viveu em São Paulo, […] quem observou os interiores das casas da pequena burguesia paulistana, quem registrou a fisionomia das ruas dos bairros humildes […], é conquistado pela fita, pela massa de observações, de ditos, de situações, tão carregados de cor local, de pitoresco humano e de atmosfera típica”5.

Benedito Junqueira Duarte (1910-1995) complementa: os detratores da obra “acham-se [...] distantes da vida paulistana, dos seus tipos característicos, […] da vida pitoresca das vilas e dos cortiços ítalo-paulistanos”, elementos com os quais Cavalcanti não chega a criar uma “obra perfeita” mas que está “repleta de ensinamentos […]: o significado humano, o significado social, o significado poético”6.

O filme recebe os principais prêmios paulistas para o ano de 1952: o Saci nas categorias direção, argumento e coadjuvante masculino (Claudio Barsotti), e o Governador do Estado nas categorias direção, argumento e adaptação cinematográfica. Não consegue, entretanto, salvar a Cinematográfica Maristela de mais um malogro financeiro.

Notas

1. Citado por GALVÃO, Maria Rita. In: Companhia Cinematográfica Vera Cruz: a fábrica de sonhos: um estudo sobre a produção cinematográfica industrial paulista. Tese (doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de Sâo Paulo, São Paulo, 1975. p. 771.

2. GALVÃO, Maria Rita, op. cit, p. 769.

3. VIANA, Antônio Moniz. In: DUARTE, B. J. Cavalcanti e Simão, o caolho. Anhembi, São Paulo, ano 3, n. 26, p.390, jan. 1953. 

4. DINES, Alberto. Cinema: arte ou industria? A Cena Muda, Rio de Janeiro, v.32, n.45, p. 3, 07 nov. 1952.  

5. SALLES, Francisco Luiz de Almeida. Simão o caolho. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 30 nov. 1952.

6. DUARTE, B. J. Cavalcanti e Simão, o caolho. Anhembi, São Paulo, ano 3, n. 26, p.390-391, jan. 1953. 

Ficha Técnica da obra Simão, o Caolho:

Fontes de pesquisa (10)

  • AUDRÁ JUNIOR, Mário. Cinematográfica Maristela: memórias de um produtor. São Paulo: Silver Hawk, 1997. p. 73-75.
  • CATANI, Afrânio Mendes. A Sombra da outra: a Cinematográfica Maristela e o cinema industrial paulista nos anos 50. São Paulo: Panorama do Saber, 2002. p. 125-149.
  • DINES, Alberto. Cavalcanti: agora só no cinema. A Cena Muda, Rio de Janeiro, v.32, n.46, p.4-5, 34, 14 nov. 1952.
  • DINES, Alberto. Cinema: arte ou industria? A Cena Muda, Rio de Janeiro, v.32, n.45, p.3, 07 nov. 1952.
  • DUARTE, B. J. Cavalcanti e Simão, o caolho. Anhembi, São Paulo, ano 3, n. 26, p. 389-392, jan. 1953.
  • DUARTE, B.J. Simão, o caolho, de Alberto Cavalcanti. In: 2a. RETROSPECTIVA do Cinema brasileiro. São Paulo: Festival Internacional de Cinema do Brasil, 1954. p. 29-30.
  • GALVÃO, Maria Rita. Companhia Cinematográfica Vera Cruz: a fábrica de sonhos: um estudo sobre a produção cinematográfica industrial paulista. Tese (doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de Sâo Paulo, São Paulo, 1975. p. 771.
  • PARANAGUA, Paulo Antonio. Rétrospective Vera Cruz: Hommage à Alberto Cavalcanti. In: FESTIVAL International de Biarritz, 1996. p. 44-56.
  • SALLES, Francisco Luiz de Almeida. Simão o caolho. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 30 nov. 1952.
  • SCHEIBY, Caio H. Simão o caolho. Sequência, São Paulo, n. 1, jan. 1956.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SIMÃO, o Caolho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70907/simao-o-caolho>. Acesso em: 22 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7