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Artes visuais

Capela do Morumbi

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.11.2021
1940
A Capela do Morumbi é um espaço destinado a exposições de arte contemporânea, pertencente à rede de edificações históricas intitulada Museu da Cidade de São Paulo. A configuração de capela se constitui a partir da década de 1940, com intervenções arquitetônicas modernas feitas sobre as ruínas de uma construção em taipa de pilão do século XIX.

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A Capela do Morumbi é um espaço destinado a exposições de arte contemporânea, pertencente à rede de edificações históricas intitulada Museu da Cidade de São Paulo. A configuração de capela se constitui a partir da década de 1940, com intervenções arquitetônicas modernas feitas sobre as ruínas de uma construção em taipa de pilão do século XIX.

Os primeiros registros documentais da capela datam do início do século XIX, como parte da Fazenda do Morumbi, de propriedade do agricultor inglês John Rudge (1792-1854) que nela cultiva chá. Ao longo de sua existência, a Fazenda do Morumbi tem diferentes proprietários, o que faz com que a capela passe por diversas modificações, e não se tenha registro de sua condição original. Há diferentes hipóteses sobre a situação primitiva: pode ter sido Capela de São Sebastião, ou ermida do cemitério da Fazenda, ou somente um paiol de apoio à produção agrícola. Registros de 1912 demonstram o consentimento de celebração de missas na capela, mesmo com o padre da antiga Freguesia de Santo Amaro atestando as precárias condições da edificação1. Na década de 1940, a capela está em ruínas.

Em 1949, iniciam-se as obras de urbanização do loteamento intitulado Jardim Morumbi feito pela Companhia Imobiliária Morumby. Com o intuito de valorizar o investimento e estimular a comercialização dos lotes, a empresa contrata Gregori Warchavchik (1896-1972) para os projetos na casa-sede da antiga fazenda e nos vestígios da capela. A revista Habitat, dirigida pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) e pelo curador Pietro Maria Bardi (1900-1999), faz duas matérias, em 1951 e 1953, mencionando o loteamento e a Capela do Morumbi como exemplos de projetos exemplares e símbolos do progresso urbano, vale lembrar que que a Casa de Vidro (1950-1951), residência do casal Bardi, localiza-se no Jardim Morumbi.

Warchavchik constrói a Capela do Morumbi sobre as paredes de taipa remanescentes, explicitando a distinção entre técnicas construtivas. Apoiando-se nos elementos edificados no século XIX, o arquiteto ergue paredes de alvenaria de tijolos, rebocadas e pintadas a cal, novo telhado com estrutura em pau roliço e forro de madeira. Também utiliza esquadrias de madeira cabreúva e piso composto de “tijolos requeimados e rejuntados de cimento”, conforme se lê no memorial construtivo apresentado por Warchavchik à prefeitura em 6 de maio de 19492. A artista plástica Lúcia Suané (1932) pinta um afresco do batismo de Cristo com anjos de traços indígenas.

A edificação projetada por Warchavchik tem a configuração de templo religioso católico, tendo em vista sua torre e a nave integrada ao altar em um espaço único de pequena dimensão. Este projeto não retorna à configuração anterior, mas, como atesta a historiadora Denise Invamoto, “há um quê de invenção [...] na capela, a distinção com relação ao existente faz da nova camada uma clara releitura contemporânea, que recupera simbolicamente a sua função religiosa”3. Segundo a análise do geógrafo Aziz Ab’Saber (1924-2012): “A base da capela é o passado; as paredes superiores e o telhado representam um estilo pseudo-colonial livre e simbólico, formando um conjunto de inusitada beleza estética. Uma concepção de passado, em estado de ruínas, acaba por ser aviventada por uma concepção reconstrutiva da lavra de um modernista sensível e criativo”4.

A Capela do Morumbi é pouco utilizada no terceiro quarto do século XX. Em 1975, a tutela da edificação é transferida para o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. O Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) conduz a reforma de 1979, na qual se removem o altar e os bancos, e são inseridos sanitários, copa e depósito no lugar da antiga sacristia da nave lateral. De templo religioso, a Capela do Morumbi converte-se em espaço expositivo aberto ao público em 25 de janeiro de 1980.

Desde então, diversos artistas visuais contemporâneos são responsáveis por instalações temporárias no ambiente principal da edificação, como Carmela Gross (1946), Iole de Freitas (1945), Iran do Espírito Santo (1963) e Leonilson (1957-1993). Entre as mostras, destaca-se a exposição Taipa, Tijolo e Fantasia (1990), para a qual é feito um amplo levantamento histórico e construtivo da Capela do Morumbi. Esta pesquisa embasa o tombamento municipal da edificação pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico (Conpresp) em 2005. A construção, entretanto, não recebe o tombamento estadual do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Os dois requerimentos, de 1975 e 1982, são negados após pareceres do arquiteto Carlos Lemos (1925): “Da arquitetura antiga de taipa de pilão praticamente nada mais há, devido às sucessivas reformas e adaptações. A principal intervenção, feita pelo arquiteto Warchavchik, desfigurou-a completamente, impedindo, praticamente, a reversão ao feitio original”5.

Tendo em vista a falta de documentação e de elementos construtivos preservados, o projeto de Gregori Warchavchik visa a coexistência entre vestígios do século XIX com uma construção moderna. Esta, composta de elementos arquitetônicos culturalmente reconhecidos como pertencentes a templos católicos. Convertida em espaço cultural municipal desde os anos 1980, a Capela do Morumbi pertence à rede de edificações históricas intitulada Museu da Cidade de São Paulo.

Notas

1. INVAMOTO, Denise. Futuro pretérito: historiografia e preservação na obra de Gregori Warchavchik. 2012. 366 f. Dissertação (Mestrado em História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. p.310.

2. WARCHAVCHIK, Gregori. Memorial descritivo da capela do Morumbi. 1949. Apud. INVAMOTO, Denise, op. cit., p.312.

3. INVAMOTO, Denise, op. cit., p.313.

4. AB’SABER, Aziz. Falam as taipas da Capela. In:  AB’SABER, Aziz. Taipa, tijolo e fantasia. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura/ Departamento do Patrimônio Histórico/ Capela do Morumbi, 1990.

5. LEMOS, Carlos. Parecer de arquivamento do tombamento da Capela do Morumbi. São Paulo: Condephaat, 1974. Apud. INVAMOTO, Denise, op. cit., p.313.

Fontes de pesquisa 6

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  • AB’SABER, Aziz. Falam as taipas da Capela. In: AB’SABER, Aziz. Taipa, tijolo e fantasia. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura/ Departamento do Patrimônio Histórico/ Capela do Morumbi, 1990.
  • DEPARTAMENTO de Patrimônio Histórico. Guia de bens culturais da cidade de São Paulo. São Paulo: Imprensa Oficial, 2012.
  • FERRAZ, Geraldo. Warchavchik e a introdução da nova arquitetura no Brasil: 1925 a 1940. Prefácio Pietro Maria Bardi. São Paulo: Masp, 1965. 277 p., il. p&b.
  • INVAMOTO, Denise. Futuro pretérito: historiografia e preservação na obra de Gregori Warchavchik. 2012. 366 f. Dissertação (Mestrado em História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
  • JUSTE LORES, Raul. São Paulo nas alturas. São Paulo: Três Estrelas, 2017.
  • LIRA, José. Warchavchik: fraturas da vanguarda. São Paulo: Cosac Naify, 2011. 552 p.

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