Artigo da seção obras O Guardador de Águas

O Guardador de Águas

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoO Guardador de Águas: 1989 | Manoel de Barros
Livro

O guardador de águas é um livro do poeta Manoel de Barros (1916-2014), publicado em 1989, que se destaca por dar voz ao personagem Bernardo da Mata. Como uma espécie de alter ego do poeta, Bernardo é uma representação da figura do andarilho, homem desprendido do mundo material e próximo da natureza que inspira diversas obras de Manoel.

A primeira das cinco seções, cujo título repete o do livro, apresenta o personagem, que vive em comunhão com o mundo natural, do qual extrai poesia. “[ele] Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros/ Até que as águas se ajoelhem/ Do tamanho de uma lagarta nos vidros”, lê-se no segundo poema do conjunto. A liberdade com que Bernardo manipula os elementos da natureza alude ao trabalho poético, já que de seu esforço a matéria-prima adquire nova forma. Por semelhanças desse tipo ele é visto como uma segunda personalidade do poeta.

Bernardo aparece ainda em títulos como Livro de pré-coisas (1985) e Menino do mato (2010), e na obra Escritos em verbal de ave (2011) sua morte é retratada. Em O guardador de águas, sua representação dialoga intertextualmente com Alberto Caeiro, heterônimo ao qual o poeta português Fernando Pessoa (1988-1935) atribui a redação de O guardador de rebanhos. Em ambos os casos se trata de uma relação entre homem e mundo natural pautada pelos sentidos, e não pela racionalidade.

A importância dos elementos naturais na obra de Manoel de Barros faz muitas pessoas o chamarem de “o poeta do Pantanal”, mas a leitura de composições como as deste livro acaba por desconstruir essa ideia. O autor não tematiza as paisagens de seu repertório pessoal, considerando-se que passou parte da vida no Mato Grosso, ou as toma como cenário para os poemas; seus versos aproveitam a natureza como matéria-prima poética.

A procura pela simplicidade e o recuo em direção ao natural adquirem na segunda seção, “Passos para a transfiguração”, mais um sentido. Cada poema da sequência é acompanhado por um desenho de traços infantis que compõem um boneco – personagem masculina identificada pela crítica1 como Bernardo da Mata – e por uma frase que dialoga com a ilustração e os versos. As figuras, porém, não parecem ter como propósito representar o conteúdo das quadras, o que permite ler o conjunto como uma manifestação de busca por outros modos de expressão.

Como em outros títulos do autor, a imagem poética é construída a partir da aproximação entre elementos dissonantes, o que resulta em combinações que rompem com a lógica regular da linguagem. “Poeta é um ser que lambe as palavras e depois se alucina”, afirma o primeiro poema da terceira seção, “Seis ou treze coisas que aprendi sozinho”, definição que acentua a indeterminação e o mistério, em vez de esclarecer o sentido do termo. A partir de uma série de formulações que não podem ser apreendidas racionalmente, as composições sugerem uma espécie de arte poética: “Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a/ fazer parte dos pássaros que a gorjeiam”, lê-se nesse mesmo conjunto, em versos que parecem ao mesmo tempo apontar para a disseminação da poesia e oferecer uma lição sobre a convivência entre os seres.

É também por meio da sugestão que se faz presente uma das dimensões consideradas fundamentais à poesia do autor, o erotismo. “A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as/ palavras/ Neste coito com letras”, afirma o sujeito de um dos poemas, amalgamando ainda natureza e poesia.

Poemas metalinguísticos se fazem presentes ao longo de todo o livro, em especial na parte intitulada “Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada”, cuja primeira composição está entre as mais conhecidas do autor: “Não tenho bens de acontecimentos./ O que não sei fazer desconto nas palavras”, afirmam os versos iniciais, frequentemente citados como testamento poético. Outras passagens da seção sintetizam também aspectos-chave da poesia de Manoel de Barros: “O sentido normal das palavras não faz bem ao poema”; “Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los”; “Imagens são palavras que nos faltaram”.

Todos esses aspectos convergem para a última parte do livro, “Beija-flor de rodas vermelhas”, que reúne fragmentos não numerados retratando pequenos quadros da natureza. As cenas parecem desenvolver o que afirma um dos versos: “Os adejos mais raros se escondem nos emaranhos”.
A importância conferida a elementos ínfimos ou insignificantes, a valorização do natural em detrimento do urbano, a criação de imagens avessas à lógica da linguagem corrente e a forte presença da metapoesia fazem de O guardador de águas uma síntese dos aspectos fundadores da poética de Manoel.

Notas

1. Melo, Alberto Lopes de. Sujeito, espaço e linguagem na poesia de Manoel de Barros. Tese (Doutorado em História da Literatura), Instituto de Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, 2018, p. 108.

Ficha Técnica da obra O Guardador de Águas:

  • Data de publicação
    • 1989
  • Autores
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (5)

  • BARBOSA, Luiz Henrique. Palavras do chão: um olhar sobre a linguagem adâmica em Manoel de Barros. São Paulo: Annablume/FUMEC, 2003.
  • Carrascoza, João Anzanello. O consumo, o estilo e o precário na poesia de Manoel de Barros. Bakhtiniana, São Paulo, 13 (1): 5-16, Jan./Abril 2018. Disponível em: Acesso em 20 fev. 2019
  • Melo, Alberto Lopes de. Sujeito, espaço e linguagem na poesia de Manoel de Barros. Tese (Doutorado em História da Literatura), Instituto de Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, 2018, 186f.
  • Santos, Suzel Domini dos. Manoel de Barros e a oficina de transfazer natureza. Dissertação (Mestrado em Teoria da Literatura), Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São José do Rio Preto, 2013, 172f.
  • VOGT, Carlos; WALDMAN, Berta. Nelson Rodrigues: flor de obsessão. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 11-32

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • O Guardador de Águas. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70804/o-guardador-de-aguas>. Acesso em: 29 de Nov. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7