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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 18.12.2018
1959
Obra central no conjunto da produção de Antonio Candido (1918-2017), Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos foi sintetizada pelo próprio autor como a “história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura”. Combinando reflexão histórica e estética, analisa o arcadismo e o romantismo brasileiros à luz do objetivo que os auto...

Texto

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Análise

Obra central no conjunto da produção de Antonio Candido (1918-2017), Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos foi sintetizada pelo próprio autor como a “história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura”. Combinando reflexão histórica e estética, analisa o arcadismo e o romantismo brasileiros à luz do objetivo que os autores dessas escolas literárias propuseram a si próprios: “dotar o país de uma literatura”, ou seja, criar uma literatura capaz de participar da constituição do Brasil. 

O ponto de partida é o reconhecimento da “unidade histórica” entre os dois períodos literários, apesar de suas características distintas. Se, em termos estilísticos, as obras românticas buscam o oposto do convencionalismo árcade, “a vocação histórica os aproxima”, argumenta o crítico, pois os movimentos literários, paralelos ao processo de independência do país, constituem “um largo movimento, depois do qual se pode falar em literatura plenamente constituída”. 

A partir desses dois “momentos decisivos”, o crítico constata que a literatura brasileira é marcada pelo “compromisso com a vida nacional no seu conjunto” e adota esse compromisso para a orientação histórica da obra. Em outras palavras: em vez de determinar um momento inaugural da literatura brasileira, propõe investigar quando se constitui a circulação de obras entre autor e público e a consciência que os escritores têm desse sistema e de sua inserção na tradição. 

Os capítulos ligam-se por meio da argumentação levantada. Para demonstrar “como certos elementos da formação nacional […] levam o escritor a escolher e tratar de maneira determinada alguns temas literários”, Candido desenvolve um texto com clareza e livre de teorias abstratas, cunhando os conceitos fundamentais ao andamento argumentativo. O primeiro deles é o de sistema literário – sem o qual não há, para o autor, a literatura de um país, e do qual depende a ideia de tradição.

Para haver sistema literário, é preciso haver leitores entre os quais circulem as obras produzidas pelos autores. Segundo a hipótese de Formação da Literatura Brasileira, isso acontece no Brasil a partir do século XVIII, principalmente com Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), Frei Santa Rita Durão (1722-1784), Basílio da Gama (1741-1795) e Silva Alvarenga (1749-1814), que “tinham a noção mais ou menos definida de que ilustravam o país produzindo literatura”, ao mesmo tempo em que, transitando entre continentes, “levavam à Europa sua mensagem”. Já o cânone começa a se formar com os românticos, que elaboram uma teoria e uma história da literatura brasileira com base na “expressão literária do sentimento pátrio”.

Ainda que Candido afirme ter deliberadamente escolhido a vocação nacionalista como elemento de coerência para a reflexão crítica e a avaliação das obras, uma das principais críticas à Formação da Literatura Brasileira diz respeito ao suposto nacionalismo do autor. Segundo o argumento de Haroldo de Campos (1929-2003), em O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o Caso Gregório de Mattos (1989), o esquema estruturado por Candido, ao criar um “enredo metafísico” cujo ápice está no Romantismo, falha pela incapacidade de incorporar à literatura brasileira um autor tão fundamental, mas estranho ao critério nacional, como Gregório de Mattos (1636-1696)

Para a ensaísta Iná Camargo Costa, porém, não se trata de uma obra historiográfica em sentido estrito, mas de um projeto que procura mostrar o descompasso entre as expectativas dos autores em relação à literatura e as condições de cultura e leitura no país. Nesse sentido, tal seria a pergunta que constitui o ponto de partida do livro: “como explicar que, em país que não se formou, tenha-se formado uma literatura tão relevante que produziu até um escritor do nível de Machado de Assis?”, dado que esse romancista, embora não estudado no livro, é o horizonte crítico de Candido, pois expõe a tradição da qual conscientemente se vale para compor uma obra madura.

Essa tradição implica uma dialética entre localismo e cosmopolitismo, pois o desejo de constituir uma literatura nacional passa pela aclimatação de modelos literários europeus. Nesse sentido, o pensador Paulo Arantes (1942) argumenta que o livro ilumina não apenas a “lógica específica do sistema literário brasileiro”, mas também “a regra geral de certas linhas evolutivas de nossa sociedade” – investigadas a partir das relações entre nacional e estrangeiro em obras que também levam “formação” no título. Por isso, mais que a obra de história literária, o livro de Candido deve ser equiparado a ensaios de interpretação do Brasil, como Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de Caio Prado Jr. (1907-1990), e Formação Econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado (1920-2004). 

Segundo o crítico literário Roberto Schwarz (1938), o processo formativo investigado no livro demonstra “as liberdades e vinculações complicadas da literatura, a qual pode atingir organicidade sem que ocorra o mesmo com a sociedade a que ela corresponde”. Para ele, assim se resume o impacto da publicação do livro em 1959: “A erudição segura, a atualização teórica, a pesquisa volumosa, a exposição equilibrada e elegante, o juízo de gosto bem argumentado, tudo isso estava numa escala inédita entre nós”.

Nesta obra o interesse recai sobre a tarefa de construção do sentimento de nacionalidade que os escritores árcades e românticos colocam para si. Nas  seguintes o autor concentra-se na interpretação literária a partir do conceito de redução estrutural – o modo como a “realidade social historicamente localizada” constitui a ordenação da estrutura da obra. Em Formação da Literatura Brasileira, o romance Memórias de Um Sargento de Milícias (1853), de Manuel Antônio de Almeida (1830-1861), é discutido como caso único na ficção romântica de “senso dos limites e possibilidades de sua arte”. Em O Discurso e a Cidade (1993), no ensaio "Dialética da Malandragem", Candido mostra como o trânsito das personagens dessa obra entre lícito e ilícito é correlato da dialética de ordem e desordem que regula a sociedade brasileira.

Ao legar para o estudo da produção literária brasileira ensaios celebrados, como “Álvares de Azevedo, ou Ariel e Caliban”, Formação da Literatura Brasileira é fruto do inovador método crítico de Antonio Candido, que compreende a literatura como “aspecto orgânico da civilização” e conduz as análises sem abandonar a apreciação estética.

Fontes de pesquisa 10

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  • ARANTES, Paulo. Sentimento da dialética na experiência intelectual brasileira: dialética e dualidade segundo Antonio Candido e Roberto Schwarz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
  • D'INCAO, Maria Angela; SCARABÔTOLO, Eloísa Faria (Orgs.) Dentro do texto, dentro da vida: ensaios sobre Antonio Candido. São Paulo: Editora Companhia das Letras: Instituto Moreira Salles, 1992. p. 33-36
  • DANTAS, Vinicius. Bibliografia de Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades: Editora 34, 2002.
  • JACKSON, Luiz Carlos. Antonio Candido: crítica e sociologia da literatura. In: BOTELHO, André; SCHWARCZ, Lilia Moritz (Orgs.). Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 268-281
  • LAFER, Celso (Org.). Esboço de figura: homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1979.
  • LITERATURA e Sociedade. Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, n. 11, São Paulo, 2009.
  • PINTO, Manuel da Costa. A vida nova de Antonio Candido. Folha de S.Paulo, São Paulo, 12 dez. 2004. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1212200409.htm >. Acesso em 20 maio 2015
  • PÉCORA, Alcir. Polêmica sobre o barroco ficou datada e vã. Folha de S.Paulo, São Paulo, 19 de março de 2011. Ilustrada. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1903201122.htm >. Acesso em 20 maio 2015
  • SCHWARZ, Roberto. Sequências brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  • WAIZBORT, Leopoldo. Esquema (parcial) de Antonio Candido. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 64, p. 177-188, nov. 2002.

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