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Literatura

Cidade de Deus

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.11.2017
1997
Publicado em 1997, Cidade de Deus marca a estreia em prosa do escritor e roteirista Paulo Lins (1958). O romance é fruto da experiência do autor na comunidade de Cidade de Deus como assistente de pesquisa da antropóloga Alba Zaluar (1942), responsável por um estudo sobre a violência na região, e como morador da mesma comunidade. Traça a história...

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Análise

Publicado em 1997, Cidade de Deus marca a estreia em prosa do escritor e roteirista Paulo Lins (1958). O romance é fruto da experiência do autor na comunidade de Cidade de Deus como assistente de pesquisa da antropóloga Alba Zaluar (1942), responsável por um estudo sobre a violência na região, e como morador da mesma comunidade. Traça a história da localidade, desde suas origens, na década de 1964, como conjunto habitacional, à década de 1990, com a consolidação do poder do narcotráfico na região.

Narrado em terceira pessoa, o romance é dividido em três grande capítulos. Em “A História de Inferninho”, relata-se a origem do povoamento de Cidade de Deus, parte da política de remoção de favelas da zona norte da cidade durante o mandato de Carlos Lacerda (1914-1977), governador do estado da Guanabara (atual município do Rio de Janeiro) entre 1960 e 1964. Ao lado de Martelo e Tutuca, Inferninho forma um trio praticante de pequenos furtos no interior da comunidade. Os três pertencem ao grupo mais amplo dos “bichos-soltos”, homens jovens à margem da sociedade, que disputam poder e reconhecimento na favela mediante prática de crimes. Nesse primeiro momento, a criminalidade não conhece organização de poder em torno de uma atividade econômica. Responde a um código moral de relativa preservação e proteção dos moradores e repúdio à corrupta presença policial (os “samangos”) e aos eventuais informantes (o migrante Francisco). A história do trio Ternurinha descreve o romantismo da malandragem e do crime e permite vislumbrar alternativas a ambos. O grupo acaba com a conversão de Martelo à religião evangélica e as mortes de Tutuca, por vingança a um estupro, e de Inferninho, durante fuga da favela, por ação da polícia

No segundo capítulo do romance, “A História de Pardalzinho”, acompanha-se o desenvolvimento da geração de crianças que, naquele primeiro momento, aspiram à valentia e fama dos bichos-soltos. A favela integra-se à economia informal da cidade, mediante o fornecimento de drogas aos filhos da classe média carioca (a “cocotada”). Este é o momento do protagonismo de dois aprendizes de bicho-solto, Inho e Pardalzinho. Companheiros de uma infância de pequenos furtos no centro da cidade, Inho – batizado “Zé Miúdo” por um pai-de-santo – e Pardalzinho compartilham a revolta pela pobreza em que vivem e observam no tráfico de entorpecentes uma alternativa de ascensão econômica. Contribuem para o sucesso deles, a frieza, a ambição e a brutalidade do primeiro e a habilidade social do segundo junto à clientela em busca de prazer e diversão. A dupla protagoniza uma mudança do espaço e da cultura da favela, que se territorializa por causa das disputas comerciais entre traficantes. Abrem caminho para a relação corrupta entre mafiosos e agentes públicos e a institucionalização da violência como forma de preservação da ordem na favela.

A escalada do terror dá o tom da passagem do segundo ao terceiro capítulo, “A História de Zé Miúdo”. Pardalzinho é assassinado a tiros por Butucatu, chefe de uma pequena boca-de-fumo, que queria matar Zé Miúdo. Este último entra em guerra com a concorrência (agora liderada por Cenoura), com a população (representada por Zé Bonito, cuja mulher é estuprada por Miúdo) e o poder público corrupto, interessado na riqueza produzida pelo tráfico. Tem início uma guerra entre grupos, cujo desfecho pulveriza o poder e a violência entre pequenas facções. Zé Bonito morre, Cenoura é preso e Miúdo fica enfraquecido, vitimado pela extorsão policial e, finalmente, pela prisão. Miúdo foge da prisão e tenta retomar o poder na favela ao lado de antigos comparsas, porém, acaba assassinado pelos próprios companheiros.

A obra expõe o conflito urbano na capital fluminense, denuncia a arbitrariedade, a cumplicidade a violência do poder público. Além disso, traz a público a história da formação de uma favela como espaço de exclusão, amparada por pesquisa documental e testemunhal. Nesse sentido, Paulo Lins integra um restrito grupo de escritores, empenhado na elaboração de um discurso literário do ponto de vista dos moradores das periferias de centros urbanos. Integram o grupo autores como Lima Barreto (1881-1922), João Antônio (1937-1996), Carolina Maria de Jesus (1914-1977)  e Ferréz (1975). Em Cidade de Deus, Paulo Lins produz o retrato da favela com base em uma  organização narrativa, que transforma a carreira pontual de três bandidos em fio condutor de uma ação de múltiplos protagonistas e breves histórias, cujo emaranhado heterogêneo materializa a complexa sociedade local. 

As inovações formais, o sucesso de público e a incitação ao debate conferem a Cidade de Deus lugar na literatura nacional. Ao aliar pesquisa material e esforço estético, o romance de Paulo Lins estabelece novo nível de exigência à representação literária dos marginalizados pela sociedade brasileira.

Fontes de pesquisa 5

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  • LINS, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
  • QUITÉRIO, Cesar Takemoto. Cidade de Deus em perspectiva: uma análise do romance de Paulo Lins. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
  • REIS, Luciana Carvalho dos. Falha a fala, fala a bala: trocadilho que delimita fronteiras em Cidade de Deus, romance de Paulo Lins. Recanto das Letras, 5 jul. 2015. Disponível em: < www.recantodasletras.com.br/artigos/5300332 >. Acesso em: 14 nov. 2016.
  • SASSO, Wilson. Cidade de Deus – Os universos do crime e não-crime: do romance ao filme. Tese (Doutorado em Teoria Literária) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2010.
  • SCHWARZ, Roberto. Cidade de Deus. Sequências brasileiras: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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