Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural

Igreja de São Francisco de Assis (Salvador, BA)

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 25.02.2021
1587
O convento da ordem franciscana estabelece-se na Bahia em 1587. Quase um século depois, o conjunto atual de convento e igreja de São Francisco de Assis tem a pedra fundamental lançada, em 20 de dezembro de 1686, na festa de Santo Antônio de Arguim. Os dormitórios dos frades são construídos nas primeiras duas décadas. Em 1 de novembro de 1708, in...

Texto

Abrir módulo

O convento da ordem franciscana estabelece-se na Bahia em 1587. Quase um século depois, o conjunto atual de convento e igreja de São Francisco de Assis tem a pedra fundamental lançada, em 20 de dezembro de 1686, na festa de Santo Antônio de Arguim. Os dormitórios dos frades são construídos nas primeiras duas décadas. Em 1 de novembro de 1708, inicia-se a obra da capela-mor e do corpo da igreja. Mesmo com a edificação incompleta (atinge-se somente a altura dos púlpitos), a igreja é consagrada em 3 de outubro de 1713. Prosseguem as obras sustentadas por doações de populares, e o frontispício do convento é concluído sete anos depois da benção inaugural. A estrutura geral da construção termina em 1723. A partir desta data, a ênfase dos trabalhos é na ornamentação interna, que se estende por um período de quase 40 anos e continua sofrendo alterações ao longo dos séculos, inclusive em restaurações do início do século XX.

A historiadora Maria Helena Ochi Flexor atesta que a “igreja apresenta tanto ornamentos barrocos quanto rococós, e até destaques maneiristas ou neoclássicos”1. Há uma profusão de elementos decorativos: folhas de acanto e parreira, cachos de uva, anjos, querubins, fênix. São representações distintas, convertidas em um conjunto uno, em virtude do material que as reveste e da técnica da qual resultam - a talha dourada.

“São Francisco de Salvador, São Bento do Rio e São Francisco do Porto são as únicas igrejas com três naves, de arte portuguesa, recobertas de talha”, afirma o historiador francês Germain Bazin (1901-1990), que complementa: “O desejo [em Salvador] de rivalizar com São Francisco do Porto naquele empreendimento gigantesco é incontestável. Até influenciou a planta da igreja, única na época, com três naves e transepto”2.

Na capela-mor está o altar-mor, dois altares colaterais - em devoção a Nossa Senhora da Conceição e a Santo Antônio de Lisboa -, e também uma lâmpada de prata de quase dois metros de altura. Assinados por Bartolomeu Antunes de Jesus (1668-1753), e provenientes de Lisboa, os azulejos da capela-mor apresentam passagens da vida de São Francisco.

A igreja contém mais oito altares: dois nas extremidades do transepto - onde esculturas de Nossa Senhora da Glória e São Luís de Toulouse posicionam-se sob dosséis, e por entre colunas salomônicas -, e outros seis em capelas laterais à nave. Frente a essas capelas laterais, há baixas grades torneadas de jacarandá escuro, material que combina com os bancos e contrapõe-se à talha dourada que predomina no corpo da igreja. Destaca-se, também, o púlpito ornamentado com figuras femininas e anjos. Na entrada da igreja, duas colunas de pedra sustentam o coro. Sobre o peitoril do coro está, em um nicho aberto, a imagem de Cristo crucificado, de frente para a rua e de costas para o interior da igreja.

O forro do teto une a talha dourada às duas laterais da nave. Acima da cornija, o forro contém um trecho curvo, ligando cobertura e paredes em um plano único. Tal forro é fragmentado em formas geométricas que emolduram pinturas com características maneiristas. Nelas, estão representadas passagens da vida da Virgem Maria.

O acesso ao convento de São Francisco dá-se pela rua, por meio da portaria. Nela, estão azulejos portugueses com imagens da vida dos monges dos primórdios do catolicismo. Neste espaço, um altar dedicado a São Francisco está posicionado entre as duas portas de entrada ao claustro.

Tendo um generoso pátio interno ao centro, o claustro destaca-se pelos corredores entre os aposentos e a linha de colunas e arcos executados em pedra. Nesses passadiços estão painéis de azulejos portugueses, sem autoria conhecida, apresentando cenas mitológicas. Mais especificamente, como esclarece Frei Hugo Fragoso (1926-2016), a “colocação dos azulejos, no claustro do Convento de São Francisco, foi uma opção intencional dos frades da época [1743-1746], dentro de uma leitura cristã e franciscana da filosofia estoica de Horácio. E foi escolhida, justamente, a edição espanhola dos Emblemas de Horácio, sob o título de Theatro Moral de la Vida [...]. Em vista disso, poder-se-ia chamar esse claustro franciscano de ‘Sermão de Azulejos’, como o denominou Frei Pedro Senzig.”3

Na sacristia, o altar em talha dourada com uma imagem em marfim de Cristo crucificado é ladeado pelos arcazes (grandes arcas para guardar paramentos sacerdotais e cerimoniais) feitos em jacarandá, mesclando elementos de estilos renascentista e barroco. No lado oposto, está o lavabo de pedra com uma imagem de Santo Antônio.

Também dignos de nota são a Sala do Capítulo - com o mesmo exuberante encontro entre talha dourada, azulejos, grandes pinturas, a ornamentação no altar a Nossa Senhora da Saúde e o forro subdivido em caixotões e a Biblioteca. Nesta, as estantes contêm uma ornamentação em talha de características mais próximas ao rococó.

O arqueólogo e pesquisador alemão Carlos Ott (1908-1997) anota que:

Fachadas de igrejas são ideias petrificadas; e a de São Francisco não negava a ideologia franciscana reinante nos seus conventos no século XVIII. Mas ela foi ao mesmo tempo uma das primeiras fachadas de igrejas brasileiras que não copiavam frontispícios de templos portugueses4

Com características renascentistas, a fachada de linhas retas contém duas torres simétricas, concluídas cerca de 1796, com sinos e relógio. De caiamento em branco em sua origem,  os campanários encimados por formas piramidais são azulejados após um século de existência. Na fachada, o estilo barroco é notado somente no frontão de arenito com suas diversas volutas. No largo em frente à igreja de São Francisco está o cruzeiro, ali posicionado desde a primeira década do século XIX. Convém não confundir a Igreja mencionada com a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, situada a seu lado (data).

Notas:

1. FLEXOR, Maria Helena Ochi. Igrejas e conventos da Bahia. Brasília: Iphan/ Programa Documenta, 2010. v.2, p.48.

2. BAZIN, Germain. A Arquitetura religiosa barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1956. v.1, p.300.

3. FRAGOSO, Frei Hugo. Azulejos do Convento de São Francisco. In.: FLEXOR, Maria Helena Ochi; FRAGOSO, Frei Hugo (Org.). Igreja e convento de São Francisco da Bahia. Rio de Janeiro: Versal, 2009. p.338.

4. OTT, Carlos. Igreja e convento de São Francisco. Salvador: Revista Alfa Gráfica Editora, 1988. p.14.

Fontes de pesquisa 8

Abrir módulo
  • BAZIN, Germain. A Arquitetura religiosa barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1956. 2v.
  • FLEXOR, Maria Helena Ochi. Igrejas e conventos da Bahia. Brasília: Iphan : Programa Documenta, 2010. v.2.
  • FLEXOR, Maria Helena Ochi; FRAGOSO, Frei Hugo (Org.). Igreja e convento de São Francisco da Bahia. Rio de Janeiro: Versal, 2009.
  • LIMA DE TOLEDO, Benedito. Esplendor do Barroco Luso-brasileiro. Cotia: Ateliê Editorial, 2012.
  • OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Rococó religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
  • OTT, Carlos. Igreja e Convento de São Francisco. Salvador: Revista Alfa Gráfica Editora, 1988.
  • SINZIG, Frei Pedro. Maravilhas da religião e da arte: egreja e convento de São Francisco da Baía. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1933.
  • TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: