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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Ângela

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.09.2017
1951
Ângela é a terceira produção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, empresa que busca produzir um cinema brasileiro industrial no início dos anos 1950, em São Paulo. Os filmes apresentam qualidade técnica internacional e são financiados pela burguesia paulista. Baseado no conto Sorte no Jogo, do escritor alemão E.T.A. Hoffmann (1776-1822),  Âng...

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Análise

Ângela é a terceira produção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, empresa que busca produzir um cinema brasileiro industrial no início dos anos 1950, em São Paulo. Os filmes apresentam qualidade técnica internacional e são financiados pela burguesia paulista. Baseado no conto Sorte no Jogo, do escritor alemão E.T.A. Hoffmann (1776-1822),  Ângela é um projeto antigo do cineasta Alberto Cavalcanti (1897-1982), produtor geral da companhia. A produção é turbulenta. Cavalcanti tem o contrato rompido pela direção da Vera Cruz durante as filmagens em Pelotas (Rio Grande do Sul) e é afastado. O filme sofre atrasos e o orçamento estoura. O diretor Eros Martim (1919-1973) é substituído por dois diretores: o argentino Tom Payne (1914-1996), em seu segundo longa, e o estreante Abílio Pereira de Almeida (1906-1977). A escolha dos atores pretende formar um elenco de estrelas para a produtora: Eliane Lage (1928), Alberto Ruschel (1918-1996), Mário Sérgio (1929-1981), Ruth de Souza (1930) e a estreia da cantora Inezita Barroso (1925-2015) no cinema.

No longa, o viciado jogador, Gervásio (Abílio Pereira de Almeida), perde no jogo sua última propriedade, a mansão onde vive com a mãe, a esposa doente e a enteada,  Ângela (Eliane Lage). No mesmo dia, a esposa morre. Enquanto a família se prepara para mudar de casa, o vencedor do jogo, Dinarte (Alberto Ruschel), apieda-se de Ângela e permite que a família continue a morar no imóvel. Ele deixa a amante Vanju (Inezita Barroso) e envolve-se com Ângela, que acredita poder regenerá-lo. Traumatizada com o comportamento do padrasto, pede que Dinarte abandone o jogo, e ele atende ao pedido. Vivem felizes por um tempo, mas ele volta a apostar depois do nascimento da filha e perde tudo. Dinarte cogita trocar a esposa pela sorte, que ele personifica em Vanju, com quem nunca perdia.

Ângela repete o dissabor da Vera Cruz para com a aristocracia, já visto no filme anterior Terra é Sempre Terra (1951), de Tom Payne. Em ambos, a aristocracia é decadente, não trabalha e não consegue se sustentar. Em  Ângela, a derrocada é representada pelo jogo, pela sorte. Manter ou não o padrão de vida torna-se questão de sorte para a classe social que perdeu o poder econômico e os privilégios. Tanto Gervásio quanto Dinarte não trabalham nem possuem fonte de renda fixa. Dependem do jogo e da sorte. O filme aponta que não há sorte que perdure para manter uma classe de privilegiados. Como consequência, tudo se vai: propriedades, dignidade, família. Mesmo Dinarte, que faz fortuna no jogo, não consegue fugir da lógica aristocrática. Nesse contexto, o único personagem bem-sucedido financeiramente é o burguês Gennarino [Luciano Salce (1922-1989)], dono da casa de jogos.

O conto original, que tem meandros fantásticos, é adaptado para o interior campesino de Pelotas, longe da urbe industrial. Porém, os valores burgueses são os mesmos por detrás da Vera Cruz: é preciso ser capaz de garantir o próprio sustento, sem qualquer forma de benesse; a lógica modernizante industrial não permite a fidalguia.

Isso fica evidente na cena em que Ângela confronta Dinarte. Depois de ter dado a ele as jóias para penhorar – as mesmas que Gervásio vendeu e Dinarte recuperou no início do filme, dando as bases para o relacionamento com Ângela –, ela clama para que ele  arrume trabalho e cesse o jogo. Ele pede o dinheiro que ela guarda para a educação dos filhos e rouba-o depois de ter o pedido negado. 

O filme inscreve-se no gênero melodrama. Ângela, que mantém postura impassível, não aguenta a derrocada e ingere grande quantidade de um líquido escuro. Nas alucinações, em planos diversos que se fundem com seu rosto depressivo e decepcionado, vê-se presa e vê Dinarte jogando, enquanto ouve da boca da falecida avó: “Há criaturas que até no amor são como os mortos, sempre sós”. Ângela perde a compostura e abandona momentaneamente seu papel de mulher, esposa e mãe, porque Dinarte não consegue manter o dele. Não há mais lugar para aquele tipo de comportamento que desestrutura a família. Dinarte precisa mudar para se redimir e ser novamente aceito no seio familiar.

O filme tem recepção dividida na imprensa. Por um lado, os entusiastas do projeto da Vera Cruz acreditam em seu papel renovador para o cinema brasileiro. É o caso da crítica da revista A Cena Muda, que destaca o trabalho do elenco à época do lançamento: “‘Ângela’, em resumo, como filme nacional, é um dos intentos mais felizes que se fizeram em nossa terra e é a reivindicação da nossa débil cinematografia”1. Para os detratores do modelo, que criticam o alto orçamento, o amadorismo administrativo, a preocupação técnica e o caráter pouco brasileiro e elitista de tais filmes, Ângela representa seus principais problemas. Alex Viany (1918-1992) define o longa como uma “história europeia jogada para os pagos do Rio Grande do Sul”2. Glauber Rocha (1939-1981), por sua vez, vê uma “intenção de temática brasileira”, ainda que o filme seja um “melodrama anticomercial e pretensioso”3.

O entusiasmo inicial com a Vera Cruz e seu projeto de cinema industrial é substituído pelo revisionismo do cinema moderno que permeia a historiografia do período, notadamente por nomes ligados ao Cinema Novo, a exemplo de Alex Viany e Glauber Rocha.

Notas

1 Ângela, A Cena Muda, Rio de Janeiro, v. 32, n. 6, p. 29-30, 7 fev. 1952., p. 30.

2 VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Revan, 1993, p. 103.

3 ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 77-80.

Fontes de pesquisa 15

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  • A CENA Muda. O cinema brasileiro no festival. A Cena Muda, Rio de Janeiro, v. 32, n. 7, p. 3, 14 fev. 1952.
  • A CENA Muda. Ângela. A Cena Muda, Rio de Janeiro, v. 32, n. 6, p. 29-30, 7 fev. 1952.
  • BARRO, Máximo. Caminhos e descaminhos do cinema paulista: a década 50. São Paulo: edição do autor, 1997.
  • GALVÃO, Maria Rita. Burguesia e cinema: o caso Vera Cruz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/Embrafilme, 1981.
  • GALVÃO, Maria Rita. Companhia Cinematográfica Vera Cruz: a fábrica de sonhos: um estudo sobre a produção cinematográfica industrial paulista. Tese (doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de Sâo Paulo, São Paulo, 1975. p. 771.
  • HEIN, Valeria Angeli. O momento Vera Cruz. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes, Campinas, 2003.
  • LAGE, Eliane. Ilhas, veredas e buritis. São Paulo: Brasiliense, 2005.
  • MARTINELLI, Sérgio. Vera Cruz: imagens e história do cinema brasileiro. São Paulo: A Books, 2002.
  • O ESTADO de S.Paulo. Indicações da semana.O Estado de S.Paulo, São Paulo, 16 ago. 1951.
  • O ESTADO de S.Paulo. Sinhá Moça.O Estado de S.Paulo, São Paulo, 17 maio 1953.
  • PROJETO Memória Vera Cruz. São Paulo, MIS e SCES, 1987.
  • RAMOS, Fernão (Org.). História do cinema brasileiro. São Paulo: Art, 1987.
  • REVISTA Zingu! Dossiê Vera Cruz. Revista Zingu!, São Paulo, n. 39, maio 2010.
  • ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
  • VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: MEC: Instituto Nacional do Livro, 1959.

Como citar

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