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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Mulher de Verdade

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 01.03.2021
1955
Mulher de Verdade é o terceiro e último longa-metragem do cineasta Alberto Cavalcanti (1897-1982), realizado no Brasil, nos anos 1950. Após sair da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em 1951, Cavalcanti persiste com o projeto de um cinema industrial paulista. Em 1952, funda a Kino Filmes e compra a estrutura da Cinematográfica Maristela, no Ja...

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Mulher de Verdade é o terceiro e último longa-metragem do cineasta Alberto Cavalcanti (1897-1982), realizado no Brasil, nos anos 1950. Após sair da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em 1951, Cavalcanti persiste com o projeto de um cinema industrial paulista. Em 1952, funda a Kino Filmes e compra a estrutura da Cinematográfica Maristela, no Jaçanã, São Paulo. Para salvar a Kino Filmes da falência, o cineasta organiza uma produção rápida e barata e escolhe um gênero bastante popular, a comédia de costumes. Filmado em 1953, a montagem e a finalização atrasam por falta de verba, e Cavalcanti abandona o processo incompleto, desaprovando o resultado final1.
 
No longa, o malandro Bamba [Colé (1919-2000)] fratura o crânio durante embate com a polícia. No hospital, apaixona-se pela enfermeira Amélia [Inezita Barroso (1925-2015)]. Bamba dá um último golpe para poder largar o crime e desposar a enfermeira: torna-se bombeiro e passa a morar com a esposa em um casebre na periferia. Ela continua a trabalhar no hospital, mas tem que esconder seu matrimônio, pois a direção não admite enfermeiras casadas. No trabalho, é chantageada por um paciente rico, Lauro (Valdo Wanderley), que a pede em casamento. Os horários inusitados de trabalho no hospital permitem que Amélia se case com Lauro. Ela passa a levar vida dupla, tentando equilibrar luxo e amor, porém não consegue manter o disfarce. Após um incêndio na casa grã-fina, Bamba salva-a e o arranjo é descoberto. Amélia vai a julgamento, é condenada a dois anos por bigamia e mantém o relacionamento com Bamba.
 
Em Mulher de Verdade, inspirado na canção “Ai que saudade da Amélia” (1942), de Mário Lago (1911-2002) e Ataulfo Alves (1909-1969), Alberto Cavalcanti opõe duas realidades: a da classe baixa e a da classe alta. Um lado é representado pelo personagem Bamba e seus amigos, e o outro, por Lauro e sua família. Bamba e confraria são inicialmente mostrados como o estereótipo do malandro: pobres, negros em sua maioria, insolentes, amantes do samba, aproveitam-se dos outros e demonstram pouco respeito com os demais. Lauro e família também são representados como estereótipos do burguês agrário e/ou da aristocracia: acomodados, presunçosos, não aceitam ser contrariados e se consideram donos das coisas e das pessoas. No meio dos dois, Amélia. Ela faz a mediação entre os dois mundos, tentando encontrar equilíbrio entre eles. Segundo a pesquisadora Flávia Cesarino Costa, Amélia “utiliza a moral do trabalho para montar sua utopia de convivência de classes. É uma reviravolta que mostra uma personagem ativa”2.
 
Mulher de Verdade, mesmo retratando os estereótipos das duas classes, é muito mais simpático ao personagem de Bamba. Para ele, há regeneração: Amélia consegue mudá-lo, fazê-lo, segundo o filme, uma pessoa melhor. Ela o ensina a ler e a falar sem gírias, insiste para que arranje um emprego, a ponto de se tornar um herói. O que lhe falta em dinheiro não lhe falta em comprometimento. Mesmo o trambique que opera no início do filme, roubar um cachorrinho e coletar a recompensa, é pouco grave e cria empatia com o espectador. Para Lauro, não há o mesmo destino. Prefere viver às custas da tia, sem contrariá-la, engana Amélia e não se importa em perdê-la.
 
Cenas que ilustram esses dois espectros são as que envolvem as acusações e o tribunal, quando Amélia é julgada. Pouco antes de entrar na corte, tia Vivi [Raquel Martins (1912-1974)] fala: “Tudo que entra em minha família é de propriedade minha. A nossa divisa é: 'mau, mas meu’. [...] essa enfermeira [...] é propriedade nossa”. A frase ilustra a lógica com que Cavalcanti vê a burguesia, em crítica explícita e didática. 
 
O longa fracassa nas bilheterias e tem recepção negativa da crítica, visto como filme menor de Alberto Cavalcanti, aquém de suas possibilidades. Van Jafa, por exemplo, em A Noite, aponta que o filme sequer merece apreciação crítica e vê sérios problemas na direção de atores, entre outros: “Tudo muito representado, diga-se de passagem, mal representado. A direção de Cavalcanti não atua nos atores, não contorna a história e agrava tudo de um modo incrível”3. Décio Ottoni Vieira, no Diário Carioca, por sua vez, não acha o filme de todo mal, mas encontra uma série de problemas, em especial no roteiro: “as situações imaginadas para conciliar a vida ambivalente da enfermeira são ingênuas demais, ou muito forçadas, e não conseguem se resolver na base de um mínimo lógico que mesmo as situações de uma farsa exigem”4. Ainda assim, Mulher de Verdade leva os prêmios Saci e Governador do Estado de melhor atriz para Inezita Barroso.
 
O fracasso não afeta Cavalcanti. Na época da estreia, o diretor já havia devolvido a estrutura da Kino Filmes para a Cinematográfica Maristela e preparava, na Áustria, seu filme seguinte, O Sr. Puntilla e seu Criado Matti (1955).

Notas

1 Cavalcanti afirma: “O filme foi muito mal montado, não fui eu que fiz. Quando se chegou à montagem, eu já havia retornado definitivamente à Europa.” Cf. PELLIZZARI, Lorenzo; VALENTINETTI, Claudio M. (Orgs.). Alberto Cavalcanti: pontos sobre o Brasil. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1995, p. 299.

2 COSTA, Flávia Cesarino. Burguesia e malandragem em Mulher de verdade. In: MACHADO JR., Rubens et al. (Orgs.). VII Estudos de cinema e audiovisual SOCINE. São Paulo: Annablume, 2006, p. 412.

3 JAFA, Van. Mulher de Verdade. A Noite, Rio de Janeiro, 16 abr. 1955, p. 5.

4 OTTONI, Décio Vieira. Mulher de Verdade. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 15 abr. 1955, p. 6.

Fontes de pesquisa 15

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  • AZEREDO, Ely. Mulher de Verdade. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 15 abr. 1955. p. 4
  • BARRO, Máximo. Caminhos e descaminhos do cinema paulista: a década 50. São Paulo: edição do autor, 1997.
  • CALDIERI, Sergio. Alberto Cavalcanti: o cineasta do mundo. Rio de Janeiro: Teatral, 2005.
  • CATANI, Afrânio Mendes. A sombra da outra: a Cinematográfica Maristela e o cinema industrial paulista nos anos 1950. São Paulo: Panorama, 2002.
  • COSTA, Flávia Cesarino. Burguesia e malandragem em Mulher de verdade. In: FREIRE, Rafael de Luna. Retrospectiva Cinematográfica Maristela. Rio de Janeiro: Tela Brasilis; Jurubeba Produções, 2011.
  • GALVÃO, Maria Rita. Burguesia e cinema: o caso Vera Cruz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/Embrafilme, 1981.
  • GALVÃO, Maria Rita. Companhia Cinematográfica Vera Cruz: a fábrica de sonhos: um estudo sobre a produção cinematográfica industrial paulista. Tese (doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de Sâo Paulo, São Paulo, 1975. p. 771.
  • JAFA, Van. Mulher de Verdade. A Noite, Rio de Janeiro, 16 abr. 1955. p. 5
  • MACHADO JR., Rubens et al. (Orgs.). VII Estudos de cinema e audiovisual SOCINE. São Paulo: Annablume, 2006.
  • O ESTADO de S.Paulo. Mulher de Verdade. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 12 jul. 1955. p. 6
  • OTTONI, Décio Vieira. Mulher de Verdade. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 15 abr. 1955. p. 6
  • PELLIZZARI, Lorenzo; VALENTINETTI, Claudio M. (Orgs.). Alberto Cavalcanti: pontos sobre o Brasil. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1995.
  • ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
  • VIANA, Moniz. As estrepolias do cineasta. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 mar. 1955. p. 15
  • VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: MEC: Instituto Nacional do Livro, 1959.

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