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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Quarup

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 31.08.2017
1967
Publicado em 1967, o romance Quarup coloca o escritor e jornalista fluminense Antônio Callado (1917-1997) entre os intelectuais brasileiros empenhados na denúncia e no enfrentamento do Golpe Militar de 1964. Transitando entre o romance histórico e o de formação, Quarup narra os dez anos (1954-1964) da “deseducação” de seu protagonista, padre Nan...

Texto

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Análise

Publicado em 1967, o romance Quarup coloca o escritor e jornalista fluminense Antônio Callado (1917-1997) entre os intelectuais brasileiros empenhados na denúncia e no enfrentamento do Golpe Militar de 1964. Transitando entre o romance histórico e o de formação, Quarup narra os dez anos (1954-1964) da “deseducação” de seu protagonista, padre Nando. A narrativa inicia-se com a agitação política que leva ao suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e encerra-se com o Golpe Militar e a  repressão que a ele se segue. Nesse intervalo, desenvolvem-se a  vida, os pensamentos e o contato de Nando com personagens representativas do momento.

No início, Nando, estudante de teologia, vive em um mosteiro de Olinda (Pernambuco). Admira os feitos dos jesuítas nas Missões e deseja reconstituí-las no Alto Xingu, num contexto de decadência do sacerdócio e convívio da Igreja brasileira com as tensões políticas reinantes no país. Fazem referência a este quadro o agitador político Levindo, empenhado na organização dos trabalhadores dos engenhos, e sua namorada Francisca, por quem Nando alimenta um amor espiritualizado. Com a permissão do superior do mosteiro para levar a igreja ao Alto Xingu, Nando segue para o Rio de Janeiro com o objetivo de tratar da documentação. Na então capital federal, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) coloca Nando em contato com um grupo heterogêneo de políticos (ministro Gouveia, homem de confiança de Getúlio Vargas, e seu principal burocrata, Ramiro Castanho) e funcionários do Estado (o comunista Otávio e o sertanista Fontoura), além de mulheres (a secretária Vanda, a dançarina Sônia e a pesquisadora Lídia), que sugerem a frágil emancipação feminina.

A ida de Nando ao Alto Xingu tem dois momentos. No primeiro (1954), o padre vê ruírem suas convicções e fidelidades religiosas mediante o rompimento com o celibato e a frustração de seus projetos sociais ante o reconhecimento das necessidades inerentes à proteção do indígena. No segundo (1961), como servidor do SPI e auxiliar dos sertanistas no apaziguamento de conflitos entre nações indígenas. Nando é peça-chave da expedição que segue pela floresta amazônica para identificar o centro topográfico do país. O projeto traz de volta Francisca ao mundo de Nando. 

Passada a tragédia do assassinato de Levindo (a mando de latifundiários em Pernambuco) e uma temporada de estudos na Alemanha, Francisca vai ao encontro de Nando no Alto Xingu em busca da realização dos projetos sociais do antigo namorado. Concluída a expedição, ambos retornam a Pernambuco com o objetivo de alfabetizar e organizar sindicalmente os trabalhadores rurais; no entanto, o enlace amoroso iniciado no Alto Xingu esbarra no respeito de Francisca à memória e aos projetos de Levindo. O trabalho de ambos adentra o trágico ano de 1964 e termina com a prisão e tortura de Nando e a fuga de Francisca para a Europa. 

Inicia-se, então, a fase final da deseducação de Nando, que se recolhe ao antigo casebre dos pais em Recife para viver dos favores de pescadores e prostitutas e tornar-se seu conselheiro espiritual, ainda desejoso de transformações sociais. Unem-se, aqui, a responsabilidade social e o amor cristão. Para celebrar essa união, Nando promove um jantar em homenagem aos dez anos da morte de Levindo, ao qual convida antigas lideranças camponesas. A celebração termina com a invasão da polícia e o espancamento de Nando, que sobrevive graças a ajuda de seus companheiros. Recuperado, Nando decide engajar-se na luta revolucionária ao lado de antigos companheiros do campo. Para tanto, adota o codinome de Levindo.  

Dividido em sete capítulos, Quarup combina a construção de um panorama épico, calcado na ocupação do território brasileiro, com os conflitos do projeto nacional a ele relacionados. Segundo Marcelo Ridenti, Nando “apresentava uma visão esperançosa e otimista, típica de certos setores sociais intelectualizados nos anos em que foi escrito, sobre as possibilidades de uma revolução brasileira após o golpe de 1964”, além de uma “perspectiva idílica e redentora da futura guerrilha a ser implantada no campo, tida como capaz de levar o conjunto do povo a sua emancipação econômica, política e social”1. A construção do protagonista é marcada pelo contexto político. Nela, equilibram-se a religiosidade de sua formação católica e o compromisso moral por uma sociedade justa.

Ambientes e pensamentos do protagonista (com recurso ora à descrição objetiva, ora ao discurso indireto livre), apresentam esse mundo em conflito. Simbolicamente, o percurso de Nando corresponde ao rito indígena que dá nome ao romance. Quarup é a celebração da origem do mundo e homenagem fúnebre a um chefe morto. O rito se faz presente no momento em que o protagonista reconhece uma cultura que não se submete a utopias da experiência histórica. Este último processo envolve a memória de Levindo. A relação entre o antigo militante e Nando reproduz o ritual indígena. “Maivotsinim criou a raça humana fazendo quarups, com os quais criou os homens [...] que agora faziam quarups para criar Maivotsinim”2. Do mesmo modo, da intervenção política de Levindo no mundo, surgem homens como Nando, aos quais compete recriar a figura do interventor por meio de seus atos. Militante e guerrilheiro, as duas faces de Levindo reúnem uma única ação política, para a qual concorre a consciência individual emancipada de seus agentes. À medida que funde processo político e formação subjetiva na construção do protagonista, Quarup traz importante contribuição ao romance brasileiro do século XX.

Nota

1 RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de Janeiro: Record, 2000. p.100-102

2 CALLADO, Antônio. Quarup. 2 ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1974. p. 187.

Fontes de pesquisa 5

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  • AGAZZI, Giselle Larizzatti. A crise das utopias: a esquerda nos romances de Antônio Callado. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999.
  • AGAZZI, Giselle Larizzatti. Um país emaranhado: o projeto ficcional de Antônio Callado. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo 2004.
  • CALLADO, Antônio. Quarup. 2 ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1974.
  • RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de Janeiro: Record, 2000. 458 p., il. color.
  • VEIGA, Luiz Maria. De armas na mão: personagens-guerrilheiros em romances de Antônio Callado, Pepetela e Luandino Vieira. Tese (Doutorado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.

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