Artigo da seção obras Oscarina

Oscarina

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoOscarina: 1931 | Marques Rebelo
Livro

Análise

Publicada em 1931, a coletânea de contos Oscarina é o volume de estreia do escritor carioca Marques Rebelo (1907-1973). Escritos na década de 1920, os 16 contos marcam o desenvolvimento da prosa brasileira urbana, na esteira de autores como Machado de Assis (1839-1908) e Lima Barreto (1881-1922).

No conto de abertura do livro, “Oscarina”, narra-se o percurso do protagonista Jorge, que passa de jovem funcionário do comércio a cabo do Exército. Nele encontram-se os tipos humanos e os ambientes que caracterizam a prosa de Rebelo. As decisões do protagonista são tomadas diante de sombras existenciais. Filho de um oficial de baixa patente do Exército e uma dona de casa, Jorge transita entre as morosidades suburbanas de uma vida de pequenos confortos e as promessas que a juventude projeta. O caminho de Jorge, porém, é de queda e frustração. Tudo começa quando resolve abandonar os estudos para trabalhar. A expectativa de uma vida confortável revela-se falsa emancipação quando se inicia no cinismo da vida produtiva: “vazia, vagabunda, com maxixes repicados e chorosos em clubes mambembes e noitadas orgíacas na Mère Louise”1. Procura, na possibilidade da união com uma amiga de infância, Zita, os acertos de uma vida conjugal. Para casar, ele precisa de um trabalho melhor remunerado, então, busca um recomeço no exército. Os passos de Jorge, levam-no a outra direção: os rigores do quartel são contornados pelo talento no futebol, que lhe rendem a alcunha “Cabo Gilabert”, em homenagem a conhecido esportista da época. A boa moça do subúrbio dá lugar a uma frequentadora “do mafuá”, Oscarina, mulata carioca. Ao lado dela, Jorge consolida-se moralmente como um malandro, proficiente no trânsito pela hierarquia do exército e dedicado a uma vida de caprichos.

O imobilismo social que está na base da construção do protagonista Jorge propicia a elaboração de outras personagens representativas do subúrbio carioca nas narrativas. É o caso do “tímido que se aterra” do conto “Em Maio”, observador silencioso e poético da vida do bairro, e o ansioso protagonista de “Na Tormenta”, em quem se forma uma agitada vida interior em detrimento da experiência concreta.

Nestes, como em outros casos, a prosa transita entre o lírico, o anedótico e o dramático. Em “Na rua Emerenciana”, por exemplo, o subúrbio traz a nota fúnebre do desamparo de uma viúva que teme pelo futuro dos filhos. Já o veio cômico de Rebelo aparece em historietas de infância (“Caso de Mentira” e “História”) e pelo estudo de personagens, como Dona Quinota (“Uma Senhora”), cuja abnegação em favor da família é suspensa nos dias de carnaval, e o pobre vendedor comissionado de “História da Abelha”, que ganha a ribalta para tratar de um dia difícil.   

Em sua apreciação de Rebelo, Alfredo Bosi (1936) observa um tênue equilíbrio entre a nostalgia inerente à paisagem humana, de um lado, e processos realistas de distanciamento narrativo, de outro. Esses processos permitem ao autor “contar os seus casos da infância e do cotidiano com uma objetividade tal que a ironia e a pena difusas não o arrastariam ao transbordamento romântico”2. O crítico também sublinha a especificidade da zona norte carioca, ocupada por uma classe média antiga e na qual “vegetavam bairros que, se por um lado dependiam dos negócios e da burocracia de um centro” que se modernizava, por outro negavam a integração “no espírito mercantil e cosmopolita da nova cidade”3. No olhar que Rebelo lança ao subúrbio e suas personagens está a conservação de hábitos que dependem da integração ou do isolamento dos protagonistas ao dinamismo da vida urbana. O eixo da coletânea constitui-se dessas personagens e suas experiências prosaicas.

A continuidade da vida brasileira em época marcada por rupturas sociais e renovação estética exige de Rebelo um desenvolvimento técnico particular. Colocando-se com reservas em face ao modernismo paulista, empenhado em uma refundação das artes nacionais, Rebelo conserva o interesse técnico por autores esquecidos pelos modernistas, como Lima Barreto e Machado de Assis. O realismo de ambos é decisivo para que Rebelo mantenha a observação da vida social, por vezes perdida sob os impulsos abstratos do projeto modernista paulista, e renove seus procedimentos. Sua incorporação da linguagem urbana segue caminho diverso: diferentemente do choque proposto pela gramática de Mário de Andrade (1893-1945) ou do hibridismo linguístico dos ítalo-paulistanos de Alcântara Machado (1901-1934), Rebelo envereda por um coloquialismo que remonta à linhagem carioca de Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) a João do Rio (1881-1921). Em sentido contrário, o aproveitamento de técnicas narrativas modernas – como o discurso indireto livre, a construção psicológica das personagens ou a justaposição de episódios em detrimento de linhas de continuidade lógica – permite que a técnica realista recolhida à “raça de escritores cariocas”, segundo Mário de Andrade, ganhe nova roupagem.

Embora seu legado tenha ficado em segundo plano diante de nomes como Graciliano Ramos (1892-1953), Érico Veríssimo (1905-1975) e Jorge Amado (1912-2001), é importante reconhecer na obra de Marques Rebelo a sensibilidade a transformações de longo termo na vida social: a fidelidade a uma tradição realista da prosa brasileira.

Notas

1 REBELO, Marques. Oscarina (nota explicativa de Paulo Mendes de Almeida). São Paulo: Clube do Livro, 1973. p. 25.

2 BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 32 ed. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 410.

3 Idem, ibidem. 

Ficha Técnica da obra Oscarina:

  • Data de publicação
    • 1931
  • Autores
  • Classificação
    • primeiras edições
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (5)

  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 32. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 1994.
  • FREIRE, Manoel; OLIVEIRA, Maria Clediane de. Ordem e desordem: a dialética da malandragem em “Oscarina”. Revista Línguas & Letras – Unioeste, Paraná, v. 15, n. 29, segundo semestre de 2014.
  • REBELO, Marques. Oscarina. São Paulo: Clube do Livro, 1973.
  • SOUZA. Rafael Lima Alves de. Um e outro, nem um nem outro: Rio de Janeiro, tradição e modernismo na literatura de Marques Rebelo. Cordis. Cronistas, Escritores e Literatos, São Paulo, n. 9, p. 117-148, jul./dez. 2012.
  • VASCONCELOS, Érica Araújo. O conto moderno em Oscarina, de Marques Rebelo. Monografia (Licenciatura em Letras) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, 2012. Disponpivel em: < http://bdm.unb.br/bitstream/10483/5513/1/2012_EricaAraujoVasconcelos.pdf >. Acesso em 30 ago. 2017

Como citar?

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  • OSCARINA . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69867/oscarina>. Acesso em: 21 de Jan. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7