Artigo da seção obras Rosa de Ouro

Rosa de Ouro

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoRosa de Ouro: 1965 | Paulinho da Viola / Elton Medeiros / Jair do Cavaquinho / Anescar do Salgueiro / Nelson Sargento
Discografia

Análise

Este disco é resultado do espetáculo homônimo criado, produzido e roteirizado por Hermínio Bello de Carvalho (1935) e dirigido por Kléber Santos, no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro. Rosa de Ouro (1965) marca a retomada da carreira de Aracy Cortes (1904-1985) e inaugura o início da carreira artística de Clementina de Jesus (1902-1987). Além disso, promove os compositores e instrumentistas Paulinho da Viola (1942), Elton Medeiros (1930), Jair do Cavaquinho (1922-2006), Anescarzinho do Salgueiro (1929-2000) e Nelson Sargento (1924). 

O espetáculo estreia em 18 de março de 1965 e permanece sete semanas em cartaz. Segue para São Paulo e Salvador, onde também é recebido com entusiasmo por crítica e público. Assim como Opinião, show inaugurado em dezembro do ano anterior, Rosa de Ouro é fruto da valorização da cultura popular carioca. O resgate dessa cultura inicia-se entre 1963 e 1965, com o sucesso do Zicartola, misto de restaurante e casa de samba comandado pelo compositor Cartola (1908-1980) e por sua esposa, Dona Zica (1913-2003).

“Pela primeira vez alguém (no caso, Kleber Santos e Hermínio Bello de Carvalho) coloca diante do público de classe média um grupo de artistas representativos das canções populares cariocas”, elogia o crítico musical José Ramos Tinhorão (1928) em sua coluna no Diário Carioca. “É uma verdadeira ressurreição da mais genuína música popular brasileira”, escreve o crítico Eurico Nogueira França (1913-1992), no Correio da Manhã.

O dinamismo do roteiro dá ao espetáculo um caráter de documentário. As músicas são intercaladas por depoimentos pré-gravados de personagens da vida musical carioca. Entre eles, os compositores Pixinguinha (1897-1973), Donga (1890-1974) e Carlos Cachaça (1902-1999), os jornalistas e pesquisadores Sérgio Cabral (1937), Lúcio Rangel (1914-1979) e Jota Efegê (1902-1987), a cantora Elizeth Cardoso (1920-1990) e o radialista Almirante (1908-1980). A plateia ouve as vozes dessas pessoas ao mesmo tempo em que fotos são projetadas no palco.

Gravado em junho de 1965, nos estúdios da EMI/ Odeon, o disco Rosa de Ouro não traz tais depoimentos, mas preserva boa parte do repertório apresentado no teatro. Além do elenco original, a versão fonográfica do espetáculo conta com as participações de Carlos Poyares (1928-2004) na flauta, Meira (1909-1982) e Dino Sete Cordas (1918-2006) nos violões, Tião Marinho no contrabaixo, Canhoto (1989-1928) no cavaquinho, Tião e Mário na percussão e Marçal (1902-1947) na cuíca.

O álbum abre com a música-tema, “Rosa de Ouro” (Elton Medeiros/ Paulinho da Viola/ Hermínio Bello de Carvalho). O título remete ao cordão carnavalesco homônimo para o qual a maestrina Chiquinha Gonzaga (1847-1935) compõe a marcha “Ó Abre Alas”, em 1899. A interpretação fica por conta do conjunto vocal-instrumental também batizado de Rosa de Ouro. Os integrantes apresentam seus currículos no samba seguinte, “Quatro Crioulos” (Elton Medeiros/ Joacyr Santana):

 

São quatro crioulos inteligentes,

Rapazes muito decentes 

Fazendo inveja a muita gente. 

Muito bem empregados numa secretaria, 

Educados e diplomados em Filosofia. 

 

Embora conhecidos no cenário do samba, não vivem exclusivamente de música. Elton Medeiros é funcionário público; Anescarzinho do Salgueiro, operário de fábrica de tecidos; Jair do Cavaquinho, servente; e Paulinho da Viola, bancário. Ás vésperas da estreia, Hermínio convida o compositor Nelson Sargento (pintor de paredes) para participar do espetáculo. Sem tempo para ensaiar ou criar outra música de apresentação, mantém-se o samba que menciona "quatro crioulos", embora a formação do conjunto tenha cinco integrantes. O "erro" repete-se no disco.

Após o bloco inicial de músicas, que traz ainda os sambas “Dona Carola” (Nelson Cavaquinho / Nourival Bahia / Walto Feitosa) e “Pam, Pam, Pam” [Paulo da Portela (1901-1949)], o conjunto interpreta a marcha-rancho “Senhora Rainha”, com letra de Hermínio para música de um de seus ídolos, Heitor Villa-Lobos (1887-1959). De certa forma, os versos anunciam ao ouvinte o que vem a seguir: "Nós viemos colher/ E depois ofertar/ Uma rosa de ouro a você".

Na sequência, surge a veterana Aracy Cortes. Há tempos afastada dos palcos e estúdios, a estrela do teatro de revista das décadas de 1920 e 1930, reaparece aos 64 anos para entoar um de seus sucessos, o samba-canção, “Linda flor (Ai Ioiô)” [Henrique Vogeler (1888-1944) / Luiz Peixoto (1889-1973) / Marques Porto (1870-1910)]. Exibindo força e graça, a interpretação é segura e demostra grande virtuosismo. Em “Os Rouxinóis” [Lamartine Babo (1904-1963)], ela alcança as notas mais agudas com naturalidade e brinca com as divisões rítmicas de “Jura” [Sinhô (1888-1930)].

Em seguida, o conjunto Rosa de Ouro apresenta um bloco musical de andamento mais rápido, com sambas de Geraldo Pereira (1918-1955), Zé da Zilda (1908-1954) e Ismael Silva (1905-1978). O ritmo se intensifica e ganha a marcação do partido-alto, com os artistas improvisando versos para “Sobrado Dobrado” (Nelson Cavaquinho / César Brasil / Antônio Braga) e emendando com o chamado “Clementina, Cadê Você?” (Elton Medeiros): "Estrela D’Alva no céu/ Parece estar anunciando/ Clementina de Jesus/ Nesta roda vem chegando".

De repente, faz-se silêncio e os tambores soam para acompanhar a ex-empregada doméstica que, aos 64 anos, faz sua estreia discográfica. Com uma voz potente e rascante, Clementina surpreende pelo estilo único da interpretação e pelo ineditismo do repertório. Em Rosa de Ouro, é possível ouvir alguns dos temas de raízes afro-brasileiras (a maioria de tradição folclórica) que consagram a artista na história da música brasileira, entre eles, “Benguelê” [Pixinguinha/ Gastão Viana (1900-1959)], “Siá Maria Rebôlo” e “Bate Canela” (domínio público).

"É, sem favor, o melhor disco de música popular brasileira do ano", opina o crítico Claribalte Passos (1923-1986), no jornal Correio da Manhã. Em 1967, o espetáculo volta a ser apresentado no Teatro Jovem, com o mesmo elenco e repertório musical renovado. Rosa de Ouro n. 2 também ganha versão discográfica. Em 1975, os dois álbuns são lançados em edição comemorativa em LP e, em 1993, saem no formato CD. 

 

Faixas

1. Rosa de Ouro

(Hermínio Bello de Carvalho/ Paulinho da Viola / Élton Medeiros)

Quatro Crioulos

(Élton Medeiros / Joacyr Santana)

Dona Carola

(Nelson Cavaquinho / Nourival Bahia / Walto Feitosa)

Pam, Pam, Pam

(Paulo da Portela)

2. Senhora Rainha

(Villa-Lobos / Hermínio Bello de Carvalho)

3. Linda Flor (Ai Ioiô)

(Henrique Vogeler / Luis Peixoto / Marques Porto / Cândido da Costa)

4. Os Rouxinóis

(Lamartine Babo)

5. Jura

(Sinhô)

6. Escurinho

 (Geraldo Pereira)

Se Eu Pudesse

(Zé da Zilda / Germano Augusto)

Nem É Bom Falar

(Francisco Alves / Nilton Bastos / Ismael Silva)

7. Sobrado Dourado

(César Brasil / Nelson Cavaquinho / Antônio Braga)

Clementina, Cadê Você?

(Élton Medeiros)

Benguelê

(Pixinguinha / Gastão Viana)

Boi Não Berra

(Tradicional)

Siá Maria Rebôlo

(Tradicional)

Maparaêma

(Tradicional)

8. Nasceste de Uma Semente

(José Ramos)

9. Bate Canela

(Tradicional)

10. Semente do Samba

(Hélio Cabral)

11. Rosa de Ouro

(Hermínio Bello de Carvalho / Paulinho da Viola / Élton Medeiros)

Ficha Técnica da obra Rosa de Ouro:

Fontes de pesquisa (4)

  • FRIAS, Lena. Clementina de Jesus: uma nova estética. In: Clementina de Jesus - 100 anos. Odeon/ Petrobras, 2001.
  • INSTITUTO Memória Musical Brasileira. Disponível em: http://www.memoriamusical.com.br. Acesso em: 19 abr. 2014.
  • PAVAN, Alexandre. Timoneiro: perfil biográfico de Hermínio Bello de Carvalho. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2006.
  • RUIZ, Roberto. Araci Cortes: linda flor. Rio de Janeiro: Funarte, 1984.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ROSA de Ouro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69767/rosa-de-ouro>. Acesso em: 08 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7