Artigo da seção obras Foi um Rio que Passou em Minha Vida

Foi um Rio que Passou em Minha Vida

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoFoi um Rio que Passou em Minha Vida: 1969 | Paulinho da Viola
Obra musical

Análise

O surgimento dessa que é uma das principais músicas de exaltação à escola de samba Portela está diretamente relacionado a uma canção em homenagem à Mangueira. Em 1968, durante uma visita à casa do poeta e produtor Hermínio Bello de Carvalho (1935), Paulinho da Viola (1942) encontra sobre a mesa de trabalho do parceiro quatro letras de música que o amigo mangueirense acabara de escrever pensando em usá-las num futuro projeto de espetáculo em homenagem à sua escola do coração. Paulinho se interessa por um dos textos, na mesma hora, compõe a melodia de Sei Lá, Mangueira (Paulinho da Viola/Hermínio Bello de Carvalho): "Vista assim do alto / Mais parece o céu no chão / Sei lá, não sei / Em Mangueira, a poesia / Feito um mar, se alastrou".

O show planejado acaba não saindo e, algum tempo depois, Carvalho inscreve a canção, juntamente com outras de sua safra recente, no 4º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record. Quando a lista de concorrentes é anunciada oficialmente, o portelense Paulinho toma um susto, porque, além de não ter sido consultado pelo parceiro para a inscrição, se vê na incômoda situação de ter que disputar um festival com um samba exaltando a rival verde-e-rosa. Naquele momento, o envolvimento de Paulinho com a Portela é intenso, apesar de relativamente recente.

Levado à escola, em 1963, pelo diretor de bateria Oscar Bigode, Paulinho causa boa impressão logo no primeiro encontro com os integrantes da azul-e-branco de Oswaldo Cruz, ao firmar parceria com cantor e compositor Casquinha (1922) no samba Recado ("Leva o recado / A quem lhe deu tanto dissabor"). Três anos depois, a Portela é campeã do Carnaval ao desfilar com o samba-enredo Memórias de um Sargento de Milícias, de autoria de Paulinho, que logo é alçado ao cargo de presidente da ala de compositores.

Preocupado em não desagradar os portelenses, Paulinho tenta de todas as formas excluir Sei Lá, Mangueira do festival da TV Record, mas não consegue convencer os organizadores. Defendido com sucesso por Elza Soares (1937), o samba chega à fase final e garante à cantora o prêmio de melhor intérprete da competição.

O episódio faz Paulinho sentir-se em dívida com a Portela, embora nunca tenha sido questionado ou sofrido qualquer tipo de represália por parte dos dirigentes e dos colegas mais próximos. Cerca de um ano mais tarde, saindo da gravadora Odeon, o artista passa por uma livraria na rua México e vê exposto na vitrine Por Onde Andou Meu Coração (Editora José Olympio, 1967), livro de memórias da escritora Maria Helena Cardoso (1903 - 1994) que ele lera recentemente. O título da obra leva seus pensamentos para a Portela e, enquanto caminha sozinho pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, começa a criar os versos de Foi um Rio que Passou em Minha Vida. Eis a letra completa:

“Se um dia meu coração for consultado

Para saber se andou errado

Será difícil negar

Meu coração tem mania de amor

Amor não é fácil de achar

A marca dos meus desenganos ficou, ficou

Só um amor pode apagar

A marca dos meus desenganos ficou, ficou

Só um amor pode apagar

Porém (ai, porém), há um caso diferente

Que marcou num breve tempo

Meu coração para sempre

Era dia de carnaval

Carregava uma tristeza

Não pensava em novo amor

Quando alguém, que não me lembro, anunciou

Portela! Portela!

O samba trazendo alvorada

Meu coração conquistou

 

Ai, minha Portela

Quando vi você passar

Senti meu coração apressado

Todo o meu corpo tomado

Minha alegria voltar

Não posso definir aquele azul

Não era do céu nem era do mar

Foi um rio que passou em minha vida

E o meu coração se deixou levar

Foi um rio que passou em minha vida

E meu coração se deixou levar

Foi um rio que passou em minha vida/

E meu coração se deixou levar”.

Apesar de ser uma composição extensa, com mais de trinta versos, ela cai rapidamente no gosto dos portelenses quando é lançada no terreiro da escola. Em 1969, a música chega aos demais ouvintes gravada num compacto duplo que traz ainda outra canção emblemática: Sinal Fechado. Ambas se tornam sucesso imediato e consagram seu autor diante de público e crítica. No ano seguinte, Foi um Rio que Passou em Minha Vida dá nome ao segundo LP de Paulinho na gravadora Odeon.

A canção é um canto de amor e fidelidade à Portela, com uma estrutura de samba-enredo e sem a repetição de frases melódicas. Apesar de nunca ter embalado a escola durante um desfile de Carnaval, ainda hoje costuma ser entoada pelos passistas que se preparam para entrar na avenida com a azul-e-branco.  

Somente no ano de 1970, a música ganha mais de uma dezena de outras gravações, na interpretação de cantores como Jair Rodrigues (1939 - 2014), Elizeth Cardoso (1920 - 1990) e Nelson Gonçalves (1919-1998), ou em versões instrumentais a cargo da Orquestra de Sylvio Mazzuca e do Milton Banana Trio.

Um dos destaques do registro original é a presença do ritmista portelense Jorge Meira cantando o “ai porém”. A gravação lhe confere tal notoriedade que, a partir de então, ele passa a ser conhecido como Jorge Porém. Mesmo sob a direção musical de Lyrio Panicali (1906 - 1984) e com arranjo assinado por outro importante maestro, Lindolpho Gaya (1921 - 1987), Foi um Rio que Passou em Minha Vida não tem nenhuma orquestração, investindo unicamente no instrumental do samba, com violões, cavaquinho e percussão.

Também chama atenção o coro que acompanha Paulinho durante toda a música. Embora o encarte do LP não mencione os nomes dos músicos participantes, trata-se de um conjunto vocal formado por compositores e pastoras da agremiação de Oswaldo Cruz. De certa maneira, a presença dos componentes do coro já anuncia o álbum Portela Passado de Glória (RGE), que Paulinho produz em 1970, marcando a estreia em disco da velha guarda da Portela.

Aos 28 anos, com Foi um Rio que Passou em Minha Vida e o LP da velha guarda, o compositor se insere definitivamente na história de sua escola do coração. 

Ficha Técnica da obra Foi um Rio que Passou em Minha Vida:

Fontes de pesquisa (6)

  • MÁXIMO, João. Paulinho da Viola: sambista e chorão. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Rioarte, 2002.
  • PAULINHO DA VIOLA. Foi um rio que passou em minha vida. LP Odeon, 1970.
  • PAULINHO DA VIOLA. Nova história da música popular brasileira. 2ª edição. Abril Cultural, 1977.
  • PAVAN, Alexandre. Timoneiro: perfil biográfico de Hermínio Bello de Carvalho. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2006.
  • SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo (volume 2: 1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998.
  • VÁRIOS AUTORES. Foi um rio que passou em minha vida. In: Bravo! Especial, São Paulo, 2008. p. 60

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • FOI um Rio que Passou em Minha Vida. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69220/foi-um-rio-que-passou-em-minha-vida>. Acesso em: 23 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7