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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Berimbau

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.02.2017
1963
Baden Powell (1937 - 2000) e Vinicius de Moraes (1913 - 1980) se conhecem em 1960. Nesse momento, o violonista Powell é um jovem talento de pouco mais de 20 anos e busca seu espaço no cenário artístico atuando como músico acompanhante e compositor em início de carreira. O maior sucesso de seu repertório é Samba Triste, uma parceria recente com B...

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Histórico

Baden Powell (1937 - 2000) e Vinicius de Moraes (1913 - 1980) se conhecem em 1960. Nesse momento, o violonista Powell é um jovem talento de pouco mais de 20 anos e busca seu espaço no cenário artístico atuando como músico acompanhante e compositor em início de carreira. O maior sucesso de seu repertório é Samba Triste, uma parceria recente com Billy Blanco (1924 - 2011). Vinicius, por sua vez, se aproxima dos 50 anos, é uma celebridade da cultura brasileira, reconhecido como diplomata, poeta e compositor-chave da bossa nova. Ao ouvir Baden tocar na boate Arpège, no Leme, Rio de Janeiro, Vinicius fica impressionado e sugere que marquem um encontro de trabalho. Após três tentativas frustradas, às quais Baden falta e deixa Vinicius esperando, os dois finalmente fazem a reunião no bar do Hotel Miramar, o que resulta nas primeiras parcerias da dupla: Canção de Ninar Meu Bem e Sonho de Amor e Paz.

Em seguida, os encontros passam a acontecer num amplo apartamento no Parque Guinle, onde Vinicius vive com Lucinha Proença, sua esposa na época. Como seus principais parceiros – Tom Jobim (1927 - 1994) e Carlos Lyra (1939) – não são grandes adeptos da boemia, Vinicius descobre em Baden não apenas um novo aliado musical mas um companheiro de farra e de copo. A bebida já fazia parte da vida do violonista, porém seu repertório, que era restrito a cerveja e cachaça, é ampliado com a descoberta do uísque escocês da generosa adega do poeta. Outra característica de Baden que atrai Vinicius são as raízes suburbanas do parceiro, formado nas rodas de samba e choro, e ligado ao batuque e à malandragem dos morros.   

As noites musicais no Parque Guinle são intermináveis, com a dupla compondo freneticamente de maneira inspirada, sem descanso, um período em que Baden fica três meses sem voltar para casa e passa a viver no apartamento de Vinicius. Novas músicas nasciam à medida que as garrafas iam se esvaziando. De acordo com a jornalista Dominique Dreyfus, biógrafa do violonista, a dupla compõe metade do seu repertório nessa temporada. São desse momento, entre outras, Samba em Prelúdio e Tem Dó.  Ao mesmo tempo que criam sambas rasgados ou românticos, eles produzem um conjunto de canções vigorosas, impregnadas de negritude e misticismo, a exemplo de Canto de Xangô e Canto de Ossanha. Essa série de composições ficaria conhecida como afro-sambas.

Apesar de ter sido criado no catolicismo, Baden tem familiaridade com as religiões afro-brasileiras. Essa influência cultural pode ser notada em Canto de Iemanjá. A canção fora composta ainda nos anos 1950 para receber letra de Dolores Duran (1930 - 1959), porém o projeto é interrompido pela morte prematura da artista. E o trabalho de escrever os versos fica sob a responsabilidade de Vinicius, na temporada do Parque Guinle.

Nessa época, o poeta recebe de presente de seu amigo Carlos Coqueijo (1924 - 1988), músico e jurista baiano, um disco com temas folclóricos, pontos de macumba, sambas de roda e toques de capoeira. Os parceiros interrompiam o trabalho de composição para ouvir aquele álbum, que acaba sendo uma fundamental fonte de referência e inspiração para ambos. Outro fator decisivo é que Baden vinha tendo aulas de composição com o pernambucano Moacir Santos (1926 - 2006), maestro e instrumentista cuja obra contém forte sonoridade afro. Algumas das canções criadas pelo aluno Baden, logo letradas por Vinicius, surgem com base em  exercícios de teoria e prática musical passados pelo professor Santos.

Em 1962, em sua primeira viagem à Bahia, Powell vai para Salvador como integrante de um show da cantora Sylvia Telles (1934 - 1966). Ali, fica amigo do famoso mestre de capoeira Washington Bruno da Silva, o Canjiquinha (1925 - 1994), com quem tem a oportunidade de conhecer mais sobre a cultura afro-brasileira, especialmente em suas manifestações musicais.

A capoeira é uma das inúmeras contribuições dos bantos trazidos escravizados ao Brasil. Técnica corporal de ataque e defesa, expressa-se por meio de uma simulação de dança, executada ao som de cânticos tradicionais e percussão. Seu instrumento característico, no entanto, é o berimbau, que consiste numa vara de madeira vergada por um fio de arame estirado em cada uma das pontas e com a metade de uma cabaça aderente ao arco. De pé e com a cabaça colocada junto à barriga, o tocador segura o instrumento com uma das mãos, enquanto, com a outra, balança um chocalho e percute a corda de arame usando uma vareta.

A viagem à Bahia e o encontro com Canjiquinha, que o leva a conhecer terreiros de candomblé e rodas de capoeira, inspiram Baden a compor Berimbau, na qual ele reproduz com perfeição as harmonias do canto de capoeira e o som monocórdico do instrumento. A contribuição de Vinicius de Moraes mescla versos ideológicos (“O dinheiro de quem não dá / É o trabalho de quem não tem”), com um refrão vibrante. Eis a letra:

“Quem é homem de bem não trai

O amor que lhe quer seu bem

Quem diz muito que vai, não vai

E assim como não vai, não vem

Quem de dentro de si não sai

Vai morrer sem amar ninguém

O dinheiro de quem não dá

É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom, não cai

E se um dia ele cai, cai bem!

Capoeira me mandou

Dizer que já chegou

Chegou para lutar

Berimbau me confirmou

Vai ter briga de amor

Tristeza, camará”.

A canção é lançada no LP Vinicius & Odette Lara (Elenco, 1963), com arranjos e regência assinados por Moacir Santos. Somente nos dois anos seguintes, Berimbau ganha mais de três dezenas de outros registros, na voz de cantores como Nara Leão (1942 - 1989), Cauby Peixoto (1931) e Peri Ribeiro (1937 - 2012), mas principalmente pelos trios instrumentais que proliferam na época, entre os quais, Tamba Trio, Zimbo Trio e 3-D.

Talvez essa enxurrada de gravações anteriores explique o fato de a música ter ficado de fora do LP Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius, álbum mais importante da parceria, lançado em 1966. Mesmo sendo um autêntico afro-samba, Berimbau, Consolação e Labareda não constam do repertório, que parece ter priorizado as demais canções da série, então inéditas ou menos conhecidas.

Em 1990, Powell regrava o conjunto completo dessas composições, incluindo as duas desgarradas, no LP Os Afro-Sambas, relançado no formato CD, em 2008. 

Fontes de pesquisa 4

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  • COHN, Sergio; CAMPOS, Simone. Vinicius de Moraes – encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2007.
  • DREYFUS, Dominique. O violão vadio de Baden Powell. São Paulo: Editora 34, 1999.
  • LOPES, Nei. Enciclopédia brasileira da diáspora africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 2: 1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. (Coleção Ouvido Musical).

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