Artigo da seção obras Elis & Tom

Elis & Tom

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoElis & Tom: 1974 | Vinicius de Moraes

Análise

Elis & Tom é um LP de 1974, que reúne a cantora Elis Regina (1945-1982) e o compositor Tom Jobim (1927-1994). O repertório inclui 14 faixas, todas de autoria de Tom Jobim, nove em parceria com outros compositores. O lançamento marca os dez anos de Elis na Philips, e resulta de uma oferta da gravadora  para celebrar a data. Cesar Camargo Mariano (1943), marido e arranjador de Elis à época, conta que eles ouvem frequentemente o disco Por Toda Minha Vida (1959), da cantora Lenita Bruno (1926-1987), e todo repertório com composições de Tom Jobim e Vinicius de Moraes (1913-1980). Inspirados nele, o casal cultiva o sonho de fazer um LP só com músicas de Tom Jobim. Elis aproveita a oferta de André Midani (1932), executivo da indústria fonográfica, para concretizar a ideia. Escreve no encarte do disco:

Nos meus dez anos de gravadora, ganhei de presente um encontro com Tom. Foram momentos vividos por duas pessoas muito tensas, que só conseguem se descontrair através da música. Ficou a saudade de um passado recente, em que as cores eram outras e as pessoas mais felizes.

A tensão mencionada marca os bastidores da gravação, em Los Angeles, entre fevereiro e março de 1974. Elis e Cesar ficam apreensivos com a receptividade de Tom, já considerado o maior compositor brasileiro. Ele se incomoda com vários aspectos do projeto: a escolha de Cesar como arranjador, a participação dos músicos que acompanham Elis à época e o uso de instrumentos elétricos (guitarra, baixo e piano). Entre os músicos, além de Cesar como pianista, há o baixista Luiz Alves (1944), o baterista Paulinho Braga e o guitarrista Hélio Delmiro (1947). O compositor, inclusive, tenta envolver produtores com quem trabalha no período, como o alemão Claus Ogerman (1930) e o norte-americano Dave Grusin (1934). Com a intermediação do produtor Aloysio de Oliveira (1914-1995), Tom aceita as condições de gravação sugeridas por Elis e Cesar, convencido de que o disco é um projeto da carreira de Elis e que Cesar é o produtor dela desde 1970.

No dia seguinte ao consentimento de Tom, Aloysio Oliveira e Cesar Camargo Mariano saem à procura de um estúdio para gravar, mas têm dificuldades de encontrar algum que disponha de horários e preços compatíveis com o projeto. Conseguem negociar com a MGM Records e a gravação acontece vinte dias depois do acerto, período em que Cesar Camargo Mariano desenvolve os arranjos.

O disco é gravado em dois dias. No primeiro, são gravados a voz de Elis, o piano de Tom e um naipe de cordas e flautas regido pelo norte-americano Bill Hitchcock. No seguinte, gravam o violão, tocado por Oscar Castro Neves (1940-2013), a bateria e a parte elétrica por Tom, guitarra, baixo e piano.

O produto final de Elis & Tom esconde qualquer tensão. Elis sorri na fotografia que ilustra a capa. Tanto a cantora como o compositor também estão totalmente descontraídos no clipe Águas de Março. O clipe é filmado por Roberto Oliveira, que registra em filme o processo de gravação e faz um programa especial sobre o disco para a TV Bandeirantes. A primeira faixa, é cantada em dueto e contrapõe a interpretação precisa de Elis Regina com o timbre grave e sem grande extensão de Tom. O arranjo difere das versões anteriores da própria Elis (LP Elis, 1972), do próprio Tom (em compacto, de 1972, e no LP Matita Perê, de 1973) e de João Gilberto (1931) (LP João Gilberto, 1973), todas estas versões cantadas por uma única voz. No fim da gravação, os dois cantam os versos da letra com improvisos e sílabas cortadas.

No resto do repertório, Elis canta sozinha a maioria das faixas, excetuando “Inútil Paisagem” (parceria com Aloysio de Oliveira), “Soneto da Separação” e “Corcovado”. Tom, além de tocar em todas as faixas, assina os arranjos de “Soneto da Separação” e “Modinha” (ambas em parceria com Vinicius de Moraes).

Elis & Tom entra para a história como o encontro entre o maior compositor e a maior cantora brasileiros à época. Elis surge em 1961 e consolida-se com um estilo vocal forte, que se contrapõe ao canto contido difundido pela bossa nova de Tom Jobim. A aproximação com o gênero se dá quando a cantora destaca-se no Beco das Garrafas, local que é marco na história bossanovista.  Elis & Tom, sobretudo sua versão para “Corcovado”, mostra um repertório que vai além da bossa nova e registra um momento mais versátil de Tom Jobim como compositor. “Retrato em Branco e Preto” [parceria com Chico Buarque (1944)], “Soneto da Separação” e “Chovendo na Roseira” são canções que não se enquadram no rótulo de bossa nova. Essa expansão já é notada no disco Matita Perê (1973).

Em 2004, em comemoração aos 30 anos do disco, a gravadora Trama [presidida por um dos filhos de Elis, João Marcello Bôscoli (1970)] lança uma nova versão remixada sob supervisão de Cesar Camargo Mariano. O lançamento traz sobras de estúdio, como um diálogo que precede “Soneto da Separação”, no qual Elis comenta já ter fumado um maço inteiro de cigarros e Tom sugere que ela use a piteira dada por ele.

Ficha Técnica da obra Elis & Tom:

Fontes de pesquisa (8)

  • GAVIN, Charles; SOUZA, Tárik de; CALADO, Carlos; DAPIEVE, Arthur. 300 Discos Importantes da Música Brasileira. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 2008.
  • SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, v. 2: 1958-1985. São Paulo: Editora 34, 1998. (Ouvido Musical).
  • DUTRA, Maria Helena. Volta ao palco. Veja, 2 out. 1974.
  • ECHEVERRIA, Regina. Furacão Elis (versão atualizada). Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
  • LANCELLOTTI, Sílvio. Quero apenas cantar. Veja, São Paulo, 1 maio 1974.
  • MARIANO, Cesar Camargo. Solo. São Paulo: Leya, 2011.
  • SANCHEZ, Pedro Alexandre. Só tinha de ser com você. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 ago. 2004.
  • ZWETSCH, Ramiro. A cantora birrenta, o maestro de pijama & a história de um grande disco. Jornal da Tarde, São Paulo, 25 ago. 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ELIS & Tom. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69197/elis-tom>. Acesso em: 15 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7