Artigo da seção obras Acabou Chorare

Acabou Chorare

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoAcabou Chorare: 1972 | Assis Valente / Moraes Moreira / Pepeu Gomes

Análise

Acabou Chorare é o segundo LP do grupo Novos Baianos, lançado pela gravadora Som Livre em 1972. Se os primeiros discos da banda não tiveram grande impacto, este impulsionou o grupo de jovens baianos na música nacional. O título do disco está relacionado a um episódio doméstico, ocorrido no México, entre João Gilberto (1931) e sua filha Bebel (1966), que teria caído e começado a chorar. Ao perceber o pai preocupado em socorrê-la, exclamou, embaralhando português e espanhol, “acabou chorare”. O fato mais importante é que o disco revela as relações de João Gilberto com os jovens músicos baianos. Elas se iniciam com a mudança do grupo para a cidade do Rio de Janeiro, no início dos anos 1970, quando encontram o músico e são influenciados por ele. Saídos da Bahia e ainda sob  a influência do rock, João Gilberto sugere que dediquem mais atenção à música brasileira. Escolhem para o álbum a canção “Brasil Pandeiro”, do compositor baiano Assis Valente (1911-1958). Trata-se de um samba lançado em 1941, pelo conjunto vocal Anjos do Inferno, cuja a letra exalta as qualidades do povo brasileiro e do samba. Porém, a introdução que diz “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valoré interpretada como um manifesto do novo grupo no cenário musical,uma autorreferência.

Exceto o samba de Assis Valente, todas as outras canções são compostas pela dupla Luiz Galvão (1937) e Moraes Moreira (1947). O compositor Pepeu Gomes (1952) participa em “Besta É Tu”, e Paulinho Boca de Cantor (1946), em “Swing de Campo Grande”. Os arranjos são de responsabilidade de outra dupla: Moraes Moreira e Pepeu Gomes. Apesar do perfil autoral destas duas duplas, o disco é de participação coletiva. Essa condição está representada, por exemplo, na foto de abertura da capa: uma mesa de madeira mostrando pratos, talheres e panelas, farinha, simbolizando a "mistura" musical e o espírito comunitário do grupo. Na verdade, essas atitudes são características de parte da juventude no início dos anos 1970 e assumidas pelos Novos Baianos. Eles moram juntos em uma cobertura no bairro de Botafogo e mudam-se para um sítio em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. Assim, participam ativamente da concepção e da construção do disco. O grupo todo é composto por: Baby Consuelo (1952), Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Luiz Galvão, além de Jorginho Gomes, José Roberto (1952-2003) e Dadi Carvalho (1952), que mais tarde formaria o conjunto A cor do som.

Aproximando as origens roqueiras do grupo às influências de João Gilberto, o LP revela uma curiosa fusão de gêneros. Torna-se, assim, uma referência para quem quisesse se libertar da rigidez dos estilos musicais. Não é só a combinação com o samba que se destaca no disco. Ele apresenta, também, uma criativa interlocução entre o som eletrificado do rock e a concepção acústica da bossa nova. O diálogo que se estabelece entre a guitarra Pepeu Gomes e a batida bossa-novista do violão de Moraes Moreira é revelador. Além disso, o grupo utiliza de maneira recorrente o cavaquinho, o bandolim, o violão de sete cordas e tenor, instrumentos típicos do choro. Eletrificam alguns e reavivam o interesse dos jovens por eles, uma vez que se tratam de “instrumentos tradicionais”. Já a percussão apresenta instrumentos de origem africana e indígena (afoxé, maracá, chocalho, pandeiro e triângulo) que dialogam com a bateria e eletrificação do som. Completam a estética das canções as vozes de Baby Consuelo e Paulinho Boca de Cantor. As letras possuem rima fácil e são repletas de sonoridades e temas da juventude do período. Assim, o grupo associa de maneira inusitada elementos da contracultura cosmopolita e internacional, com as tradições culturais e regionalismos brasileiros. A partir deste disco, o grupo formula uma linguagem musical renovada e própria, que influencia vários compositores, bandas e movimentos musicais.

No lançamento, o disco tem impacto de público e vende, aproximadamente, 150 mil cópias, número expressivo para época. Canções como “Preta Pretinha”, “Acabou Chorare” e “Besta É Tú”, e “Brasil Pandeiro”, são amplamente divulgadas e integram o cancioneiro nacional. “A Menina Dança” participa da trilha sonora da novela Joia Rara (2013), da TV Globo. Em 1995, a canção também compõe o repertório do show da cantora Marisa Monte (1967), junto com “Mistério dos Planetas” e “Besta É Tú”. O espetáculo é lançado em DVD em 2004.  

Faixas

  1. “Brasil Pandeiro” (Assis Valente)
  2. “Preta Pretinha” (Luiz Galvão, Moraes Moreira)
  3. “Tinindo Trincando” (Luiz Galvão, Moraes Moreira)
  4. “Swing de Campo Grande” (Luiz Galvão, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor)
  5. “Acabou Chorare” (Luiz Galvão, Moraes Moreira)
  6. “Mistério do Planeta” (Luiz Galvão, Moraes Moreira)
  7. “A Menina Dança” (Luiz Galvão, Moraes Moreira)
  8. “Besta É Tu” (Luiz Galvão, Moraes Moreira, Pepeu Gomes)
  9. “Um Bilhete para Didi” (Luiz Galvão, Moraes Moreira)
  10. “Preta Pretinha” (Luiz Galvão, Moraes Moreira) 

Ficha Técnica da obra Acabou Chorare:

Fontes de pesquisa (7)

  • FILHOS de João, Admirável Mundo Novo Baiano. Direção: Henrique Dantas. produção: Bau Carvalho, Solange Lima, Adler Paz. Companhia produtora: Hamaca Produções Artísticas Ltda., Salvador, 2008. Documentário.
  • GALVÃO, Luiz. Anos 70: novos e baianos. São Paulo: Editora 34, 1997.
  • MOREIRA, Moraes. A história dos novos baianos e outros versos. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007.
  • NOVOS Baianos F.C. Direção: Solao Ribeiro. Documentário, 1973.
  • PEREIRA, Humberto Santos. O Mistério do Planeta: Um Estudo Sobre a História dos Novos Baianos (1969 - 1979). Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009.
  • SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, vol. 2: 1958-1985. São Paulo: Editora 34, 1998. (Ouvido Musical).
  • VARGAS, Herom.Tinindo trincando: contracultura e rock no samba dos Novos Baianos. Contemporânea: comunicação e cultura. Ufba , v. 9, 2011.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ACABOU Chorare. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69191/acabou-chorare>. Acesso em: 22 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7