Artigo da seção obras Reinações de Narizinho

Reinações de Narizinho

Artigo da seção obras
Literatura  
Data de criaçãoReinações de Narizinho: 1931 Local de criação: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Monteiro Lobato
Livro

Análise

Livro inaugural do conjunto de obras de Monteiro Lobato (1882-1948), Reinações de Narizinho (1931) é considerado fundador também da literatura infantil brasileira. Para apresentar o mundo infantil, volume estabelece o universo de Lobato, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, com conteúdo e linguagem nacionais. Desde a primeira publicação, em 1921, com o título Narizinho Arrebitado, tem mais de dez versões e edições, com edição definitiva em 1946.

As 11 séries de histórias que compõem o livro têm autonomia narrativa, pois se organizam segundo as aventuras vividas pelas personagens. A unidade pode se dar, por exemplo, na montagem de um espetáculo pelas crianças (“O Circo dos Cavalinhos”) ou por uma viagem (“Pena de Papagaio”). Há, no entanto, grande empenho em fazer o leitor penetrar cada vez mais nesse universo literário.

Os primeiros parágrafos situam o cenário – “Numa casinha branca, lá no Sítio do Pica-Pau Amarelo, mora uma velha de mais de 60 anos. Chama-se Dona Benta” – e introduzem as companheiras da dona da casa: a neta Lúcia, apelidada “Narizinho”, sua boneca Emília e a cozinheira Tia Nastácia. A primeira aventura prepara a atmosfera fantástica da sequência, incluindo o encontro de Narizinho com o Dr. Caramujo, capaz de dar voz à Emília, personagem preponderante. Mais adiante, com a chegada do neto Pedrinho e o aparecimento de figuras como o Marquês de Rabicó e o Visconde de Sabugosa, completa-se o núcleo presente em toda a obra infantil de Lobato.

Dona Benta e Tia Nastácia, as personagens adultas, são simpáticas às brincadeiras das crianças. Os limites do mundo adulto são forçados a tal ponto pelas vivências dos pequenos, que os netos conseguem levar a avó em uma de suas aventuras. Em outros livros de Lobato, as duas mulheres participam naturalmente das jornadas. Em uma delas, por exemplo, Dona Benta conhece o militar e senhor de terras alemão, o Barão de Münchausen [Karl Friedrich Hieronymus (1720-1797)], cujas histórias apresenta aos netos. Mesmo que se desloquem para outros locais, as personagens sempre retornam ao sítio. Nesse ambiente essencialmente brasileiro, as relações são democráticas, resolvem-se pelo afeto. A autossuficiência não implica fechamento para o o urbano (Pedrinho, por exemplo, é habitante da cidade).

Na obra do autor, o sítio, conforme analisam Marisa Lajolo (1944) e Regina Zilberman (1948), “passa a representar cada vez mais o Brasil do modo como Monteiro Lobato desejava que o país fosse”. Em Reinações de Narizinho não se colocam questões diretamente ligadas ao momento histórico, como o encontro de Narizinho com o ditador alemão Adolf Hitler (1889-1945), em A Chave do Tamanho (1942). As personagens, porém, admiram-se com o “bem-arrumadinho” reino das abelhas. A discriminação racial revela-se na relação de Tia Nastácia com os demais personagens. Narizinho apresenta-a: “Não reparem ser preta. É preta só por fora, e não de nascença”. Sua cor, conta a menina, é resultado da maldição de uma fada. Quando o encanto se quebrar, Nastácia “virará uma linda princesa loura”.

O posicionamento do autor quanto à literatura infantil e à linguagem veiculada é direto. Quando Dona Benta manda vir um exemplar de Pinóquio para ler para os netos, eles lhe pedem que o faça “à sua moda” – quer dizer, adaptando-o à linguagem das crianças. Numa época em que os livros infantis, traduzidos ou não de outras línguas, têm como padrão um português europeu distante da linguagem corrente, o narrador afirma: “A boa velha lia traduzindo aquele português de defunto em língua do Brasil de hoje”.

O esforço de Lobato pela escrita próxima à fala brasileira revela-se na escolha do vocabulário e na estrutura sintática. Exemplo disso é a fala de Emília: “Tudo isso não passa de potoca. Eu sei conhecer muito bem quando uma pessoa está mentindo ou falando a verdade...”. O termo “potoca” e a adoção do gerúndio são essencialmente brasileiros, e a combinação de verbo e advérbio é típica de uma criança. O empenho na construção de um patrimônio próprio ao público infantil revela-se, também, na participação de personagens universais em eventos do Sítio. Em duas ocasiões, figuras como Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Ali Babá, Barba Azul e Aladim visitam a propriedade.

Bem recebida pela crítica desde o início da publicação, a literatura infantil de Lobato é hoje estudada segundo a afinidade com o projeto modernista da década de 1920. A rejeição dos cânones gramaticais, o aproveitamento da cultura internacional e o nacionalismo revelam a ligação com o modernismo. Ideologicamente, no entanto, o autor se distancia dos posicionamentos predominantes na literatura adulta, defendendo uma modernização nacional alinhada com o modelo norte-americano.

Reinações de Narizinho é decisiva também em termos editoriais. Segue o exemplo de Saudade (1919), de Thales de Andrade (1890-1977), na ambientação rural da narrativa infantil e na adoção de uma língua nacional, e alinha-se com Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac (1965-1918) e Manoel Bonfim (1868-1932), como proposta pedagógica direcionada a crianças brasileiras. A primeira versão de Reinações (1921), tem tiragem de 50 mil exemplares, atingindo vasto público como livro paradidático. Aproveita um filão já instituído para ganhar autonomia e forjar o próprio.

Monteiro Lobato, a partir de Reinações de Narizinho, lança as bases comerciais e literárias para os livros infantis brasileiros. Colabora para legitimá-los como gênero e estabelece o paradigma da linguagem familiar e graciosa. Propõe um diálogo vivo com questões e características nacionais, sempre buscando o estímulo à imaginação.

Ficha Técnica da obra Reinações de Narizinho:

  • Outros Títulos
    • Reinações de Narizinho: contendo todas as travessuras de Narizinho, Pedrinho, Emília, Rabicó, o visconde de Sabugosa e o Burro Falante no Sítio de Dona Benta e as mais aventuras pelos mundos maravilhosos
  • Data de publicação
    • 1931
  • Autores
  • Local de publicação
    • Brasil / São Paulo / São Paulo
  • Editora
    • Companhia Editora Nacional
  • Classificação
    • primeiras edições
  • Idioma dessa tradução da obra:
    • português

Fontes de pesquisa (6)

  • ARROYO, Leonardo. Literatura infantil brasileira. 3. ed. São Paulo: Unesp, 2011.
  • KUPSTAS, Marcia. Monteiro Lobato. São Paulo: Ática, 1988.
  • LAJOLO, Marisa (Org.). Monteiro Lobato: literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 1981.
  • LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira. 4. ed. São Paulo: Ática, 1988.
  • LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Um Brasil para crianças: para conhecer a literatura infantil brasileira: histórias, autores e textos. São Paulo: Global, 1986.
  • ZILBERMAN, Regina. Como e por que ler a literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • REINAÇÕES de Narizinho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69189/reinacoes-de-narizinho>. Acesso em: 18 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7