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Literatura

O gênio do crime

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 07.02.2017
1969
O Gênio do Crime: Uma História em São Paulo, de 1969, é o livro de estreia de João Carlos Marinho (1935) e considerado pela crítica um marco da renovação da literatura infantojuvenil brasileira. Marinho, a exemplo de Lygia Bojunga Nunes (1932), é um dos expoentes da geração de escritores que, seguindo Monteiro Lobato (1882-1948), têm na literatu...

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Análise

O Gênio do Crime: Uma História em São Paulo, de 1969, é o livro de estreia de João Carlos Marinho (1935) e considerado pela crítica um marco da renovação da literatura infantojuvenil brasileira. Marinho, a exemplo de Lygia Bojunga Nunes (1932), é um dos expoentes da geração de escritores que, seguindo Monteiro Lobato (1882-1948), têm na literatura voltada a crianças e adolescentes o único compromisso artístico. Buscam explorar linguagem, temas e impasses próprios a um jovem urbano – para quem lendas e contos tradicionais de fundo moral e ambientação campestre já não fazem sentido.

Marinho parte de um interesse prosaico da vida dos meninos: as coleções de figurinhas de futebol. Edmundo, aluno da Escola Primária Três Bandeiras, tenta completar o álbum dos principais times e jogadores do futebol brasileiro da época. Pretende conquistar o prêmio oferecido pela Fábrica de Figurinhas Escanteio, responsável pela promoção: um jogo de camisetas tamanho do time predileto. Faltando-lhe a figurinha ídolo do Sport Club Corinthians Paulista, Rivelino, Edmundo percorre a cidade entre bancas de jornal e rodas de abafa sem sucesso. Por fim, é informado pelo amigo Pituca que, no largo de São Bento, região central, havia um cambista que entregava encomendas das  figurinhas mais difíceis. Impedido de ir ao encontro do homem, Edmundo pede a Pituca que faça a solicitação. Dias depois, com o álbum completo, os dois garotos correm à fábrica e deparam-se com uma situação inusitada: uma multidão de garotos, todos com os álbuns completos, reivindica o prêmio de direito e inicia um quebra-quebra. No auge da revolta, Edmundo convence os demais meninos a preservar a fábrica da destruição e lutar por seus direitos. Organizados, entram com uma ação judicial contra o dono da Escanteio, Seu Tomé. Apesar de condenado a dar o prêmio a todos os integrantes da ação, procura Edmundo e sua família para agradecer a postura do menino diante da fúria coletiva e revelar a verdade sobre o caso – a existência de uma fábrica clandestina que explora a febre dos colecionadores e prejudica seus negócios.

A ação principal inicia com o convite de Seu Tomé aos meninos para a investigar o falsário – o “Gênio do Crime” – por trás da adulteração das figurinhas. Para que a equipe de pequenos detetives se complete, Edmundo e Pituca contam com a presença cerebral de Bolachão (o Gordo), o único capaz de desvendar os itinerários do cambista até o cabeça da organização. Posteriormente, junta-se a eles o “detetive invicto” (imbatível no ramo), o escocês Mister John Smith Peter Tony, contratado pela fábrica após insistência do gerente para tirar os meninos do caso. Com a equipe montada, a investigação não demora a frutificar: apoiados no método da “perseguição ao avesso” de Bolachão, descobre-se a casa do cambista, um barraco instalado na marginal Tietê, próxima à escola de seu filho. De lá, o menino repassa a lista de figurinhas incompletas um emissário que, por sua vez, transmite-a por telefone. Num deslize do emissário, Gordo, infiltrado na escola do filho do cambista, consegue esconder-se no carro do bandido e chegar à fábrica, instalada no bairro da Penha.

Descoberto pelo Gênio do Crime (um anão capaz de imitar vozes) e seus dois capangas brutamontes, Bolachão é preso enquanto tenta transmitir, por telefone, o endereço da fábrica. É então torturado e ameaçado de morte. Isso só não acontece graças à perspicácia do garoto, que consegue imprimir nas figurinhas encomendadas um pedido de socorro que chega ao filho de um dos capangas. O garoto, sem saber que o pai é um criminoso, informa a polícia sobre o sequestro e, indiretamente, torna-se o responsável pelo fim do Gênio do Crime.

O Gênio do Crime pauta-se por uma combinação a ser fartamente explorada pela literatura infantojuvenil: aventura e investigação, tendo crianças por protagonistas e a realidade por cenário. Seguindo o exemplo de Monteiro Lobato, para quem não a capacidade fabulante da criança não contradiz sua inserção numa realidade material conflituosa, Marinho produz um brilhante casamento entre elementos do romance de mistério e investigação. Nele, o enredo depende da força pensante do protagonista (em geral, o detetive em busca da verdade) e o impulso criativo do pré-adolescente. Assim, insere a perspectiva de lutas e desigualdades. Nesse sentido, vale destacar o subtítulo do romance, Uma História em São Paulo, cidade apresentada sem meias-palavras ou restrições: Edmundo, Pituca e Bolachão transitam por bairros da classe média e pela favela; frequentam escritórios de advogados e fábricas; atentam para os problemas ambientais (a poluição do rio Tietê) e têm a oportunidade de observar um tecido social desigual e violento (não obstante o humor da narrativa), com destaque para a abordagem sutil das relações entre criminalidade e fragilidade social. Sem concessões ao impulso didático das obras infantojuvenis, Marinho consegue destacar aspectos da realidade que merecem fazer parte da formação mais ampla do jovem. Especificamente nesse ponto, O Gênio do Crime acomoda à perspectiva do pré-adolescente os fundamentos da literatura realista tradicional.

O Gênio do Crime é o primeiro dos 12 volumes dedicados às Aventuras da Turma do Gordo (o último deles, Assassinato na Literatura Infantil, publicado em 2005). Sua sequência desenvolve a relação entre a perspectiva do adolescente e pré-adolescente e a realidade – o que, diante das transformações brutais vividas pela sociedade brasileira nas últimas quatro décadas e meia, mostra-se tarefa complexa.  

Fontes de pesquisa 3

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  • BIASIOLI, Bruna Longo. As interfaces da literatura infantojuvenil: panorama entre o passado e o presente. Terra roxa e outras terras. Revista de Estudos Literários, Universidade Estadual de Londrina, v. 9, 2007.
  • DIAS, Mara Cristina Rodrigues. Escrever a leitura e ouvir a fala de jovens leitores. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
  • SILVA, J.C. Marinho. Conversando de Monteiro Lobato. Monografia publicada pela Editora Obelisco por ocasião dos 30 anos de Monteiro Lobato. In: O gênio do crime: uma história em São Paulo. São Paulo: Editora Obelisco, 1981.

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