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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

De Papo Pro Á

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.10.2017
1931
“Não quero outra vida/ Pescando no rio de jereré”, declara o matuto nos versos iniciais do cateretê “De Papo pro Á”, uma das mais conhecidas parcerias do compositor mineiro Joubert de Carvalho (1900-1977) com o poeta pernambucano Olegário Mariano (1889-1958), autores da igualmente famosa toada “Maringá”.

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Análise

“Não quero outra vida/ Pescando no rio de jereré”, declara o matuto nos versos iniciais do cateretê “De Papo pro Á”, uma das mais conhecidas parcerias do compositor mineiro Joubert de Carvalho (1900-1977) com o poeta pernambucano Olegário Mariano (1889-1958), autores da igualmente famosa toada “Maringá”.

Gravada em 1931 pelo cantor Gastão Formenti (1894-1974), com acompanhamento da Orquestra Típica Victor, a canção alcança enorme sucesso. É editada em partitura, levada ao teatro de revista[1] e executada no rádio por diferentes intérpretes. Em parte, a boa acolhida explica-se pela moda regionalista que então impera no meio musical brasileiro, com a valorização dos gêneros ditos sertanejos como a toada, o cateretê, a embolada e as modas de viola. Identificados a um mundo rural que contrasta com o cotidiano das grandes cidades, esses gêneros ajudam a criar um imaginário sobre a vida e o homem do sertão – palavra que designa qualquer região afastada dos centros urbanos. No caso do cateretê “De Papo Pro Á”, esse imaginário envolve cenas e paisagens típicas, como a noite de luar no terreiro ou a pesca de jereré – pequena rede afunilada usada para apanhar crustáceos e peixes miúdos. Envolve, também, certa visão sobre o caráter do sertanejo, apresentado como pacato e avesso ao trabalho:

Se ganho na feira
Feijão, rapadura,
Pra que trabalhar
Eu gosto do rancho
O homem não deve
Se amofinar.

Ao estereótipo da indolência sertaneja, soma-se o de sua musicalidade inata, vista como atividade lúdica e alternativa para fugir da solidão:

Quando no terreiro
Faz noite de luar
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á.

A ambiguidade da palavra “dela” (refere-se à saudade ou a uma mulher que o deixou, evocada pela noite de luar?). Isso faz com que a música funcione, ainda, no registro romântico.

Além da temática, outro elemento que e contribui para o sucesso da composição é o arranjo de Pixinguinha (1987-1973), composto para a gravação de 1931. Em vez de criar uma aura sertaneja usando instrumentos típicos, a exemplo da sanfona ou da viola caipira, Pixinguinha faz uma colagem com diferentes referências sonoras. A gravação inicia-se com um toque militar, recurso comum em suas orquestrações. Em seguida entra a clave, executando o padrão rítmico da rumba cubana, acompanhada pelo baixo e violão, que fazem um acompanhamento típico do maxixe. Começa, então, o solo do trompete (cujas inflexões melódicas evocam a música caribenha), acompanhado pelo clarinete. Juntos, dialogam por cerca de 25 compassos antes da entrada do cantor, quando, finalmente, o gênero cateretê se afirma. Ele se caracteriza pelas frases melódicas descendentes, que procuram mimetizar as inflexões da fala sertaneja.

O arranjo tem alguns de seus elementos, especialmente a introdução, aproveitados em gravações posteriores. Nos anos 2000, o intérprete Ney Matogrosso (1941) regrava-o no disco Batuque praticamente sem alterações, exceto por uma pequena correção na letra. Com efeito, na interpretação original de Gastão Formenti, os versos “Se ganho na feira/ Feijão rapadura/ Pra que trabalhar” são cantados “Se compro na feira/ Feijão rapadura/ Pra que trabalhar” – erro que, malgrado sua incoerência (como alguém que não trabalha pode comprar?), é perpetuado por muitos outros intérpretes.

Na década de 1940, “De Papo Pro Á”, ganha duas novas gravações, uma instrumental, com o violonista Laurindo de Almeida (1917-1995), e outra com o Trio Melodia. Mas é nas décadas seguintes que ela se torna uma referência da música brasileira, integrando o repertório grandes nomes do rádio. como Paulo Tapajós (1913-1990), em 1956, Renato Teixeira (1945), em 1986 e Ney Matogrosso, em 2001.

No total, são mais de 50 registros da canção, com releituras variadas, entre elas a de Sílvio Silva (1929-2008), o Garoto Assobiador, em 1956, e Aloysio de Oliveira (1914-1995), o produtor do Bando da Lua, em 1960. O violonista José Menezes, por exemplo, grava-a com acompanhamento rítmico de baião, enquanto a versão de Inezita Barroso lembra mais um bolero do que música caipira, sua especialidade.

Independentemente do estilo interpretativo, a longevidade da canção reside na força das imagens que evoca: o sertanejo simbolizando o ideal de vida em harmonia com a natureza, aliado a um ócio que nada tem de malandro. Esse tipo idealizado, que canções como “De Papo pro Á” ajuda a delinear, perpetua-se no imaginário social brasileiro.

Nota

1. Em novembro de 1931, a canção dá título a uma revista de Boiteux Sobrinho e Domingos Santos, que explora o sucesso da gravação.

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