Artigo da seção obras Nelson Cavaquinho

Nelson Cavaquinho

Artigo da seção obras
Música  
Data de criaçãoNelson Cavaquinho: 1973

Análise

Nelson Cavaquinho (1973, Odeon) reúne canções de destaque na carreira do compositor carioca que ele próprio não tinha gravado, como “Juízo Final”, “Folhas Secas”, “A Flor e o Espinho”, “Vou Partir”. Das 16 faixas do disco, dez são em parceria com Guilherme de Brito (1922-2006). Nelson Cavaquinho (1911-1986) compõe desde os anos 1940, mas só interpreta suas canções a partir da década de 10970. Cyro Monteiro (1913-1973), Roberto Silva (1920-2012), Dalva de Oliveira (1917-1972), Elis Regina (1945-1982), Nara Leão (1942-1989) e Elizeth Cardoso (1920-1990) são alguns de seus intérpretes.

Embora lance dois discos anteriormente (Depoimento de um Poeta, 1970, Discos Castelinho; Nelson Cavaquinho – Série Documento, 1972, RCA Victor), o LP de 1973 é o primeiro pensado com álbum autoral. Conta com uma entrevista cedida ao jornalista Sérgio Cabral na contracapa e maior mobilização do artista em torno da gravação. A produção é assinada por Pelão, apelido de João Carlos Botezelli (1942), produtor reconhecido no samba pelos discos de Cartola (1908-1980). Os dois trabalhos anteriores funcionam como registro fonográfico da obra e da voz do sambista, sem tanto esmero nos arranjos nem muito empenho na gravação.

O trabalho é o principal registro da alquimia entre a poesia fúnebre, o violão tocado com apenas dois dedos da mão direita e a voz rouca de Nelson Cavaquinho. A simplicidade e a intuição guiam os movimentos dos músicos nos três aspectos de forma única. Há, entretanto, algumas imperfeições: as rimas quase sempre simples, o toque áspero em faixas como “Pode Sorrir” e o canto desafinado e sem ar em músicas como “Mulher Sem Alma”, “Se Eu Sorrir” e “Pranto de Poeta”.

Na entrevista da contracapa do LP, Nelson Cavaquinho comenta sua rouquidão. “A minha voz, você sabe, é rouca mesmo. Mas o... Como é mesmo o nome daquele homem lá da América do Norte? Ah, o  Armstrong [músico de jazz norte-americano Louis Armstrong (1901-1971)], ele também era rouco. Há pessoas que gostam mais da minha voz do que a de muitos cantores por aí. Não sei porque, acho que é porque eu sinto. Há cantores que mataram a minha música. Eu tenho sentimento quando canto.”

Na maioria das faixas um, coro faz contraponto à voz solitária e rouca do artista. Introduções como as de “Juízo Final” e “Rugas” são preciosidades harmônicas. Paulinho da Viola (1942) diz: “As introduções de Nelson, ninguém faz como ele. [...] Nelson põe uma diminuta, faz uma sequência, uns acordes, dá uma volta e cai no tom que quer”. Guilherme de Britto canta duas músicas: “A Flor e o Espinho” e “Quando Eu Me Chamar Saudade”.

Apesar do nome artístico, o instrumento principal de Nelson, na época, é o violão, que chega ao ápice neste disco. No disco de 1973, no entanto, ele toca cavaquinho no choro “Caminhando”.

O disco é um bom exemplo de como a poesia de Nelson Cavaquinho, embalada por tristeza e desesperança, difere da de seu amigo Cartola. Este também canta sobre decepções e frustrações, mas oferece ao ouvinte alguma fé. Em as “Rosas Não Falam”, por exemplo, Cartola canta nos primeiros versos: “Bate outra vez / Com esperanças, o meu coração”. Em suas parcerias com Guilherme de Brito e Alcides Caminha (1921-1992), Nelson Cavaquinho, ao contrário, compõe versos pessimistas ou deprimidos:

Eu não sei porque
Isso acontece em minha vida
Mais uma ferida
No meu peito a sangrar (“Mulher Sem Alma”);

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor (“A Flor e o Espinho”);

ou

Lá vem a saudade
Outra vez me visitar
Que visita trise
Só me faz chorar (“Visita Triste”).

Nas letras do disco, Nelson Cavaquinho trata da própria morte ou da finitude:  “Subi o morro cantando / Sempre o sol me queimando / E assim vou me acabando” (“Folhas Secas”); “Sei que amanhã quando eu morrer” (“Quando Eu Me Chamar Saudade”); “Vivo tranquilo em mangueira porque / Sei que alguém há de chorar quando eu morrer” (“Pranto de Poeta”); “O tempo me ensinou assim / Me respeite até chegar meu fim” (“Pode Sorrir”).

“Juízo Final”, a primeira música do disco, é uma exceção e trata da vitória do bem sobre o mal: “Do mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente”. Melodia e harmonia, no entanto, não acompanham a esperança da letra, e o andamento do samba é triste, como toda a obra de Nelson Cavaquinho.

“Folhas Secas”, a segunda faixa, é composta em parceria com Guilherme de Brito para Beth Carvalho (1946). O músico e arranjador César Camargo Mariano (1943) mostra a música para Elis Regina e as duas cantoras gravam a composição no mesmo ano que Nelson Cavaquinho, em 1973.

“Rugas” é gravada em 1946 por Ciro Monteiro. Nelson Cavaquinho, na introdução de sua gravação da música, diz que Vinícius de Moraes (1913-1980) e Tom Jobim (1927-1994), quando o encontram, sempre pedem que ele a toque.

“A Flor e o Espinho” é lançada por Raul Moreno (1923-1995) em 1957, por Noite Ilustrada em 1964, e, um anos depois, por Elizeth Cardoso, com Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola nos violões. Nara Leão lança “Pranto de Poeta” em 1965. “Juízo Final” é gravada por Jair Rodrigues (1939-2014) em 1974; por Clara Nunes (1942-1983) em 1975, e por Beth Carvalho (1946) em 2001. Romulo Fróes (1971) grava “Mulher Sem Alma”, em 2006.

Ficha Técnica da obra Nelson Cavaquinho:

Fontes de pesquisa (4)

  • AUGUSTO, Sérgio. O Palhaço do amor. Folha de S.Paulo, São Paulo, 19 fev. 1986.
  • CABRAL, Sérgio. Entrevista com Nelson Cavaquinho na contracapa do disco Nelson Cavaquinho. 1973.
  • RAMOS, Nuno. Sobre Nelson Cavaquinho. Revista Serrote, São Paulo, n.1, 2011.
  • Texto não assinado do encarte do disco Nova Música Popular Brasileira – Nelson Cavaquinho, segunda edição. Abril Cultural. 1978.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • NELSON Cavaquinho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69174/nelson-cavaquinho>. Acesso em: 21 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7