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Literatura

Um mestre na periferia do capitalismo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 22.10.2019
1990
Publicado em 1990, Um Mestre na Periferia do Capitalismo traz o crítico Roberto Schwarz (1938) em sua mais alentada análise da obra de Machado de Assis (1839-1908). Tratando de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o volume sucede, temática e conceitualmente, a Ao Vencedor as Batatas (1977) e integra o projeto de compreensão da obra do maior p...

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Publicado em 1990, Um Mestre na Periferia do Capitalismo traz o crítico Roberto Schwarz (1938) em sua mais alentada análise da obra de Machado de Assis (1839-1908). Tratando de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o volume sucede, temática e conceitualmente, a Ao Vencedor as Batatas (1977) e integra o projeto de compreensão da obra do maior prosador da literatura brasileira.

Em Ao Vencedor as Batatas, Schwarz investiga as relações entre forma literária e sociedade brasileira, na formação do romance nacional. Partindo de José de Alencar (1829-1887) e Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) para chegar à primeira fase da obra de Machado, Schwarz observa que a produção deste assimila e reconfigura a tradição formada pelos primeiros. Tradição forjada entre a prosa realista europeia – pela representação dos conflitos entre burgueses livres numa sociedade capitalista liberal – e a estrutura socioeconômica brasileira, baseada na escravidão e no favor para o sustento de uma elite latifundiária. A partir do momento histórico, Macedo e Alencar constituem um realismo literário peculiar. Nele, a atenção dada aos modos da alta sociedade da corte coincide com o desinteresse pela matéria nacional nos termos da prosa europeia, isto é, do entendimento das contradições da realidade social brasileira. Nota Schwarz que Macedo e Alencar não mencionam a brutalidade das relações econômicas e de costumes das quais deriva o poder da elite urbana. O primeiro, com o realismo folhetinesco, é delicado e subserviente observador dos modos e aspirações da vida da elite proprietária na capital. O segundo, com visada mais crítica, busca retratar questões de fundo liberal. Em ambos, entretanto, a escravidão serve de pano de fundo pitoresco (Macedo) e aparece como sombra inquestionada (Alencar) a pautar relações superficialmente modernas. Segundo o crítico, este é o ponto de partida de Machado, que, desde os romances de sua primeira fase, busca um retrato mais preciso das relações de mando na sociedade brasileira.  

Há, porém, no projeto machadiano, uma ruptura entre a prosa acanhada dessa fase [Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878)] e a desenvoltura estética de Memórias Póstumas. No novo trabalho, Schwarz busca delimitar essa passagem partindo do imbricamento entre forma literária e processo social. Deste, destaca a atenção ao narrador e protagonista do romance, o autor-defunto Brás Cubas, e o que o crítico compreende ser sua volubilidade. Elevado à condição de “princípio formal do livro”1, o conceito será explorado em matizes. Assim, de fio condutor dos caprichos retóricos de Brás, que mobiliza a cultura ocidental com o intuito de justificar a própria picardia, a volubilidade ergue-se como quintessência dos modos de uma elite política e econômica que, apesar do verniz burguês e liberal – representado pelo narrador e adequado ao país recém-saído de sua condição de colônia –, impõe seu poder sob escravidão. Na contrapartida social, representada pelas memórias do narrador, o choque entre a racionalidade burguesa e a autolegitimação bárbara coincide com o convívio entre personagens orientadas pelo privilégio intocável dos mais fortes e a submissão dos mais fracos a seus favores. Isso contradiz a ordem estabelecida na Europa com o fim do Antigo Regime e a ascensão de uma individualidade moldada pelas normas da livre iniciativa, da competição econômica e da realização material, mediada por regras comuns. 

A partir da noção de volubilidade, Schwarz infere uma mudança de estratégia na prosa machadiana. Inicialmente estruturando um “narrador constrangido”2, interessado no “arranjo civilizado das relações entre proprietários e pobres”3, Machado traz essas relações para o centro de consciência narrativa, impondo sua lógica à matéria do romance. A mesma lógica com que se organizam as relações humanas no país, com seu desprezo à liberdade e ao trabalho, categorias de fundação da vida burguesa e liberal. Sintetiza o crítico: “Depois do proprietário visto da perspectiva do dependente, temos o dependente visto da perspectiva escarninha do proprietário, que se dá em espetáculo4. É sobre tal espetáculo que incide a ironia machadiana, ou “malícia narrativa”5, que contrapõe avanços e atrasos. O avanço é inerente ao verniz intelectual de Brás e aos modos pretensamente liberais da elite que o cerca (sua família, o cunhado Cotrim, o aspirante a ministro Lobo Neves e sua mulher, amante de Brás, Virgínia). O atraso está no resíduo colonial de raiz pré-moderna, relacionado à escravidão e aos mecanismos de manutenção de poder. Com isso, cria-se uma narrativa autoindulgente que joga contra si mesma. “Colado ao Brás Cubas solidário de sua classe, encontramos o seu alter ego esclarecido, com horror a ela, piscando o olho para o leitor”6 para indicar a barbárie inerente a si e aos seus. Concomitante à duplicidade da narração, Schwarz encontra “o arquiteto das situações narrativas”, o intelectual Machado de Assis, que afirma a conciliação da “efervescência do progresso, de que fazem parte as ideias liberais” do grupo social dominante, “e a iniquidade, que estas últimas condenam”7. Configura-se, assim, na narrativa que inaugura a segunda fase machadiana, uma modalidade original do que o crítico chama de “desprovincianização literária [...], seja degradando a figura das relações sociais locais, confrontadas ou expostas à norma e ao progresso da civilização burguesa, nunca sem vexame, seja desmoralizando a reputação incondicional desses mesmos progressos e normas8, nos quais o autor lê a afinidade hipócrita e o mesmo compromisso com a degradação da vida social.                  

Em Um Mestre na Periferia do Capitalismo, Roberto Schwarz exprime a convicção quanto à universalidade da obra de Machado, desfeita do interesse local e crítico que a move, e o “tom elegíaco” pelo fim de um momento histórico da sociedade brasileira, nele retratada. A obra de Schwarz é fundamental para a compreensão da literatura  machadiana e seu papel central na produção literária nacional.

 

 

Notas

1. SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. 4 ed. São Paulo: Duas Cidades: Editora 34, 2000. p.31.

2. Idem, ibidem, p. 227.

3. Idem, ibidem, p. 226.

4. Idem, ibidem, p. 228. 

5. Idem, ibidem, p. 124.

6. Idem, ibidem, p. 127.

7. Idem, ibidem, p. 127-128.

8. Idem, ibidem, p. 230.

Fontes de pesquisa 3

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  • ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas (edição comentada e anotada por Antonio Medina Rodrigues). São Paulo: Ateliê Editorial, 1998.
  • FAORO, Raymundo. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. 2 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976.
  • SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. 4 ed. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000.

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